O verão das chacinas nos presídios... e de “Deu Onda”

Alex Antunes
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O Brasil é uma fina camada de ordem formal, pairando acima de um pântano vivo e caótico. Um amigo me pergunta se na verdade o pântano não foi parar em cima. Minha reação é responder que não – se há gente com medinhos e raivinhas, o pântano ainda está embaixo, pois o pântano não tem medo nem raiva de si mesmo.

Essa imagem me ocorre por causa das medonhas matanças nas penitenciárias, com mortos decapitados e corações arrancados. O professor Vladimir Safatle tem uma certa razão quando, atribuindo a responsabilidade ao Estado, diz em sua coluna que “entender como o governo brasileiro funciona é entender como ele administra o desaparecimento e o direito de matar. Esta é sua verdadeira forma de governo (…) Matar esses ‘60 presos’ (nacionalmente foram 93) é visto, no fundo, como um direito soberano do Estado, como foi um direito soberano matar ‘111 presos’ no Carandiru sem que isso tenha gerado maiores consequências, sem que houvesse rastos”.

Essa alienação em relação ao problema é tão mais grave se parte do governador do Amazonas (estado de uma das rebeliões, o outro foi Roraima; mas há vários outros estados presídios em situação tensa), quando diz que lá “não havia santos”. Ou do Secretário Nacional de Juventude, que afirmou que “tinha é que matar mais. Tinha que fazer uma chacina por semana”.

O caos prisional não é um problema que vai se autorresolver com rebeliões sangrentas, ao contrário. O aumento da tensão empurra o Estado para soluções heterodoxas, como fazer concessões às facções. E não transmite a menor segurança que governantes pensem e digam isso de maneira tão crua e simplória. O secretário, filho do deputado mineiro Cabo Júlio, acabou se demitindo, inclusive por palpitar de maneira muito inconveniente em um assunto que sequer era da sua alçada.

Uma das razões para o problema, que Safatle, entre outros, também aponta, é que a enorme massa carcerária do Brasil é composta, em sua enorme maioria, por detentos ligados à droga, ou delitos menores. A discussão não deveria ser sobre a enorme carência de vagas prisionais, mas sobre a diminuição de encarcerados, seja pela revisão da política de drogas, ou por outras experiências jurídicas, como o avanço da justiça restaurativa.

Pior, além de haver total mistura nas cadeias de presos reincidentes e primários, de alta e baixa periculosidade, cerca de 40% dos presos são provisórios, ou seja, não foram julgados. Podem ser inocentados, ou condenados a penas cuja duração já cumpriram. Além de erros judiciais mais graves.

Numa situação dessas, o mesmo Ministro Da Justiça que afirma que o sistema carcerário não fugiu ao controle é o mesmo que afirmava há duas semanas que iria “erradicar a maconha da América do Sul”, plano não apenas megalomaníaco como totalmente irrelevante. Isso e suas propostas de endurecimento na progressão da pena, e de liberar recursos do fundo penitenciário para outros usos que não investimento em presídios, entraram em rota de colisão frontal com a realidade destes últimos dias.

As declarações dos governos estaduais e federal parecem apontar para um tipo de moralismo que pode servir para enganar uma parte da população, mas nada fazem para resolver o problema. Que, eu diria, deriva do tal “Brasil de duas camadas” – sendo que a que controla o Estado e as comunicações sociais vem a ser a menos representativa da sociedade. Evidentemente a coisa toda tem a ver com exclusão social – mas, igualmente, não podemos ser moralistas ao contrário, e atribuir ao “mundo do crime” uma condição de vítima social, com a qual nem ele mesmo se identifica.

Evidentemente o “mundo do crime” não faz uma opção pelo mal, ou sequer pela amoralidade. Primariamente trata-se apenas de uma fonte de recursos materiais para cidadãos que, de outro modo, só teriam acesso a empregos pessimamente remunerados. Não é à toa que, em muitas áreas, a adesão a facções criminosas seja o caminho mais atraente e sexy (e bem pago, ainda que eventualmente mortal) para a juventude.

