'O rei pálido': livro póstumo de David Foster Wallace é declaração de renda, aridez e sensibilidade

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Os personagens de “O rei pálido” encaram o tédio absoluto. Sua rotina é navegar uma papelada infinita, que exige atenção minuciosa mas não desperta interesse, num esforço repetitivo e numa linguagem burocrática impenetrável, por horas e horas, até chegarem quase à loucura. Não parece o assunto mais animador para um romance de 600 páginas — mas o livro impressiona ao aliar dramas humanos pungentes e engenhosidade formal.

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Este terceiro romance de David Foster Wallace ficou inacabado com o suicídio do autor, em 2008. Sua viúva e sua agente convocaram o editor do segundo romance, “Graça infinita” (1996), para montar este livro. Tarefa ingrata: o material não ajudava — uma massa de notas com perguntas do autor a si mesmo — nem as circunstâncias — imensa pressão do mercado e expectativa dos fãs pelo lançamento do autor já idolatrado em vida. Daí o resultado meio ambíguo.

O lado ruim: é um livro claramente incompleto, apesar de extenso. Poucas personagens têm conflitos bem estabelecidos, e as que têm um sólido ponto inicial quase não o desenvolvem. Ocorre o mesmo com a ambientação do romance, cheia de possibilidades que, devido à trágica morte de Wallace, ficarão aquém de seu potencial.

As histórias giram em torno de um departamento do IRS, a Receita Federal dos EUA. As personagens convergem para uma sede no Meio-Oeste, em meados dos anos 1980, num momento de transição política, cultural e tecnológica: o governo Reagan quer gerir o IRS como uma empresa, maximizando a receita, enquanto a digitalização ganha força e ameaça os alicerces de papel daquele mundo de declarações, formulários, requisições, adendos, alíquotas e similares.

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Aí se encontram uma versão ficcional e jovem do autor, confundido com um homônimo veterano do IRS; um funcionário de Recursos Humanos com o dom de adivinhar informações inúteis sobre os outros; uma agente egressa de um hospital psiquiátrico; um bebê com aspecto “feroz”; espectros de ex-funcionários; e muitos personagens pitorescos, embrionários, cujos dramas variam entre o absurdo e o trivial, às vezes na mesma frase.

A cena da chegada do “autor” do livro ao IRS ilustra muito bem a fusão de absurdo e trivial. Boa parte dela se passa entre o aeroporto e a sede da instituição, literalmente no meio do caminho: num congestionamento medonho. Com sua prosa autoconsciente e hiperdetalhista, Wallace transforma um contratempo do dia a dia numa jornada claustrofóbica — os vidros estão fechados e ninguém conversa —, na qual se sente a agonia a cada sinalização ruim, a cada curva de volta ao início da fila. O tempo parece tão imóvel quanto os carros neste encontro dos infernos de Dante, Kafka e Beckett.

Se o lado ruim estava na elaboração de personagens e enredo, o ponto forte do livro está justamente no trabalho minucioso da linguagem, na experimentação formal capaz de tornar épico um engarrafamento. Linguagem de grande versatilidade: misturam-se descrições líricas, fragmentos aforísticos, um capítulo de cem páginas que coloca o leitor como ouvinte de um monólogo quase psicanalítico, outro capítulo construído apenas de diálogos, ironia em profusão etc.

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É verdade que nem sempre o estilo de Wallace mostra tanto vigor: o jogo com as notas de rodapé parece aqui um dos truques típicos do pós-modernismo que, já bastante esgotados a essa altura, se mostram mais chamativos do que eficazes. Também cansa a discussão metalinguística em torno da “fidedignidade” destas supostas “memórias”.

Mas, quando não se reduz ao espalhafatoso, o estilo de Wallace consegue uma proeza. Usa o jargão, a aridez, a impenetrabilidade e o tédio contra eles mesmos, perfurando a parede do discurso em busca do que está além dela: um coração que palpita, uma mente que sofre, a consciência e a sensibilidade alheias. É o que se vê num dos melhores capítulo do livro, sobre um agente que descobre no IRS o sentido da vida, depois da perda trágica de seu pai num acidente do metrô, seguida da provação burocrática para que alguém, algo, fosse responsabilizado.

Distração fácil e redes sociais

Assim, nos melhores momentos, “O rei pálido” torna palpável uma ideia recorrente ao longo do livro: o que há do outro lado da chatice? O que perdemos ao evitar o tédio e ceder à tentação fácil do entretenimento a qualquer preço, a todo instante? Boas perguntas para manter em mente no intervalo entre redes sociais, conforme navegamos uma tela infinita, que desperta interesse mas não exige atenção, num estímulo repetitivo e numa linguagem sedutora, por horas e horas, até quase a loucura.

Henrique Balbi é escritor e professor de literatura, mestre em Estudos Brasileiros e doutorando em Literatura Brasileira na USP

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