O retorno das Tartarugas Ninja traz seu melhor formato nos games

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Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge (Divulgação)
Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge (Divulgação)

Em março, a produtora francesa Dotemu revelou o trailer do próximo game das Tartarugas Ninja, Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge, que regressa ao estilo beat ‘em up dos arcades, os famosos brigas de rua dos fliperamas nos anos 1980 e 1990, o qual é considerado o melhor estilo de game já tido pelo quarteto. Ainda não há previsão de lançamento, mas o trailer, com cover da trilha sonora pelo lendário Mike Patton de Faith No More, tem chamado atenção de gamers e fãs dos personagens.

“Espero espetaculares retornos ao passado, frases de efeito decentes, pizzas para recuperar a energia dos heróis e um ótimo passatempo”, aponta Marissa Roberto, canadense que é uma das principais jornalistas de games na atualidade e apresentadora da TSN Sports em exclusiva ao Yahoo Brasil, sobre suas expectativas para o retorno dos ninjas guiados pelo Mestre Splinter que enfrentarão a vingança de seu algoz, o Destruidor (Shredder).

As Tartarugas Ninja foram criadas em 1984 pelos quadrinistas americanos Kevin Eastman e Peter Laird, seu auge se deu no fim da década e início da seguinte com série animada, filmes e os mencionados games.

Durante as décadas é comum ter um regresso de produtos culturais de duas décadas anteriores, nos anos 80 voltaram os 60, nos 90 se deu com a década de 1970, porém desde os anos 2000 até o momento vemos influências, referências, remakes, reboots e outros regressos para a cultura de massa dos anos 1980.

O sociólogo brasileiro Dr. Cláudio Coelho, da Faculdade Cásper Líbero, explica este fenômeno ao Yahoo Brasil: “As corporações empresariais são instituições direcionadas para a busca do lucro e trabalham com a perspectiva de que seus produtos serão comprados pelos consumidores. É mais fácil convencer o público a adquirir um produto que ele já conhece, e que recebeu algum tipo de atualização que o torna novamente atrativo, do que estimular o consumo de um produto com o qual os consumidores não possuem, ainda, uma familiaridade.”

O novo game possui estilo retrô e será lançado para as plataformas de consoles atuais e PCs, para Marissa Roberto este gênero sempre teve apelo atrelado aos seus lançamentos. “Muitos membros das gerações X e millennials cresceram jogando games como seu hobby preferido.”

A produtora Dotemu tentou reviver a franquia Double Dragon, o primeiro jogo beat ‘em up da história, em 2018, sem muito sucesso, porém superou as expectativas com Streets of Rage IV, último capítulo da clássica franquia também de beat ‘em ups lançado ano passado. Dotemu, especialista no estilo retro, busca trazer um “perfeito balanço entre nostalgia e expectativas modernas”, conforme seu site.

Para Marissa Roberto o apelo está em ser “definitivamente uma oportunidade para reconectar com sentimentos antigos que nos trouxeram alegria e a oportunidade de dividi-los com as crianças. Para os jogadores mais jovens, a estética é importante e qual estética é mais adorável que a retro?”.

“Como vivemos em um mundo em que as mudanças causadas pelo desenvolvimento tecnológico acontecem com velocidade cada vez maior, há uma tendência para temermos o futuro, já que não sabemos qual o lugar que conseguiremos ocupar nele, e nos refugiarmos em uma valorização nostálgica de aspectos do passado, principalmente aspectos relacionados ao consumo de produtos que fizeram parte do cotidiano anteriormente”, observa Coelho sobre os games retrô e sua função social.

Marissa Roberto crê que jogar games retrô é como “visitar sua escola de Ensino Médio quando se é mais velho. As coisas parecem as mesmas, só que menores. Para jogos... Tudo parece igual, mas a jogabilidade é mais difícil do que lembramos”.

Os beat ‘em ups já foram mais populares, porém nunca alcançaram a fama e a popularidade dos jogos de luta mano-a-mano como as séries Street Fighter e Mortal Kombat, o que tinham era a possibilidade de jogar cooperando com um amigo, e no caso de arcades formar grupos de três ou até seis jogadores simultâneos.

“São mais divertidos com amigos. Isto é um fato!”, atesta a gamer. “Foram feitos para serem jogados como no passado, no sofá com seu amigo ou irmão (irmã) esculachando os inimigos e atuando juntos para bater o chefão de cada fase.”

A indústria de games hoje é mais lucrativa que a do cinema, para Coelho o principal trunfo dos games é a interatividade, a qual abre para identificação ou projeção dos jogadores com seus avatares indo “além do que o cinema propicia”, ainda mais, considerando contextos, games estão inseridos em um universo competitivo.

Espancando o Destruidor e sua gangue para esquecer a pandemia

Com a pandemia de Covid-19 que trouxe mortes, desempregos e outros males, a indústria dos games foi uma das que conseguiram se manter uma vez que devido às restrições para convívio social e circulação em espaços públicos, “oferece, principalmente para os jovens, uma oportunidade de manutenção de um convívio social, mediante os jogos online e as diferentes formas de interatividade que esta modalidade proporciona”, afirma o acadêmico.

E além da pandemia o mundo tem experimentado manifestações por direitos humanos, mudanças climáticas, crises econômicas e outros fenômenos sendo assim os games são além de um refúgio em um universo ficcional podem ofertar “a sensação de que algo que era vivido antes, que já fazia parte da vida cotidiana, pode continuar a ser vivenciado mesmo em um período em que as condições são muito diferentes.”

Dentro da história dos videogames Leonardo, Donatello, Raphael e Michelangelo possuem um lugar especial. “Tartarugas Ninja é um dos melhores jogos do NES (Nintendo Entertainment System). Um jogo essencial para muitos donos daquele console, e Turtles in Time ainda é um dos melhores beat ‘em ups que há. Os gamers gostam das tartarugas”, avalia Marissa Roberto para qual Turtles in Time lançado em 1991 para arcade e no ano seguinte para SNES (Super Nintendo Entertainment System) é o ápice da série.

A relação de propriedades intelectuais do passado e games já dura décadas, “mas sua dinâmica mudou. Ao invés de games serem ‘o prato de acompanhamento ou o molho’ de uma animação popular, agora podem ser o motivo pelo qual uma audiência mais jovem consome um programa ou desenho animado com seus heróis favoritos dos games”, acredita Marissa Roberto.

Ainda sobre o sucesso de produtos retrô, Cláudio aponta o conceito de Modernidade-Líquida do filósofo do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017): “a modernidade líquida, com a sua tendência para modificações constantes dos principais aspectos da vida cotidiana, pode favorecer, como já foi dito antes, uma valorização do já conhecido e uma nostalgia pelo passado, por aquilo que já foi consumido antes, ou que lembra algo consumido antes.”

Em tempos de crise e de necessidade de escapar de uma perturbadora realidade, as Tartarugas Ninja, mesmo que ainda sem data prevista de lançamento, prometem trazer um divertimento leve e escapista, algo ainda mais bem-vindo no cenário atual.