O retorno de Suárez ao Uruguai: como o craque reencontra o futebol do país após 15 anos

Quinze anos se passaram desde que Luis Suárez deixou o time que o revelou, o Nacional do Uruguai, e foi alçar voos mais altos na Europa. Depois de passar pelo futebol da Holanda e da Inglaterra, consagrou-se na Espanha, como parte do trio MSN (Messi, Suárez, Neymar) do Barcelona que encantou o mundo. O cenário que o atacante de 35 anos encontrará a partir desta terça-feira, quando reestreia pelo clube, contra o Atlético-GO, pela Sul-Americana, é bem diferente daquele em que brilhou nos últimos tempos. Das maiores ligas do planeta, ele vai para um torneio nacional que tem cara de Campeonato Carioca, com só dois times grandes (Nacional e Peñarol) em meio a muitos pequenos ruins e estádios acanhados. Desde 1932, quando a Liga Profissional do Uruguai foi criada, somente em dois anos uma final não teve a participação de pelo menos um dos dois grandes, Nacional ou Peñarol.

— A liga que ele vai encontrar, competitivamente, é bem inferior ao que está acostumado, sem dúvidas — avalia o editor de esportes do jornal uruguaio El País, Juan Pablo Romero: — Não pode competir com outras em nível continental, está muito longe. Sem falar no Brasil, que para mim é uma bolha em relação ao resto do continente. Hoje, o nível do futebol uruguaio não é bom, os jogadores vão para o exterior muito jovens. Aqueles que voltam, voltam já numa idade para se aposentar. A diferença de Suárez é que ele ainda está em vigor e sendo protagonista.

O desempenho dos dois grandes do Uruguai corrobora com a ideia de que o futebol do país está em crise no continente. A última vez em que um time do país chegou a uma decisão foi em 2011, quando o Peñarol perdeu para o Santos na Libertadores em 2011. Nenhums equipe uruguaia conseguiu chegar à decisão da Sul-Americana, torneio criado em 2002. E esta é uma das grandes aspirações de Suárez neste retorno ao Nacional, além, é claro, de se manter em atividade até a Copa do Mundo do Catar. Todos os ingressos para vê-lo em ação esta noite já foram vendidos. A partida contra o Atlético-GO será no estádio Gran Parque Central, em Montevidéu, com capacidade para 34 mil espectadores.

Hoje, este é um dos principais estádios do país, em pé de igualdade com outros dois também localizados na capital: o Campeón del Siglo (para 40 mil pessoas), do Peñarol, e o Centenário, que passou por reformas no ano passado para comportar 60 mil torcedores na final da Libertadores de 2021.

— O nível dos estádios melhorou em relação a outras épocas, mas ainda há um longo caminho a percorrer. O Parque Central tem um dos melhores gramados, é muito bom. Passou por reformas recentes que melhoraram o estádio por inteiro. O Centenário foi reformado ano passado e tem um bom campo de jogo. E o Campeón Del Siglo, embora tenha mostrado algumas irregularidades ultimamente, está bem — analisa Romero.

Ele explica que é provável que Luisito não jogue nos estádios menores. A tendência é que os clubes pequenos levem suas partidas para o Centenário, com o intuito de lucrar com a venda de ingressos dos torcedores que querem ver o ídolo uruguaio em campo, mesmo que no time rival. Até agora, das 14 equipes, só o Liverpool, lanterna do campeonato, manifestou interesse em sediar o duelo contra o Nacional em casa, no estádio Belvedere, com capacidade aproximada de 8.500 torcedores, de acordo com seu site oficial.

Fuga de talentos

Luis Prats, também do jornal El País, acredita que a saída de talentos cada vez mais jovens para a Europa tem grande parcela de culpa na crise do futebol uruguaio.

— A questão é econômica. Está se tornando cada vez mais difícil para o Uruguai competir internacionalmente porque suas equipes duram menos de um ano. Veja o Peñarol: foi semifinalista da Sul-Americana em 2021 e, dos titulares, nove já saíram, além de dois reservas. Em muitos casos, fica acordado que quando chega uma oferta do exterior, o jogador está livre para ir. O tamanho do mercado é muito pequeno e a TV paga valores muito pequenos em comparação não só com o Brasil ou Argentina, mas com outros países sul-americanos — conta o jornalista.

Assim como ocorre no Brasil e em diversos países da América Latina, muitas equipes não se vêem em posição de recusar as ofertas milionárias.

— Darwin Núñez é a nova figura do Liverpool, Valverde é uma figura no Real Madrid, Araújo no Barcelona... O problema é que esses jogadores foram para o exterior com 18 ou 19 anos, porque é impossível mantê-los. O clube não pode dizer não às ofertas, porque os parentes do atleta começam a fazer pressão, dizem que é uma oportunidade única e que não há outro remédio senão a transferência — afirma Prats.

Retorno financeiro

Com a volta do craque formado em casa, o Nacional espera não só resultados em campo, como fora dele. Quer lucrar com a venda dos ingressos e também com a comercialização de produtos. A camisa oficial de Suárez, por exemplo, está sendo vendida por quase 5 mil pesos uruguaios, aproximadamente R$ 640 - mais de 5 mil já foram comercializadas desde domingo. Já são mais de 4 mil novos assinantes da Nacional TV, que fornece conteúdos audiovisuais exclusivos, desde o anúncio do retorno de Suárez. O dinheiro vai ajudar a custear o salário do jogador, que topou reduzir seus vencimentos para se adequar à realidade do Nacional.

— Suárez vem porque decidiu vir, não porque busca aspectos econômicos. Isso é muito claro, é por amor. Ele vai ter o maior salário do elenco, mas outros três jogadores já ganham nessa faixa. Ou seja, ele não vai ganhar muito mais que os mais bem pagos do time, e isso foi um pedido dele — finaliza Romero.

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