O que houve com inglês que invadiu quarto da Rainha Elizabeth II enquanto ela dormia

Eram pouco depois das 7h de uma sexta-feira quando o inglês Michael Fagan, de então 33 anos de idade, escalou um muro de mais de 4 metros de altura do Palácio de Buckingham, no Reino Uindo. Naquela manhã, depois de atravessar tranquilamente os jardins do complexo que há mais de 250 anos funciona como a residência oficial da monarquia britânica, o intruso escalou a parede do prédio principal usando uma calha de chuva e entrou pela janela de um escritório.

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Fagan, então, vagou pelos corredores do palácio durante cerca de dez minutos. Quebrou um cinzeiro de vidro em várias peças, pegou um daqueles cacos do chão e entrou nos aposentos da Rainha Elizabeth II, por volta das 7h15. A monarca ainda estava dormindo, mas acordou quando o inglês desconhecido mexeu nas cortinas que cercavam a sua cama e se sentou na beira do colchão. "O que você está fazendo aqui?", perguntou ela ao despertar, com os olhos arregalados.

O episódio, ocorrido há 40 anos e considerado a maior falha na segurança da família real no século XX, desencadeou um escândalo político na Inglaterra. A edição do Jornal O GLOBO de 12 de julho de 1982 destacou, em sua primeira página, que a situação causara uma crise no governo. Na segunda-feira após a invasão, em meio a gritos de deputados exigindo sua renúncia, o então ministro do Interior da Grã-Bretanha, William Whitelaw, de pé no Parlamento inglês, declarou-se "chocado e abalado" devido à facilidade com que um estranho entrou em Buckingham e chegou até o quarto da rainha.

Conhecida como a "Dama de Ferro", a primeira-ministra Margareth Thatcher se levantou cedo naquela mesma segunda-feira para pedir perdão à monarca pessoalmente, no palácio invadido. Depois, foi até o Parlamento para ajudar Whitelaw a se explicar perante os deputados furiosos.

O assunto dominou os tabloides britânicos durante dias, principalmente quando se descobriu que aquela não fora a primeira vez de Fagan no palácio. Um mês antes, em junho de 1982, o penetra já havia adentrado o prédio. Ficou lá durante cerca de 30 minutos, sentou-se em diferentes tronos e bebeu meia garrafa de vinho antes de ir embora sem ser sequer incomodado. Porém, como naquela ocasião o inglês não foi flagrado, a violação passou despercebida pela imprensa.

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Dias depois, ele foi preso por roubar um carro. Passou três semanas na cadeia e foi liberado após pagar fiança. No dia seguinte, 9 de julho daquele ano, o pintor e decorador desempregado, pai de quatro filhos, invadiu novamente o palácio e, em questão de minutos, chegou ao quarto da rainha. Desde então, muito se especulou sobre que tipo de diálogo eles tiveram. Quando a série "The Crown" resgatou o ocorrido, na quarta temporada, em 2020, a produção usou licença poética para criar uma conversa na qual o intruso falou sobre as dificuldades que enfrentava. Mas não foi bem assim.

Numa rara entrevista, concedida ao jornal "The Independent" em 2012, Fagan disse que ele e Elizabeth II praticamente não trocaram palavras. "Eu estava mais assustado do que jamais estive em minha vida", contou o inglês, sobre o instante em que abriu as cortinas da cama e viu a rainha o encarando: "Então, ela falou e foi como o melhor vidro se quebrando: 'O que você está fazendo aqui?'". Ainda segundo o relato de Fagan, a chefe da Commonwealth, governadora suprema da Igreja da Inglaterra, levantou-se de pronto e passou por ele "com os pezinhos descalços correndo no chão".

De acordo com o relatório oficial elaborado sobre o caso, a rainha apertou o botão de alarme assim que acordou e viu o estranho sentado a menos de dois metros de distância dela. Mas nenhum segurança apareceu para acudi-la. A monarca, então, pegou o telefone ao lado de sua cama, ligou para a telefonista do palácio e pediu para ela chamar a polícia. Como, surpreendentemente, ninguém apareceu, Elizabeth II fez mais uma chamada, exatos seis minutos depois da primeira.

Antes que um policial chegasse, porém, a monarca de então 56 anos de idade atraiu a atenção de uma camareira e, juntas, elas conduziram o intruso até a despensa, sob o pretexto de dar a ele um cigarro. Só então, depois de cerca de 10 minutos desde que Fagan entrara no quarto da mulher que é a comandante das Forças Armadas do Reino Unido, apareceu um segurança (desarmado). Logo depois, chegou outro guarda, e o invasor foi, finalmente, retirado de lá.

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Ainda segundo o relatório, o intruso havia bebido cerca de dez doses de whisky e disse que pretendia cortar os pulsos na frente da rainha. Ele contou aos investigadores que aquela não era sua intenção ao entrar no palácio, mas que forjou esse "plano" após quebrar o cinzeiro. Mais tarde, foi encontrada na roupa de cama da monarca uma mancha de sangue, deixada por um corte superficial causado pelo pedaço de vidro na mão de Fagan.

O inglês foi levado a um tribunal, acusado de entrar no Palácio de Buckingham e roubar meia garrafa de vinho (na primeira invasão), mas as queixas foram removidas logo depois. Ele não foi denunciado por invasão porque, na época, esta era apenas uma ofensa civil, e não criminal. Fagan foi submetido a uma avaliação psiquiátrica e internado compulsoriamente em um hospital para pacientes mentais, onde ficou por alguns meeses, até sair em janeiro de 1983.

Dois anos depois, o inglês foi detido após atacar um policial e recebeu uma "pena suspensa" (espécie de liberdade condicional) de três meses. Em 1997, Fagan foi preso por tráfico de heroína e passou quatro anos na cadeia. Foi o crime mais grave de uma vida de pequenos delitos.

Em novembro de 2020, quando a série "The Crown" exibiu a sequência baseada na invasão de 1982, o diário britânico "The Telegraph" publicou uma entrevista com o intruso. De acordo com o jornal, Fagan estava com 70 anos de idade, casado havia 17 anos, com três netos, vivendo em Londres e se recuperando de problemas cardíacos e de sequelas deixadas pela Covid-19. Assim como na entrevista ao "Independent", o inglês disse que não sabia direito por que invadira o Palácio de Buckingham. Afirmou apenas que estava frustrado com problemas conjugais e o desemprego. Mas deixou claro que não estava arrependido.

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