O sucesso de Sergio Mendes contado por Quincy Jones, Pelé e pelo carpinteiro Harrison Ford

Silvio Essinger
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RIO - Em fevereiro, em plena pandemia de Covid-19, Sergio Mendes completou 80 anos. Preso em casa, em Los Angeles, não pôde fazer o que mais gosta: viajar pelo mundo, apresentando a sua música. Brasileiro que mais gravações emplacou no Top 100 das paradas americanas (ao todo 14 — de “Mas que nada”, um 47º lugar em 1966; a “Olympia”, um 58º em 1984), ele conseguiu enfim festejar a data com o lançamento sábado, no Brasil, de “Sergio Mendes: no tom da alegria (in the key of joy)”.

Disponível por streaming no HBO Go, o documentário vai da infância em Niterói à consagração brasileira do Rock in Rio em 2017, com depoimentos de Quincy Jones, Pelé, will.i.am, John Legend, Carlinhos Brown e... Harrison Ford.

— Oitenta é sério. Agradeço a Deus por ter tido uma vida longa e produtiva e ter encontrado tanta gente maravilhosa que me fez ir para a frente — conta, por Zoom, ao GLOBO o pianista que já tomou as duas doses da vacina contra o coronavírus e prepara a sua volta aos shows para para o dia 8 de agosto, no Hollywood Bowl. — Tem que se vacinar, esquece o negacionismo do Trump e o daí também. O negacionismo é um horror. São quase dois anos em que eu não tenho feito shows. Ficar em casa é uma tristeza, e é terrível ver as pessoas ficando doentes e morrendo. Esse documentário traz esperança e uma alegria, que é a música. As pessoas querem ouvir música.

Diretor de “Chasing Trane: The John Coltrane documentary” (2016) e “Os EUA x John Lennon” (2006), o americano Jon Scheinfeld foi convidado por Sergio para cuidar de seu documentário. E hesitou, de início.

— Sempre tive uma boa impressão do Sergio, mas não conhecia muito sobre a sua história e, assim, não sabia que direção o filme poderia tomar. Tivemos um encontro adorável na casa dele e, aí vi como deveria ser — revela Scheinfeld, ao GLOBO. — Como muitos músicos, Sergio Mendes teve uma carreira de altos e baixos. Mas estava sempre olhando para a frente, tentando se reinventar.

Uma surpresa para o diretor foi saber que a decisão do pianista de ir de vez, com a família, para os Estados Unidos foi precipitada pelo clima ruim do Brasil logo após o golpe militar de 1964.

— Pra mim (o golpe) foi um pesadelo, um capítulo terrível na história do país e na minha própria história. Não consigo acreditar que, mais de 50 anos depois, haja quem queira a volta disso, é surreal — alarma-se Sergio. — Espero que as coisas mudem no Brasil depois das eleições.

Outra surpresa para o diretor foi se dar conta de que o Sergio Mendes que chegou ao 4º lugar das paradas americanas em 1967 com a versão bossa nova de “The look of love” (de Burt Bacharach e Hal David) foi o mesmo que atingiu a mesma posição, 15 anos depois, com a balada r&b “Never gonna let you go”.

— Alguém me mandou uma demo da canção e eu fiquei impressionado com a melodia. Eu não tinha uma voz masculina na banda, e um amigo me falou de um cara, Joe Pizzulo, que tinha acabado de chegar de Ohio — conta Sergio. — Com ele, “Never gonna let you go” foi um grande sucesso, em vários lugares do mundo.

Para o pianista — que depois de 1983 voltaria a ficar sob os refletores com o disco “Brasileiro”, de 1992, com Carlinhos Brown, premiado com um Grammy; e nos anos 2000 com a nova versão de “Mas que nada” ao lado dos Black Eyed Peas e com a trilha da animação “Rio” — o segredo é um só: fazer música para o mundo.

— Quando “Mas que nada” estourou aqui em 1966, dois meses depois foi o maior sucesso no Brasil também. Não é que eu tenha buscado o sucesso aqui, no Brasil, no Japão ou nas Filipinas. A música é assim — explica. — Tive músicas que fizeram sucesso no México e só lá. Foi o caso de “Promessa de pescador”, do Dorival Caymmi, que eu gravei em “Primal roots” (de 1972), disco ousado, que foi um fracasso de vendas, e que eu gravei no estúdio que o Harrison Ford tinha acabado de construir no meu quintal.

Sim, antes da fama o estelar ator foi carpinteiro. E Sergio o contratou para trabalhar na obra, que foi destruída, junto com a casa, no terremoto de Los Angeles de 1994 — tudo o que o músico conseguiu preservar do estúdio foi um vitral art nouveau que Ford tinha recuperado de uma demolição.

'A música ficou muito visual'

Sergio Mendes reconhece que o hit musical “mudou muito” na era do streaming:

— A música ficou muito visual, você tem que se vestir de um jeito, fazer todas as coreografias... e isso fica na frente das melodias, que são muito pobres, medíocres. Mas eu acho que um dia as melodias vão voltar — espera ele. — Todo mundo quer ter um hit, a música ficou muito descartável. Se você fica gravando um single atrás do outro, eles acabam se tornando formulaicos, chatos, soam todos iguais. E eu toco a música que eu amo. Ainda posso ir ao piano e tocar Guinga, Hermeto, Jobim... é isso que me enche de alegria. Apesar de tudo, ainda há um grande público para essa música.

Ainda alimentando o sonho de voltar a fazer uma turnê pelo seu país (de preferência, com a participação de uma orquestra sinfônica), Sergio Mendes diz acreditar ser possível que mais brasileiros (além dele, de Michel Teló e de Anitta) voltem ao Top 100 da paradas americanas:

— Há muitos talentos no Brasil, mas não existe fórmula. Só intuição, coragem e perseverança. Tem que abraçar o sonho e ir em frente.