'O Rio é o meu estado', justifica Bolsonaro sobre desejo de mudar comando da PF

Matheus Schuch, do Valor
Presidente Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro respondeu que "o Rio é meu estado", ao ser questionado nesta terça-feira sobre o motivo de ter pedido ao ex-ministro Sergio Moro para trocar o superintendente da PF no estado. Ele citou, na sequência, a menção feita ao seu nome na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL).

Bolsonaro foi citado pelo porteiro do condomínio onde mora, o Vivendas da Barra, como o responsável por ter autorizado a entrada do ex-PM Élcio de Queiroz no local horas antes do crime. Em fevereiro, peritos da Polícia Civil atestaram que a entrada do suspeito foi autorizada por Ronnie Lessa, morador do condomínio que, assim como Élcio, está preso por envolvimento no assassinato da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes. No dia, Bolsonaro estava em Brasília e registrou presença no plenário da Câmara.

— O Rio é o meu estado, o Rio é o meu estado. Vamos lá. O caso do porteiro. Eu fui acusado de tentar matar a Marielle, quer algo mais grave? Quem quer que seja, o presidente da República ser acusado de assassinato? A Polícia Federal tem que investigar, por que não investigou com profundidade? — disse o presidente.

Ele repetiu que durante as investigações do caso Marielle também se mencionou que um filho seu teria namorado a filha de um dos acusados. Bolsonaro diz que "depois de muito custo" a Polícia Federal ouviu o suspeito em Mossoró e que ele afirmou que a filha dele sempre morou nos Estados Unidos.

O presidente argumentou que “querem colocar na conta” dele e de seus filhos o vereador Carlos (Republicanos - RJ) e o senador Flávio (Republicanos - RJ) a morte de Marielle. Segundo o presidente, "eles não são investigados pela PF". Bolsonaro também afirmou que não tem cabimento a narrativa de que o superintendente da PF no Rio, Carlos Henrique Oliveira, é seu desafeto, pois foi convidado para ser secretário-executivo pelo novo diretor-geral da PF, Rolando de Souza.

Bolsonaro foi questionado outras vezes sobre o depoimento do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, concedido após ele pedir demissão acusando Bolsonaro de tentar interferir politicamente na PF. O presidente não quis entrar em detalhes sob pretexto de que ainda não leu a íntegra do depoimento de Moro. No entanto, ele afirmou que “em nenhum momento” o ex-ministro disse que o presidente cometeu um crime.

Em outra parte da declaração à imprensa, em que não permitia interrupções, o presidente mostrou em seu celular um trecho da conversa com o ex-ministro Moro, em que o presidente compartilhou uma notícia sobre investigação de deputados bolsonaristas. Moro havia apresentado um trecho da conversa ao Jornal Nacional. As mensagens foram entregues por Moro à PF no dia de seu depoimento.

Bolsonaro mostrou o conteúdo anterior à reclamação dele ao ministro, em que Moro diz: “Isso eh fofoca. Tem um dpf (deputado federal) atuando por requisição, no inquérito da FakeNews, que foi requisitado pelo Min (Ministro) Alexandre (de Moraes). Não tem como negar o atendimento ah requisição do STF (sic)”.

O presidente ampliou a declaração à imprensa ao saber que TVs estavam transmitindo ao vivo. Ele afirmou que “o pior já passou” sobre casos e mortes de coronavírus no país. O presidente afirmou ainda que nunca tomou medidas contra a mídia e negou que alguém tenha falado em sua frente sobre fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal no ato do último domingo. Bolsonaro, no entanto, acenou e interagiu com os manifestantes, além de declarar que não vai mais "admitir interferência" em seu governo e que chegou "ao limite". O presidente disse ainda ter o apoio das Forças Armadas, sem detalhar a que se referia.

Após a entrevista, chegaram ao Alvorada para uma reunião com o presidente o ministro da Justiça e Segurança, André Mendonça, e o advogado-geral da União, José Levi. Bolsonaro disse que a AGU o defenderá no caso, pois não tem recursos para pagar um advogado que já atuou na Lava-Jato, em referência indireta ao defensor contratado por Moro.