O que se sabe do caso Kathlen, grávida assassinada no Rio

·7 minuto de leitura

Assassinada durante Operação da Polícia Militar, a design de interiores Kathlen Oliveira Romeu, 24 anos, morreu após ser levada para o Hospital Salgado Filho, no Méier. A jovem, grávida de 4 meses, estava acompanhada da avó quando foi baleada na terça-feira (8). 

O caso repercutiu em vários veículos de imprensa, e levou moradores do bairro Lins de Vasconcelos, onde aconteceu a operação, a exigir justiça em manifestação nas ruas.

A operação foi feita pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do bairro Lins de Vasconcelos, na região Grajaú-Jacarepaguá. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) está investigando a morte.

O que já se sabe sobre o caso Kathlen:

Kathlen Romeu foi morta com tiro de fuzil no peito, diz IML

De acordo com a Polícia Civil, Kathlen Romeu foi atingida por um tiro de fuzil, que atingiu o tórax da vítima. O projétil, segundo o IML, não ficou alojado. Assassinada ontem durante Operação da Polícia Militar, a design de interiores morreu após ser levada para o Hospital Salgado Filho, no Méier.

As investigações da morte de Kathlen estão em andamento pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). Foram ouvidos cinco dos 12 policiais militares que estavam no local do crime. Também foram apreendidas as armas dos PMs: 10 fuzis calibre 7.62, dois fuzis calibre 5.56 e nove pistolas .40.

As diligências seguem para esclarecer todos os fatos e identificar de onde partiu o tiro que atingiu a vítima.

Testemunha diz que PM matou Kathlen: 'Não existiu troca de tiros'

Uma moradora do Complexo do Lins que estava no momento em que a jovem Kathlen Romeu, de 24 anos, foi morta, afirmou que os disparos partiram de um policial.

A testemunha prefere não ser identificada por medo de represália dos agentes da UPP do Lins, mas contou que não havia no momento da morte nenhum confronto entre policiais e bandidos, diferente da versão oficial divulgada até o momento.

"Eu estava na hora exata, eles (os policiais) já estavam escondidos dentro da comunidade desde as 6h da manhã. Não havia confronto, o que tinha eram as crianças e moradores circulando pela favela", afirmou a testemunha ao Yahoo Notícias.

Ela contou também que viu quando Kathlen e sua avó estavam descendo a rua da comunidade e, ainda segundo ela, pararam para combinar com um rapaz também morador do local de subir com as compras do mercado que iam fazer na sequência.

“Quando elas seguiram em frente, os policiais desceram do carro já atirando. Não houve troca de tiros, outras pessoas só não foram atingidas também porque Deus não permitiu. Só depois que ela foi baleada que os agentes perceberam o que tinham feito, chamaram reforço e colocaram a Kathlen na viatura, mas não queriam que a avó fosse junto no carro”, contou a moradora.

Madrinha de Kathlen afirma que PM voltou ao local para retirar cápsulas de balas

A caminho do velório de Kathlen Romeu, baleada em operação da Unidade de Polícia Pacificadora no Rio, Monique Messias falou com o Yahoo Notícias a respeito do caso. A madrinha da vítima contou que moradores da comunidade viram a PM retornar ao local do crime para retirar cápsulas de balas do chão, na intenção de ocultar os responsáveis pela morte da modelo.

“Já que a história repercutiu tanto, vamos ver se conseguimos justiça de verdade”, afirmou, dizendo acreditar que a jovem foi baleada pela Polícia.

A avó de Kathlen, segundo Monique, já havia alertado a respeito de operações na comunidade do Lins nos dias anteriores, afirmando que a área estaria perigosa. O crime ocorreu na esquina da rua onde Monique mora, entre as ruas Araujo Leitão e Sargento Jupir.

Ainda sobre a tarde de ontem, Monique contou que Kathlen caiu nos braços da avó, e que esta foi impedida pela PM de seguir na viatura junto da neta.

“A Kathlen era diferenciada na comunidade, a mãe dela lutou sozinha, desde pequena. As duas lutaram demais até conquistar o espaço dela”, conta.

