'O rei do gado': elenco relembra novela que volta no ‘Vale a pena ver de novo’

“Só merece a terra aquele que a faz produzir, para si e para os seus semelhantes. O melhor adubo da terra é o suor daqueles que trabalham nela.” Foi com esse texto exibido na tela que Benedito Ruy Barbosa escolheu terminar a trama “O Rei do Gado”, transmitida pela TV Globo em 1996. A novela, que será reexibida no “Vale a pena ver de novo” a partir desta segunda, mistura cenários rurais, briga entre famílias imigrantes, um amor entre um latifundiário e uma boia-fria, além de discutir a reforma agrária.

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Na história, dividida em duas fases, as famílias italianas Mezenga e Berdinazzi fizeram fortuna no Brasil com criação de gado e plantações de café, respectivamente, mas se odeiam e acabam tendo os caminhos cruzados por diversas vezes. Inclusive quando o Rei do gado, Bruno Mezenga (Antonio Fagundes), se apaixona por Luana (Patricia Pillar), uma boia-fria que, no meio do caminho, descobre ser descendente dos Berdinazzi.

— Benedito gosta de falar sobre o brasileiro comum e isso me comove. Até hoje as pessoas chegam para falar da novela e da personagem — conta Patricia Pillar, lembrando como se preparou para interpretar Luana. — Durante 15 dias, morei em uma casa bem simples e convivi de perto com os boias-frias. Acordávamos por volta das 4h da manhã para ir trabalhar. Com eles aprendi a cortar cana e acompanhei toda uma rotina de luta e muito trabalho em condições precárias.

Unanimidade

Entre o elenco, a admiração pelo autor parece unânime. Antonio Fagundes conta que a novela foi um divisor de águas pela proporção e pelo apelo popular que ganhou.

— Nunca canso de frisar que sempre tive muito prazer em interpretar os textos de Benedito. São maravilhosos e com um tipo de realidade que os outros autores dificilmente abordaram — diz ele.

Um dos pontos marcantes da novela , ambientada no interior de São Paulo, foi a discussão a respeito da posse de terras. Liderados por Regino, vivido por Jackson Antunes, os sem-terra e seu movimento, o MST, ganharam destaque no folhetim e repercutiram fora dele. Assim como Patrícia, o ator fez pesquisa de campo. Viveu em um acampamento sem-terra por um mês e se dedicou à rotina daquelas pessoas, trabalhava e participava de reuniões, vestindo, literalmente, a camisa e o boné.

— O Regino discutia não invadir terras que eram produtivas, ele era contra armamento ou qualquer tipo de violência. Era uma espécie de Gandhi da reforma agrária. Me lembro que uma vez, enquanto a novela estava no ar, o MST estava fazendo uma marcha pra Brasília para tentar uma reunião e eu estava viajando com uma peça e, em dado momento, passei de carro pela marcha, abaixei o vidro, os cumprimentei e desejei boa sorte. Eles me reconheceram e começaram a gritar “Regino, Regino”, aquilo me comoveu, eu desci do carro, comecei a caminhar com eles um pouco e algumas pessoas ficaram emocionadas, me marcou muito — lembra o ator, compartilhando que sua família é da roça e que seu pai, José, era um trabalhador rural sem terra.

A força do interior

O sucesso de “O Rei do Gado” e das discussões que levantou na época foi tanto que o autor foi convidado ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, para falar dos temas que abordou. Presente na bancada estava Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia brasileira e latino-americana pela USP:

— Posso afirmar que “O Rei do Gado” foi uma das mais perfeitas produções que uniram ficção com temas sociais. Você praticamente não conseguia distinguir o limite entre ficção e realidade. Como uma “novela documental”. Além disso, não há como compreender o Brasil sem que nos debrucemos sobre o interior. É do interior que vem a força motriz que alimenta as máquinas das grandes capitais.

O recém-exibido remake de “Pantanal”, novela também escrita originalmente por Benedito e adaptada por Bruno Luperi, seu neto, foi sucesso de audiência. No elenco das duas versões estava Almir Sater. Em “O Rei do Gado”, Almir interpreta Aparício Pirilampo, cantor sertanejo que, ao lado do personagem de Sérgio Reis, forma a dupla Pirilampo & Saracura.

— Fico feliz de relembrar a novela, que foi muito importante, tanto que está de volta aos lares — diz Sater.