O que o assassinato de João Alberto na porta do Carrefour significa no Dia da Consciência Negra

Ponte Jornalismo
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por Caê Vasconcelos, Arthur Stabile e Nathane Dovale

João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, morto após ser espancado por seguranças do Carrefour
João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, morto após ser espancado por seguranças do Carrefour

João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, foi espancado e morto por um segurança e um PM na porta de uma loja do supermercado Carrefour, no bairro Passo D’Areia, na zona norte de Porto Alegre na noite desta quinta-feira (19/11), véspera do Dia da Consciência Negra.

Segundo informações apuradas pela Gaúcha ZH, as agressões aconteceram após uma discussão dentro do supermercado com uma funcionária, um segurança de uma empresa terceirizada e um PM temporário, que estaria fazendo “bico” também como segurança.

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Ainda de acordo com a GZH, Magno Braz Borges e Giovane Gaspar da Silva foram detidos e presos em flagrante por homicídio qualificado. O segurança da empresa terceirizada foi encaminhado para o Presídio Central, e o PM encaminhado para o presídio militar, o BPG (Batalhão de Polícia de Guarda). O caso está sendo investigado pela 2ª Delegacia de Homicídios de Porto Alegre.

Ainda de acordo com a GZH, a delegada Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, afirmou que João Alberto pode ter tido uma “parada cardíaca decorrente das agressões e também pelo fato de ter sido pressionado contra o chão”.

À GZH, João Batista Rodrigues, 65 anos, pai de João Alberto, disse que foi chamado no mercado porque o filho teria sido preso. “Mas quando cheguei ao mercado, já vi os médicos, o atendimento e meu filho morto”. O pai afirmou que o filho era frequentador assíduo do mercado. “Ele ia dia sim dia não ao mercado. Ele quem me incentivou, inclusive, a fazer o cartão”.

Milena Borges Alves, esposa de João Alberto, também deu entrevista à GZH. “Eu estava pagando no caixa. Ele desceu na minha frente. Quando cheguei, ele já estava imobilizado. Ele pediu ajuda, quando fui, os seguranças me empurraram”. “Ele disse: ‘Milena me ajuda’, mas os seguranças não deixaram me aproximar. Seguiram com o pé em cima dele, e quando desmaiou, continuaram com o pé em cima dele. Um pé nas costas eu vi”.

Segundo Márcio, amigo de João Aberto, o Carrefour ficava ao lado da casa de ‘Nego Beto’, como era chamado por seus colegas e amigos. “O mercado que ele foi assassinado é um mercado que ele faz compra sempre, então sabiam quem ele era. Ele era um grande companheiro de arquibancada, trabalhador, classe média baixa, negro e assassinado brutalmente. Algumas vezes que entrei com ele no Carrefour, eu vi o que ele passava, porque os seguranças estavam sempre em cima, com marcação cerrada e com olhares cerrados. Ele não vai ser esquecido tão cedo. Pega a gente de surpresa, mas a gente faz uma breve reflexão e pensa que já era uma tragédia anunciada”, disse.

Em nota divulgada nas redes sociais, o Carrefour lamentou “profundamente” o caso. “O Carrefour informa que adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos nesse ato criminoso. Também romperá o contrato com a empresa que responde pelos seguranças que cometeram a agressão”.

O funcionário responsável pelo comando da loja, afirmou o Carrefour, também será demitido. “Em respeito á vítima, a loja será fechada”. Na nota, a empresa disse que “ao tomar conhecimento deste inexplicável episódio” iniciou uma “rigorosa apuração interna” e finalizou a nota afirmando que “nenhum tipo de violência e intolerância é admissível”.

O histórico do Carrefour mostra que o caso não é isolado. Em março de 2019, um cliente acusou o supermercado de racismo e discriminação após ser agredido por funcionários em São Bernardo do Campo (SP). Em setembro desse ano, uma funcionária sofreu racismo e foi demitida ao denunciar, no RJ. E isso não é algo apenas do Carrefour: em setembro de 2019, um jovem foi amarrado nu, agredido e filmado supermercado Ricoy, em SP. Em junho deste ano, um jovem foi seguido por seguranças do atacadista Assaí, em Mauá (SP).

