O realismo possível

Na tarde de 8 de janeiro, durante quatro horas, foram vandalizados prédios que há trinta e seis anos são considerados Patrimônios da Humanidade. Vejamos a importância dessas obras-primas que devem ser eternas, independente das correntes políticas que, temporariamente, as ocupam.

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A Praça dos Três Poderes, 1957-1958, foi concebida no plano de Lucio Costa para ser o centro da nova capital brasileira. Compreendia o Congresso Nacional, o Palácio da Justiça – sede do Supremo Tribunal Federal – e o Palácio Presidencial. Houve um perfeito entrosamento entre os desenhos de Costa, os prédios de Niemeyer e os artistas convocados para realizar as esculturas públicas. Em muitos casos, o esboço do urbanista parecia antecipar a configuração arquitetônica dos prédios, realizando-se, assim, o ideal modernista de indistinção entre arquitetura, urbanismo e artes plásticas.

No Planalto, Oscar Niemeyer teve a oportunidade com que todos os arquitetos sonham: projetar, em grande escala, os mais importantes prédios de uma cidade que surgia do nada. Foi consolidada internacionalmente uma linguagem pessoal de leveza e liberdade que ofereceu uma alternativa ao exaurido racionalismo europeu.

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A composição uniforme e espetacular foi obtida por meio da simplificação e ousadia das formas. Niemeyer criou, a um só tempo, monumentos e símbolos nacionais que foram rapidamente absorvidos e incorporados pelo imaginário da população. As colunas dos palácios da Alvorada, do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, tornaram-se signos do Estado, do país e do seu desejo de progresso futuro.

O único elemento vertical da praça, ladeado por duas cúpulas de perfil côncavo e convexo, abriga a Câmara e Senado. Longas rampas e o diferente tamanho e posição das abóbadas conferem maior interesse à composição da Esplanada, evitando a monotonia que uma simetria perfeita poderia acarretar. O Congresso funciona como ponto focal e magnético da praça dos Três Poderes. Para lá confluem todos os olhares, enfatizando a centralidade do poder legislativo, onde o povo tem os seus representantes.

O estarrecedor ataque do último domingo se inscreve como um dos mais vergonhosos atos da história brasileira. Vandalizar obras-primas de nosso Patrimônio é somente concebível para aqueles que especularam reforçar o orçamento federal com a venda, a preço vil, de um marco da arquitetura mundial. Graças a Le Corbusier e um grupo de jovens arquitetos brasileiros, o Palácio Gustavo Capanema, primeiro prédio moderno em grande escala, foi construído no Rio de Janeiro, enquanto na Europa grassava a destruição da Segunda Guerra. De modos diversos, num curto espaço de tempo, foi ameaçado o berço do modernismo carioca e concretizado o brutal assalto a três importantes destaques da arquitetura e democracia brasileiras.

Há muito a ser feito, além da urgente restauração dos prédios atingidos: a criação de mentalidades que possam divergir sem atacar bens que deveriam ser protegidos por todos. A primeira geração modernista percebeu que não podia almejar o futuro desconhecendo o passado e criou o IPHAN, Instituto Histórico e Artístico Nacional, metodicamente desmontado nos últimos anos. O flerte com abismos não é um luxo ao qual possamos nos dar. Neste janeiro de 2023, peçamos o possível: sejamos realistas.

Lauro Cavalcanti é arquiteto e antropólogo social