O que o BBB pode nos ensinar sobre episódios de racismo cotidiano?

Raphaela Ramos

Um episódio dentro da casa do Big Brother Brasil provocou uma mobilização na internet sobre racismo durante a última semana. Uma das participantes, Ivy, zombou do pente garfo utilizado por Babu. A mineira estava em um dos quartos com Gizelly e Pyong segurando o acessório – utilizado para dar volume ao cabelo crespo ou cacheado – quando questionou: "Quem penteia o cabelo com um trem desses?", em meio a risadas.

Muitos internautas reagiram nas redes sociais apontando a atitude como racista. Essa não é a primeira vez que o tema é levantado no BBB 2020. Muitos telespectadores também apontam preconceito na exclusão do ator, do qual algumas participantes já afirmaram sentir "medo", e recentemente no afastamento da médica Thelma, feito de forma mais sutil por alguns integrantes do maior grupo da casa.

Os dois participantes negros do programa, Babu e Thelma, que já demonstraram se apoiar dentro do jogo apesar de terem amizades diferentes, foram questionados pelos amigos sobre a afinidade entre eles. "Tem uma coisa que é maior do que nós", respondeu o ator para Prior, ao ser indagado sobre o "fechamento" com a anestesista. Thelma, por sua vez, afirmou que protege Babu, e já questionou por que as amigas dizem sentir "medo" dele.

Para a doutoranda em Sociologia Winnie Bueno, criadora da Winnieteca, os espaços de entretenimento e reality shows nos demonstram uma pequena parcela de como essas questões se dão em um sistema muito mais amplo, na vida real. Ela afirma que o isolamento e o comportamento de Babu sendo apontado a todo momento como agressivo são exemplos disso.

A autora do livro "Imagens de Controle: um Conceito do Pensamento de Patricia Hill Collins" – que fala sobre como se estruturam os comentários racistas e sexistas no cotidiano – explica que o racismo vai além de impedir uma pessoa de acessar um lugar porque ela é preta ou chamá-la de suja, por exemplo, abrangendo também outras condutas. Ela afirma que, desde que se tipificou o crime de racismo, muitas pessoas acham que ele se restringe ao que está na lei penal, o que não é verdade.

– A tipificação do racismo tem uma descrição restrita, por ser um crime grave e inafiançável, mas o comportamento e as estruturas de discriminação racial não estão contidas apenas no que é reconhecido como crime. O racismo é um sistema de dominação, que se estrutura em relação à sociedade e se atualiza a todo o momento. Se em uma época do nosso país a gente tinha esses comportamentos mais explicitados, nesse momento contemporâneo não significa que eles acabaram, só tomaram uma outra forma. – ela diz, e exemplifica: – Quando você isola uma pessoa negra, essa é uma forma de segregá-la.

A cientista política Nailah Veleci, por sua vez, concorda que o reality atua como um espelho da sociedade e afirma que atitudes como a polêmica envolvendo o pente garfo podem ser consideradas como racismo recreativo, aquele que utiliza a piada para praticar a discriminação.

– É rir de algo nosso, do nosso jeito de andar, do nosso corpo, jeito de falar ou de ser, e transformar isso numa piada para tirar um imaginário de que seja uma violência, mesmo sendo – ela explica.

A ativista negra chama atenção para o fato dos casos de machismo terem sido muito mais expressos dentro da casa do que as situações envolvendo o racismo.

– No programa, mulheres brancas já falaram sobre racismo fora da casa, mas quando chega o momento de falar do problema lá dentro, algumas situações são pontuadas por Babu e Thelma, mas nenhum deles consegue falar a palavra "racismo". Isso acontece na mesma casa em que tivemos uma ótima discussão sobre machismo e as pessoas entenderam e compraram a ideia – diz, e explica ser mais fácil discutir violências sofridas por pessoas brancas, pois são quem têm mais poder na sociedade.

Winnie Bueno afirma que um ponto central nesse debate é o fato dos sistemas de dominação e opressão não serem hierárquicos, mas atuarem de forma mútua e conectada, o que é chamado de interseccionalidade.