Assassinato brutal

Para a médica Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, é preciso lembrar que o Dia da Consciência Negra “sempre foi um dia de luto, um dia de luta, um dia de externar a revolta e a raiva que a gente sente e sofre por conta do que o racismo faz com as vidas negras e com as vidas indígenas no Brasil e no mundo”.

“Dia da Consciência Negra é um dia de luta. Essa morte que aconteceu ontem nos lembra isso. Muita gente chama esse dia de celebração, estamos denunciando, estamos nos mobilizando, estamos chamando, estamos convocando o restante da população para se engajar no enfrentamento ao racismo. O assassinato brutal de João Alberto no Carrefour nos lembra isso: é preciso lutar contra o racismo e é preciso lutar agora”.

O Youtuber AD Junior aponta que, se fosse um assassinato nos EUA, como foi o de George Floyd (jogador de futebol americano estrangulado por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço durante uma abordagem em um supermercado), a morte de João Alberto teria parado o país. “As vidas negras no Brasil importam menos do que as vidas negras em outros lugares. Essa morte é muito brutal. A pessoa está sendo assassinada na frente das outras”.

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“Simbolicamente, isso mostra que esse dia é um dia em que a gente continua observando pessoas negras como alvo de qualquer tipo de violência sem ter nenhuma grande reação da comunidade brasileira. Esse caso é a realidade do país que mostra que as nossas vidas valem menos mesmo quando veem o assassinato acontecendo ali, na câmera. O que dói mais é isso”, completa AD.

O historiador Matheus Gomes, membro do Coletivo Nós por Nós e recém-eleito como vereador pelo PSOL em Porto Alegre, também lembra o assassinato de George Floyd: “A simbologia mostra como o racismo ainda organiza a ação das forças de segurança no nosso país. Os gestos, a forma como tudo aconteceu, remete àquelas imagens que a imprensa divulgou insistentemente entre maio e junho do George Floyd sendo assassinado. Isso mostra o poder de reprodução dessas formas de violência”.

João Alberto Silveira Freitas era cliente frequente do supermercado
João Alberto Silveira Freitas era cliente frequente do supermercado

Matheus lembra que a data do Dia da Consciência Negra nasceu em Porto Alegre. “Em 20 de novembro, na cidade que criou o propósito do 20 de novembro para o Brasil, é uma completa agressão a toda população negra e aqueles que querem uma sociedade justa e igualitária. Temos o dever hoje de se mobilizar, em Porto Alegre e em todo o país”.

“É um desrespeito com a maioria da população, que é negra. A gente espera que não só a empresa de segurança seja responsabilizada, mas também o Carrefour também, porque não é a primeira vez que um fato como esse acontece dentro dessa multinacional, dentro desse espaço que é inseguro para pessoas negras, que são sempre tratadas como suspeitas”.

Jurema Werneck pontua que o Carrefour precisa se posicionar sobre o assassinato para além da nota de repúdio. “A empresa precisa assumir a sua responsabilidade: contrataram seguranças capazes de violência homicida. A empresa permitiu que aquela violência homicida acontecesse em suas dependências sem fazer nada”.

Leia também: PM sufoca homem negro até ele desmaiar e lembra ação que matou George Floyd nos EUA

“A violência homicida que a gente viu é, provavelmente, a ponta do iceberg do histórico de racismo de pessoas negras na loja, na empresa. A empresa tem muito o que fazer. Primeiro explicitar o seu repúdio ao racismo, apresentar o plano de ação para enfrentar o racismo. Se foi possível haver aquela violência homicida, provavelmente há atos racistas cotidianos: de perseguição de pessoas negras na porta, de maus tratos, de desrespeito e de preconceito”, explica.

Werneck argumenta que a cena do assassinato é “brutal” e mostra como o “conluio racista produz estrago, produz desgraça”. “Duas pessoas estão espancando brutalmente um homem negro, uma funcionária da empresa está tentando impedir que aquela cena seja gravada. Certamente aquele supermercado não estava vazio, então tinham muitas outras pessoas assistindo aquela cena e não interfeririam, não salvaram a vida daquele homem”.

