O que se passa em Moçambique?

José Eduardo Agualusa
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O recente ataque de terroristas islâmicos à pequena cidade de Palma, na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, durante o qual foram assassinados dezenas de civis, entre os quais alguns estrangeiros, chamou a atenção do mundo.

Vivo parte do ano na Ilha de Moçambique, a 400 quilômetros de Cabo Delgado. Muitas pessoas me perguntam o que está, afinal, acontecendo ali. Pergunta difícil. O mais assustador é tudo o que não se sabe sobre os atacantes, as suas motivações, ligações e o mfinanciamento. Cinco anos após os primeiros massacres, são mais as suposições do que as certezas.

Tudo leva a crer que o principal objetivo dos ataques seja impedir a construção de um gigantesco projeto de exploração de gás natural, o maior investimento direto na África, que tem como principal patrocinador a companhia francesa Total. Os terroristas, que afirmam combater em nome do Estado Islâmico, estão bem armados e equipados.

Moçambique é um país extenso, com a capital, Maputo, numa das pontas, junto à fronteira com a África do Sul. Desde a independência do país, em 1975, que as províncias do norte, maioritariamente muçulmanas, se queixam de abandono — e com razão.

Cabo Delgado, com o tamanho de Portugal, tem pouco mais de dois milhões de habitantes. A escassa densidade populacional e a quase completa ausência do Estado permitiram a instalação no território de todo tipo de interesses obscuros, desde rotas de tráfico de heroína — vinda do Afeganistão e com destino à África do Sul e Europa — até o garimpo ilegal de pedras preciosas.

A construção do empreendimento da Total ameaça estes interesses, na medida em que cria novos polos de desenvolvimento, forçando o Estado moçambicano a cumprir o papel que lhe compete, construindo estradas, escolas, hospitais, quartéis e delegacias.

Por outro lado, Moçambique passará a concorrer com outros grande produtores de gás natural, entre os quais o Qatar e a Arábia Saudita, por sinal dois dos países que mais têm se destacado na promoção e no apoio ao fundamentalismo islâmico.

O exército moçambicano conseguiu uma primeira vitória em Palma, e está ganhando terreno em Mocímboa da Praia. Não parece possível, contudo, que o governo de Filipe Nyuzi seja capaz de derrotar sozinho os grupos terroristas responsáveis pelos recentes ataques. Pelo contrário, o mais provável é que esses ataques se multipliquem, alastrando-se a todas as províncias do norte. O que está em causa, a médio prazo, é a própria integridade do país.

Esta crise poderia ser uma oportunidade para as autoridades moçambicanas unirem a nação, face a um inimigo tão facilmente odiável quanto é o Estado Islâmico. Vários países prometeram ajuda militar. Ainda mais importante, contudo, seria apoiar o desenvolvimento sustentável da região, e a melhoria das condições de vida das populações. A Arábia Saudita vem oferecendo cursos de “teologia islâmica” a jovens moçambicanos desesperados. Se os países ocidentais lhes derem a oportunidade de estudar medicina ou engenharia, Moçambique terá amanhã médicos e engenheiros. Caso contrário, pode ter apenas mais fundamentalistas islâmicos.