– Nesse momento, o discurso do machismo está se ampliando de forma bastante potente. Isso é importante e é resultado do ativismo e da luta de mulheres, de construção de uma teoria crítica feminista forte. O que acontece é que o desdobramento disso não necessariamente está conectado com pensar como esses sistemas se constroem mutuamente, e muitas vezes fica restrito a um feminismo limitado e racista – afirma.

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Black Power e a valorização da cultura negra

Após a repercussão do caso protagonizado por Ivy no programa, muitos internautas postaram fotos com seus pentes exibindo os cabelos cacheados e crespos. Nailah Veleci afirma que o preconceito em relação ao cabelo é comum no cotidiano e explica a importância de poder usar o cabelo natural para a identidade e a saúde mental das pessoas negras.

– Quando falamos de padrão de beleza, temos que pensar na política de branqueamento no Brasil, que envolve o genocídio da juventude negra, o encarceramento e os estereótipos. Temos um padrão de beleza que coloca o loiro de olhos azuis como lindo, e para nós negros é vendido que o nosso nariz, cabelo e cor são feios. A resposta do movimento negro é a consciência negra e a valorização da nossa cultura, por meio dos terreiros, rodas de samba, afoxés, black power, turbantes e estampas africanas, para que possamos nos olhar no espelho e nos vermos lindos – explica a cientista política. – É muito cruel você não entender porque todo mundo te odeia. Uma forma de combater o ódio é se valorizar.

Para entender mais sobre o tema, ela indica o artigo "Uma dupla inseparável: cabelo e cor da pele", de Nilma Lino Gomes. A ativista também afirma que uma das maiores lutas do movimento negro é humanizar as pessoas negras e tirá-las de estereótipos.

– Existe toda uma padronização de perfis: tem o estereótipo do homem negro estuprador, do homem negro violento, a hipersexualização, as mulheres negras raivosas ou então a "mãe preta", aquela que cuida e está sempre disponível – ela enumera.

Winnie Bueno também ressalta que atribuir a todo momento a agressividade a uma pessoa negra, seja ela homem ou mulher, é um exemplo de estereótipo racista.

– Essa ideia pode justificar, por exemplo, o tratamento que a polícia dá à população negra. Porque se esses homens e mulheres são agressivos, o estado tem permissão para ser agressivo também – afirma.

No que diz respeito às mulheres negras, a autora afirma que essa atribuição automática à agressividade é sustentada por um binário que impõe para as mulheres brancas um papel de docilidade e castidade, que também serve para controlá-las, porque não vão querer serem tratadas como uma mulher negra.

– Outro exemplo foi ano passado, quando a deputada Tábata Amaral interpelou o então Ministro da Educação, e muitos comentários apontavam como era era perfeita por ter mantido a postura e não levantado a voz. O problema não é a forma como ela fez, mas sim essa comparação. Dessa forma, você deslegitima a atuação de mulheres como a Talíria Petrone, por exemplo – explica Winnie Bueno, e afirma que esses comportamentos são reproduzidos no cotidiano, às vezes de forma inconsciente, baseados no enraizamento das estruturas racistas e sexistas.

A doutoranda em Sociologia afirma que as ferramentas de sustentação do sistema de dominação racista são muito amplas, tornando esse um problema complexo, e que por isso deve ser evidenciado. Ela cita uma recomendação para quem quer contribuir ao combate à discriminação racial: estudar.

– Temos que aproveitar esse momento em que estamos em isolamento, de quarentena, e ler muito sobre racismo, sexismo, fazer cursos, para sair um pouco das leituras mais superficiais e se aprofundar, ir na raiz do problema e radicalizar no combate ao racismo. Acho que só assim a gente pode ter uma sociedade mais justa – ela defende.

Para Nailah Veleci, uma das principais necessidades no momento é dar voz para que as pessoas negras falem e ocupem espaços em diferentes áreas.

– Muito do que discutimos hoje é o que os meus pais já discutiam em 80 e os pais deles antes. Temos pequenos avanços, chegamos nas universidades e hoje já somos especialistas. Não tem mais a desculpa de que não tem um especialista negro em determinado assunto. Acho que o que falta é dar espaço para que essas pessoas falem sobre tudo, porque tudo é racializado – conclui.