O sonho da lona própria: palhaço Xulipa busca uma sede para seu projeto social

Karina Maia e Rodrigo Berthone
Palhaço Xulipa. Rener Avilis sonha ter um lugar fixo para ensinar sua arte

RIO — Artista circense há 22 anos, Rener Avillis, mais conhecido como o Palhaço Xulipa, decidiu que é o momento de retribuir tudo o que o picadeiro lhe trouxe. Através da fusão entre cultura e esporte, ele e amigos de diferentes formações fundaram uma escola social gratuita que atende principalmente jovens carentes de Jacarepaguá, região onde mora. Agora, o grupo procura meios para viabilizar a instalação de uma sede fixa na área ou nos arredores.

— Foi a Escola Nacional do Circo que me tirou da rua e me deu todas as oportunidades da minha vida — diz Rener, que hoje, aos 46 anos, decidiu oferecer a mesma chance a pessoas como aquelas que ele foi um dia.

Assim nasceu a Associação Multi Arte Cultura e Esporte do Rio de Janeiro (Amace-RJ), que por enquanto atende seus alunos em diferentes locais, onde for possível.

— Com o tempo, descobri que tenho facilidade de passar o que aprendi. Porque uma coisa é você saber fazer, outra é saber ensinar. Tenho gosto nisso, me sinto realizado quando vejo um aluno fazendo algo que eu ensinei — conta o palhaço, que vem tocando o projeto ao lado de mais sete pessoas.

Avilis trabalhou em circos conceituados como Koslov, Tihany e Reder. Embora se diga mais feliz debaixo da lona, acabou optando por se apresentar em eventos, explica, um filão mais lucrativo.

Há seis meses, ele e os amigos tomaram todas as providências burocráticas necessárias para o nascimento da ONG. Porém, para o idealizador do projeto, embora o circo seja uma atividade nômade por natureza, uma escola necessita de um endereço permanente para formar adequadamente novos profissionais.

— Quero colocar uma criança dentro da Amace e só tirá-la de lá quando ela se tornar uma artista — anuncia.

Em busca de um espaço, a associação está para enviar um requerimento à prefeitura pedindo que lhe seja cedido um terreno na Colônia Juliano Moreira ou na Praça Valdir Vieira, localizada na Taquara. O diretor financeiro da organização, Marcelo Aguiar, salienta que a organização também está aberta à proposta de qualquer instituição privada que tenha interesse em oferecer à Amace um espaço físico permanente.

— O requerimento é um pedido à prefeitura para que ceda um dos dois locais a fim de podermos montar a sede da Amace e atender os jovens carentes gratuitamente. Mas não sabemos a quem entregá-lo: já estivemos na Superintendência da Barra e nos disseram que não era lá — afirma Aguiar. — Ainda não temos ideia de valores, mas estamos cientes de que, se a prefeitura nos ceder um local, teremos que pagar uma espécie de aluguel. Outra possibilidade seria termos ajuda de uma entidade privada.

Enquanto não soluciona a questão, Xulipa explica que vai ministrando as aulas com boa vontade e criatividade, como já fazia antes de constituir a ONG. Se alguém demonstra vontade de aprender, ele se adapta à sua realidade para ensinar. Mas o ideal seria ter sua própria lona, reforça, pois os alunos acabam se dispersando.

— Eu vou às comunidades, uso as praças, busco algum espaço físico para poder ensinar. Mas isso é muito ruim, porque não sei onde estão esses alunos. Após duas ou três aulas em locais improvisados, nunca mais os vejo — lamenta.

Almoço beneficente adiado pelo coronavírus

Apesar do DNA, a Amace não oferece apenas oficinas de acrobacia, malabares e equilibrismo, entre outras atividades circenses. Mesmo ainda volante, ela também já ministra cursos de dança, arte reciclada, música, primeiros socorros, artes marciais, xadrez e atendimento pré-hospitalar.

Entre os projetos futuros estão uma fábrica de salgadinhos, academia de ginástica, palestras educacionais, bazar, fábrica de vassouras produzidas com garrafas PET, cultivo hidropônico de plantas, biblioteca e sessões de cinema.

— Eu, Rener, não sou só o Palhaço Xulipa, profissional do circo. Sou profissional de outras áreas também. Fabrico os meus equipamentos, como os trampolins e as claves. Trago essa bagagem do meu pai, que é metalúrgico. Por isso, quando a Amace surgiu, eu não quis ficar limitado só ao circo.

Além de pedir à prefeitura um espaço para instalar a sede de seu projeto social, Avilis vem procurando outras formas de viabilizar a iniciativa. Uma delas é um almoço beneficente, a ser realizado no Clube Olímpico de Jacarepaguá, que fica na Estrada dos Três Rios 146, na Freguesia.

O evento estava marcado inicialmente para ontem, mas, por causa da pandemia do novo coronavírus, foi adiado para o dia 26 de abril.

A ocasião será marcada por números divertidos comandados pelo próprio Xulipa, e o público poderá aproveitar também brincadeiras temáticas, atrações musicais, como as bandas Indian Brothers e Rio, e cervejas artesanais. Os ingressos serão vendidos no local. O individual custará R$ 25, e a mesa para quatro pessoas, R$ 80.