“Os funcionários não fizeram nada, sequer ligar para a direção da empresa para dizer que estava acontecendo aquilo, saber o que podia ser feito. Aquela cena explicita o conluio racista, é esse conluio que precisa ser quebrado, porque ele produz aquilo que vimos: dor, sofrimento e morte. Uma tragédia sem fim. A empresa tem que responder e tem que responder de forma séria, competente e responsável”, aponta.

Por isso, finaliza, o Carrefour e as lideranças da empresa precisam de um plano de ação efetivo. “O que acontece nas outras lojas desse mesmo grupo? Será que a mesma coisa está acontecendo? É preciso que a alta liderança lidere um plano de ação para reverter isso”.

“E isso passa por diferentes medidas, desde ações afirmativas, treinamentos, comprometimento explícito e cotidiano e reversão completa da contratação de empresas de colaboradores capazes de produzir tragédias como essas. Existem muitas coisas que eles podem fazer, mas têm que levar a sério e tem que fazer como monitoramento próximo das organizações dos movimentos negros”.

Para Dennis Pacheco, pesquisador do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), há uma naturalização da violência contra pessoas negras. “O fato de ser às vésperas não tem impacto no acontecimento desse tipo de caso, também porque existe essa sensação de impunidade e um dos perpetuadores era um policial militar. O processamento de casos de morte causados por policiais militares, especialmente contra vítimas negras e pobres, é muito insuficiente no Brasil”.

Repercussão nas redes sociais

Logo nas primeiras horas do dia, o assunto já era o mais falado no Twitter, com as palavras “Carrefour” e “assassinos” como assuntos do momento. Na manhã desta sexta, a frase “Vidas Negras Importam” também chegou ao topo dos assuntos mais falados.

O secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Sul se manifestou pelo Twitter. Na postagem, Ranolfo Vieira Júnior disse que o espancamento foi horripilante. “Vamos apurar esse fato a sua exaustão, não podemos admitir ações dessa natureza. As imagens são horripilantes, a Segurança Pública de nosso estado fará tudo para o seu total esclarecimento”.

Manuela D’ávila, candidata a Prefeitura de Porto Alegre pelo PCdoB, afirmou no seu Twitter que “o racismo que estrutura as relações de nossa sociedade precisa ser enfrentado de frente”. “As mulheres e homens brancos precisam assumir a sua responsabilidade na luta antirracista. Quantos Betos? Qual pessoa branca você viu ser vítima dessa violência?”.

O advogado Thiago Amparo, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), também se manifestou pelo seu Twitter. “Não queremos nota de repúdio. Queremos justiça para João Alberto Silveira, e para todos os milhares de negros(as) mortos cujas vidas importam sim. Queremos mais que viver, queremos justiça, reparação e poder. Por Zumbi, por Zeferina, pelos nossos: nossas vidas negras importam”.

Outro lado

Em nota, a Brigada Militar (nome da Polícia Militar no Rio Grande do Sul) informa que “

Imediatamente após ter sido acionada para atendimento de ocorrência em supermercado da Capital, a Brigada Militar foi ao local e prendeu todos os envolvidos, inclusive o PM temporário, cuja conduta fora do horário de trabalho será avaliada com todos os rigores da lei.

Cabe destacar ainda que o PM Temporário não estava em serviço policial, uma vez que suas atribuições são restritas, conforme a legislação, à execução de serviços internos, atividades administrativas e videomonitoramento, e, ainda, mediante convênio ou instrumento congênere, guarda externa de estabelecimentos penais e de prédios públicos.

A Brigada Militar, como instituição dedicada à proteção e à segurança de toda a sociedade, reafirma seu compromisso com a defesa dos direitos e garantias fundamentais, e seu total repúdio a quaisquer atos de violência, discriminação e racismo, intoleráveis e incompatíveis com a doutrina, missão e valores que a Instituição pratica e exige de seus profissionais em tempo integral”.