Mãe de Kathlen rebate PM sobre tiroteio: 'Quem foi recebida a tiros foi minha filha'

Jaqueline de Oliveira Lopes, mãe de Kathlen Romeu, afirmou que partiu da PM (Polícia Militar) o tiro que matou a jovem grávida em uma ação policial no Complexo do Lins de Vasconcelos, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

"Foi a polícia que matou a minha filha. Foi a PM que tirou a minha vida, o meu sonho (...). Essa historinha que é contada há anos na televisão que foi troca de tiros, que a polícia foi recebida a tiros. Quem foi recebida a tiros foi minha filha, minha única filha", relatou Jaqueline, na manhã desta quarta-feira (9) no IML (Instituto Médico-Legal).

Kathlen estava grávida de 4 meses e foi atingida por um tiro no braço e que atravessou seu tórax. A jovem foi levada para o Hospital municipal Salgado Filho, no Méier, mas não resistiu. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) investiga a morte de Kathlen.

A mãe da designer de interiores confirmou que deixou recentemente a comunidade após 40 anos morando no Lins de Vasconcelos. Nesse período, segundo ela, foram diversos os casos e relatos de violência policial contra moradores da periferia.

Os nomes selecionados por Kathlen foram postados nas redes sociais em um texto que relatava a experiência e inspirações da jovem na gravidez. (Foto: Reprodução/Instagram/@eukathlenromeu)
Os nomes selecionados por Kathlen foram postados nas redes sociais em um texto que relatava a experiência e inspirações da jovem na gravidez. (Foto: Reprodução/Instagram/@eukathlenromeu)

Jovem grávida morta em ação policial já tinha escolhido nomes para bebê

Maya ou Zayon seria o nome do bebê que a design de interiores Kathlen Romeu estava esperando. A jovem de 24 anos estava grávida e já havia publicado em suas redes sociais um texto relatando detalhes do período e anunciando os possíveis nomes selecionados.

"Estou me descobrindo como mãe e fico assustada pensando em como vai ser...dou risada, choro e tenho medo. Um misto de sentimentos", escreveu ela, em uma publicação no Instagram há menos de uma semana.

A design de interiores também destacou, no mesmo relato, que estava "se descobrindo como mãe" e que a gravidez a instigava a ser motivo de "orgulho" e "admiração" das pessoas.

"Sabe aquela menina mulher que as pessoas admiram e tem orgulho?! Hoje ela quer ser mais e mais!!! Tudo por esse serzinho que eu carrego aqui dentro! Estou me descobrindo como mãe e fico assustada pensando em como vai ser..."

'Ceifaram a vida da minha filha e falaram que foi troca de tiros', diz pai

Ao falar com a imprensa, Luciano Gonçalves, pai de Kathlen, criticou a postura da Polícia Militar. “A minha filha faleceu. Ceifaram a vida da minha filha e falaram que foi troca de tiros. Não foi. Como foi ela, poderia ser eu, uma pessoa do bem e falariam que eu era vagabundo. Na maioria das vezes não é confronto”, declarou ao jornal O Globo.

Kathlen Romeu, de 24 anos, que estava grávida de 14 semanas, foi baleada e socorrida, mas não resistiu.
Kathlen Romeu, de 24 anos, que estava grávida de 14 semanas, foi baleada e socorrida, mas não resistiu.

'Perdi minha neta num tiroteio bárbaro', diz avó

A avó da jovem também se manifestou, afirmando que tratou-se de um crime bárbaro. 

“Foi tudo muito de repente. A minha neta caiu, começou muito tiro. Quando eu puxei ela caiu, eu me machuquei ainda, me joguei para proteger ela, que está grávida. Eu só vi um furo no braço dela e gritei para eles me ajudarem a trazer. Perdi minha neta e meu bisneto”, contou em entrevista à TV Globo.

Vida negra e favelada

Entidades e organizações se manifestaram sobre o caso, que ganhou repercussão nacional. O Instituto Marielle Franco, que leva o nome da vereadora morta a tiros em 2018, afirmou que “o Estado retirou mais uma vida negra e favelada”.

O caso repercutiu em vários veículos de imprensa, e levou moradores do bairro Lins de Vasconcelos, onde aconteceu a operação, a exigir justiça em manifestação nas ruas.
O caso repercutiu em vários veículos de imprensa, e levou moradores do bairro Lins de Vasconcelos, onde aconteceu a operação, a exigir justiça em manifestação nas ruas.

Através das redes sociais, a Coalizão Negra por Direitos, que reúne coletivos do movimento negro brasileiro, cobrou que o governo do Rio de Janeiro e o comando da Polícia Militar no estado sejam responsabilizados pela morte de Kathlen.

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.
Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.
Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos