O silêncio inglório de Arthur Lira e Augusto Aras

A horda de milicianos ideológicos que invadiu o Capitólio naquele 6 de janeiro de 2021, em Washington, seguiu a palavra de ordem lançada pelo próprio 45º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aquartelado na Casa Branca: interromper a qualquer custo o processo democrático em curso naquele dia. Isto é, impedir seu vice-presidente, Mike Pence, de certificar em ata a vitória nas urnas do democrata Joe Biden para lhe suceder. Como os amotinados traziam no peito graus variados de intoxicação cívica, prevaleceu a eclosão da fúria dirigida —aquela que se alimenta da falsa coragem coletiva. Houve mortos, mais de cem policiais do Legislativo ficaram seriamente feridos (dois se suicidaram nos dias seguintes), e Pence correu o risco real de ser degolado pela malta trevosa de Trump, o homem a quem servira com fidelidade por quatro anos.

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Ainda assim, Pence não emitiu até hoje uma condenação pública ao complô golpista envolvendo seus antigos parceiros de governo. Seu silêncio deve ser atribuído à submissão, medo? Ou faro político de candidato à Presidência em 2024? Covardia? Ou estratégia para um disputadíssimo livro de memórias? Pouco importa, Pence nada precisa falar. Sozinho, ele fez mais pela continuidade democrática dos EUA do que a soma dos agentes públicos daquelas horas caóticas — na hora H, ele decidiu concluir o rito de certificação de Joe Biden como vencedor nas urnas. Arriscou alto, meio que às cegas. Mas revelou ter serenidade cívica e consciência histórica. Isso não o torna menos ultraconservador no espectro político do Partido Republicano, nem menos retrógrado em questões de gênero. Mas faz dele um servidor público com direito a verbete encorpado.

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O que nos leva ao silêncio inglório de um Augusto Aras, de um Arthur Lira e demais associados trevosos do atual mandante nacional. Raras vezes, em tempos modernos, um presidente do Brasil conseguiu gerar uma avalanche de repúdio tão maciça a um ato oficial quanto Jair Bolsonaro na segunda-feira passada. Eram mais de 50 os integrantes do corpo diplomático estrangeiro convocados ao Palácio da Alvorada para uma apresentação que revelou ser uma arapuca, em que o anfitrião/candidato à reeleição falou por 45 minutos. Tema único, com transmissão pela TV Brasil, canal no YouTube e Facebook: críticas e calúnias ao sistema eleitoral brasileiro.

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Deu ruim. A comunicação formal de Bolsonaro de não respeitar o resultado do sistema eletrônico, a seu ver suspeito, virou bumerangue diplomático e levou quase uma centena de entidades de relevância nacional a despertar do torpor cívico. Há três anos e meio, notas de repúdio a atos bolsonaristas repetem o protocolar brado de impotência “é inadmissível” ou “é inaceitável” ou ainda “é intolerável”, quando, na realidade, já o admitimos, o aceitamos e o toleramos. Desta vez, o “inadmissível” — o presidente do país convocar plateia mundial para proclamar sua desconfiança no resultado das urnas — é de fato inadmissível. Cabendo, portanto, avaliação e encaminhamento jurídicos.

Portanto, foco total no procurador-geral da República, Augusto Aras, invisível por estar de férias. Quando, por fim, materializou-se, após um hiato de três dias de silêncio sepulcral, apareceu a bordo de uma gravata tropicália numa gravação antiga, em que afirma que quem sair vencedor nas urnas será empossado. Baita coragem “diante dos últimos acontecimentos no país”, como o causídico classifica o golpismo explícito do presidente da República! Com o mutismo de Arthur Lira, presidente da Câmara que deve representar o voto e os anseios da população brasileira, a história é outra. Difícil dizer qual o mais desprezível para o cargo que ocupa. Em relação a Bolsonaro, Aras é devedor. Lira é avalista, pode mais. O primeiro foi reconduzido ao cargo sob aplausos do Senado, e o segundo comanda o latifúndio do orçamento secreto — portanto, até nova ordem, pode continuar a esquecer que algum dia foi servidor público.

Quanto desperdício para um país ter de lidar com figuras desprezíveis — elas abundam na órbita bolsonarista —, quando a emergência maior deveria mirar na sustentabilidade da vida. Mas vamos em frente. Deveríamos ter aprendido melhor o que ensinou a pensadora mestra do século XX: somente depois de admitir que, em qualquer tempo, tudo é possível, conseguiremos nos confrontar honestamente com o que somos. E só então poderemos resistir à perigosa realidade chamada mundo. A receita de Hannah Arendt?

— O que proponho é muito simples: nada além de pensar o que fazemos.

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