O rochedo à nossa frente

Segundo reza a lenda, o navegador português Nuno da Cunha, fidalgo arrogante e pretensioso, achou-se um dia no meio de uma terrível tempestade. O piloto da nau em que seguiam, de regresso a Portugal, vindos da Índia, advertiu-o da urgência em desviar o rumo da mesma, porque corriam o risco de embater contra um enorme rochedo e naufragar. Nuno da Cunha olhou-o furioso: “Como diz? Quer que me desvie? Eu, Nuno da Cunha?! Desvie-se o rochedo, porque Nuno da Cunha jamais se desviou!”

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Lembro-me de Nuno da Cunha enquanto aguardo, perdido entre o prodigioso caos de um aeroporto europeu, que um avião me leve para um segundo aeroporto, que deverá estar, com toda a certeza, tão ou mais congestionado do que este.

Nuno da Cunha somos todos nós; o rochedo é a devastação ambiental, que gerou o aquecimento global, que gerou mais devastação ambiental. Veio a seguir a pandemia de Covid, vieram as cheias, os furacões e os ciclones; veio a onda de calor sem precedentes — trazendo um desfile de incêndios, e de secas terríveis —, com que muitos países europeus se confrontam neste preciso momento. Na passada terça-feira, por exemplo, a habitualmente fria e cinzenta cidade de Londres atingiu os 40,3 graus Celsius. Um recorde absoluto, que está a deixar os ingleses sem ar.

Conhecemos bem a dimensão do rochedo que se ergue diante de nós, e a mortal matéria de que é feito. Ainda assim, insistimos em manter a rota, e até aumentamos a velocidade com que nos precipitamos em direção a ele; vamos cada vez mais depressa, cada vez mais depressa, esperando que seja a natureza a desviar-se.

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Um bom exemplo desta irracionalidade e arrogância é o próprio fato de eu estar aqui, neste aeroporto, cercado por uma multidão ululante. Quantas destas pessoas precisavam mesmo de viajar? Eu não precisava. A maioria, provavelmente, também não.

Durante a primeira vaga da pandemia, prometi a mim mesmo que, caso escapasse, caso a Humanidade escapasse, mudaria o meu estilo de vida: passaria a comer menos carne, começaria a andar mais a pé e de bicicleta dentro das cidades nas quais me movimento, e só viajaria de avião em caso de absoluta necessidade.

Venho cumprindo as duas primeiras promessas. O planeta pode não ter sentido a diferença — mas eu sinto. Deixar de voar tem sido mais difícil. Os aeroportos estão cheios de pessoas como eu, que, após dois anos aprisionadas em casa, anseiam por viajar.

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Melhor seria, contudo, se estivéssemos plantando árvores, para reduzir a nossa pegada ecológica. Leio, horrorizado, uma recente reportagem sobre a Amazônia, no jornal francês Le Monde, na qual se afirma que, em 2021, a grande floresta perdeu uma média de 16 árvores por segundo. Volto a prometer a mim mesmo que nos próximos meses viajarei menos. Prometo que plantarei mais árvores.

Antes do meu pai falecer, em fevereiro deste ano, prometi-lhe que plantaria um limoeiro no quintal da minha casa, na Ilha de Moçambique, com o nome dele; e, logo ao lado, uma laranjeira com o nome da minha mãe. Vou começar por aí.

Nuno da Cunha naufragou. Morreu no mar.

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