"O Rei Leão" é um filme para crianças? Especialistas opinam

O Rei Leão (Foto: Divulgação/Disney)

Com um elenco de dublagem de peso e um visual que se tornou polêmico na internet, ‘O Rei Leão’ volta aos cinemas nesta quinta-feira (18). Um live action da animação original, lançada em 1994, a notícia nos faz relembrar do nosso primeiro contato com a história e é possível que levante uma questão: afinal, será que esse é mesmo um filme para crianças?

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A pergunta tem sentido, principalmente se você lembrar da trama central: o pequeno Simba vê o pai morrer de forma trágica e é banido do reino em que vive. Sozinho e triste, ele encontra amigos na selva que o ajudam a se reestabelecer, antes de ser chamado a retomar o seu lugar de direito.

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Com isso em mente, assistir o filme "depois de grande" pode gerar o típico comentário que os adultos têm, de que esse, no fim das contas, não é filme para crianças. Mesmo sendo uma animação, mexe com assuntos delicados que até adultos têm dificuldade de lidar. Por que com os pequenos seria diferente?

"As crianças são como os adultos, não estão livres do sentir. De acordo com suas condições de entendimento, sentem e sofrem diante das experiências reais ou não", explica o psicólogo e psicanalista Ronaldo Coelho, mestre em psicologia institucional pela USP.

Os filmes infantis têm caráter lúdico e podem auxiliar a criança nessa apreensão, pois as crianças apreendem o mundo e elaboram sentimentos através do brincar. Elas sentem, sim, ao verem cenas impactantes em filmes, ainda que infantis

Porém, segundo o profissional, aprender através desses filmes não é um problema. Na verdade, pode ser um facilitador, para que ela entenda e compreenda as dificuldades da vida.

‘O Rei Leão’ como fonte de aprendizado infantil

Foto: Reprodução

Além de ‘Rei Leão’, quem lembra de Bambi sabe que ele também pode gerar desconfortos em crianças, afinal, o pequeno veado perde a mãe em uma cena bastante marcante, que envolve um incêndio e caçadores.

No caso da morte, Ronaldo explica que essa é uma oportunidade das crianças entenderem melhor sobre como lidar com a perda: "Eles ajudam a criança a construir a noção de morte e a lidar com a finitude. A construção da narrativa, distanciada das pessoas que ela ama, mas representando-as, possibilita a construção de uma concepção sobre a morte que pode ser de assimilação mais fácil do que quando ocorre com a perda efetiva".

Pode acontecer, é claro, de algumas crianças ficarem mais impactadas com as cenas do filme do que outras. Isso varia por causa de alguns fatores, como idade, a sua experiência pessoal com a morte e a forma como os adultos ao seu redor lidam com os seus questionamentos.

Esse conjunto de premissas faz com que ela se sinta mais ou menos impactada por cenas como a de Simba com o pai, ou de Bambi com a mãe - e que gerem até uma memória que a acompanha durante a vida.

"Sabemos que crianças que viveram, quando ainda bebês, uma experiência de apego seguro com a mãe vão lidar com a perda de forma diferente daquelas que possuem apego inseguro, pois as experiências de perda recuperam essas primeiras vivências", diz o psicólogo.

No primeiro caso, o apego seguro, a criança tem a tendência a explorar melhor os ambientes que a cercam e fica menos angustiada quando está distante da mãe por algum motivo. Já no segundo cenário, o apego inseguro, são casos em que o pequeno se irrita com mais facilidade, não suporta ficar longe da mãe, é mais medroso ou choroso.

Esses dois tipos de relacionamento com o meio que a envolvem fazem com que a criança desenvolva uma percepção diferente de cenas que, para outras, não gerariam desconfortos - como é o caso da história de Simba. O resultado disso pode ir de uma sensação de tristeza e medo até um trauma mais sério, representado em uma dificuldade de falar sobre o assunto ou lidar com ele caso venha a ocorrer.

Quando (e como) falar sobre morte com crianças?

Foto: reprodução

Ao contrário do que se imagina, a recomendação de Ronaldo não é introduzir o assunto, de maneira pró-ativa, com a criança. O ideal é esperar que ela traga os questionamentos - quer seja depois de ver um filme como ‘O Rei Leão’, quer seja porque ouviu sobre o tema na escola ou teve, ela mesma, um caso de perda na família.

"De acordo com as experiências, as crianças recorrem aos pais com questionamentos para compreender e elaborar. Mesmo no caso de um filme, é melhor a criança ver o filme antes", diz ele.

Outro ponto importante: normalmente, a criança dá a direção do que ela já tem condição de lidar de acordo com as suas perguntas. O papel do adulto, então, é ouvir e responder de acordo com a verdade, segundo o que ela perguntou e com um vocabulário que ela possa compreender.

"A gente não tem que mentir para as crianças, mas sempre falar que a morte aconteceu e que isso acontece com todo mundo", diz Thais Bustamante, pediatra e neonatologista. "Nunca usar mentiras, como 'viajou e nunca mais volta' ou 'virou estrelinha', porque a criança precisa entender que a morte é um processo natural e faz parte da vida".

O principal é deixar a criança conduzir a conversa. Quando se sentir satisfeita com as respostas, ela para de perguntar ou conclui com uma explicação que ela considera o suficiente para aquele momento.

O melhor é não criar as crianças como se o mundo fosse de fantasia. Ou seja, como se só houvesse coisas boas e alegres

Isso significa que é essencial que ela tenha contato com cenas que, no ideal adulto, são difíceis de lidar, mas seja acolhida nos seus questionamentos sobre o tema.

Evitar que a criança veja um filme como ‘O Rei Leão’ ou antecipar para ela que a história é triste é antecipar sentimentos que não se sabe se vão existir (por exemplo, o medo gerado pela expectativa de algo ruim), ou dar à ela elementos que ela não está pedindo.

"Esses filmes não devem ser excluídos das crianças. Tudo depende de como nós adultos passamos isso", explica a pediatra. "É possível que as crianças tenham reações diferentes, a depender da faixa etária e da experiência de cada um, mas o mais importante é a conversa".

É sempre válido lembrar que ser verdadeiro não significa ser curto e grosso, seco ou sem emoções. É possível e desejável que você seja acolhedor, compreensivo e converse com a criança de maneira interessada, para que ela se sinta cuidada e à vontade para tirar essas e quaisquer outras dúvidas que tenha ao longo do tempo.