Eu costumo dizer que a sociedade brasileira é disputada por dois projetos, o branco (vertical, ordenador; em sua pior faceta autoritário e repressivo) e o pardo (com lideranças locais mais orgânicas e capilarizadas, ou seja, não propriamente horizontal, mas de verticalidades mais baixas, e soluções mais improvisadas, ainda que frequentemente truculentas). Não ajuda nada que do meio “branco” emerjam lideranças como a do Ministro da Justiça, ou de um pleiteante à presidência como Jair Bolsonaro, com o discurso de endurecer ainda mais o jogo (o que de resto costuma ser mentira, e encobrir a determinação em fazer negociações com o crime organizado, ou no mínimo vistas grossas, o que já aconteceu também em governos de esquerda, como o de Brizola no Rio, nas décadas de 1980 e 1990).

Mas o verão das matanças também é o de “Deu Onda”, o hit do MC G15, uma versão saneada de “Meu Pau Te Ama” (frase que, na nova versão, virou papai te ama). Para além das críticas que o funk costuma receber, esse entrou na linha de tiro por uma característica musical interessante, a de ser politonal, o que aparentemente poderia ser um erro, ou um acidente de produção (veja uma aulinha do músico Pedro Serapicos sobre o assunto aqui).

Uma das reclamações partiu do músico Ritchie, que ameaçou se aposentar (mas Ritchie está na ativa?), dizendo que “Melodia em tom maior, base em tom menor… e o Tom maior de todos vira na cova!”. O citado Tom Jobim, diga-se de passagem, fazia uso deliberado de bimodalismo (uso concomitante de modo maior e modo menor). Por exemplo em “Chega de Saudade”. O “problema” com “Deu Onda” é que a música dá pinta de que o bimodalismo, no caso, seria acidental – um erro de produção.

Para mim, a música funciona bem. É funk por definição, mas na verdade é pop melancólico (como o era o tecnopop que Ritchie fazia nos anos 1980, em sua fase de sucesso). Para se discutir música popular no Brasil, eu penso que há que se diferenciar a “entrega branca” da entrega “parda/ tribal”. Nos anos 1980, da sincronização globalizante do país com o mundo, vigiu no mercado de música uma entrega da juventude urbana sudestina branca, incluindo Ritchie e seus ex-parceiros de banda Lulu Santos e Lobão – que se permitia usar clichês melódicos, harmônicos e poéticos (sem entrar no capítulo do plágio direto) e ao mesmo tempo reivindicando um certo “efeito revolucionário”. E podemos dizer que funcionou, psicossocialmente falando. Por exemplo, a Legião Urbana teve um enorme impacto na discussão ética da juventude, apesar de seu som ser derivativo, e mesmo irrelevante.

Um músico daquela década como Ritchie (digo com todo o respeito, porque gosto do tecnopop dele, e admiro a capacidade dele de ter se reinventado de hippie flautista em tecnopopper) vir reclamar de funk, ou seja, da música eletrônica “parda” atual, alegando falta de qualidade musical, é muito sem sentido. Parece mais inveja (ou, colocando mais positivamente, saudades de sua própria época de sucesso) do que uma honesta discussão estética, cultural ou mesmo de mercado.

Porque Ritchie, quando o sucesso era dele, estava basicamente recalibrando clichês pop com timbres de época (e não mais usando seu rico arsenal estético setentista). Ou seja, o MC em questão é o Ritchie de hoje (com a diferença de ser egresso da classe C, e não de um vôo desde Londres). Há um duplo engano (estético e de classe) articulado aí.
Eu, particularmente, fico impaciente com ataques contra o funk porque, mesmo tendo muitas ressalvas em relação à música atual, não vejo sentido em me colocar como moralmente superior em função disso. Há gente que se coloca – e esse é um incômodo porque a reclamação costuma ter um conteúdo de preconceito de classe, e eu odeio ficar acionando disputa de classe hoje (para não dar munição para petista agonizante).

Também muita gente coloca no mesmo saco de “música sem qualidade” gêneros que não têm nada a ver entre si, como funk e sertanejo. E é aí que o círculo se fecha. Porque o mesmo Safatle que é sensível à questão dos presídios, não consegue enxergar no funk uma identidade cultural “positiva”, que se descolou do mundo do crime (o funk proibidão) para se reivindicar o novo pop nacional, numa disputa com o sertanejo (disputa na qual eu evidentemente identifico o primeiro como a parte psicossocialmente válida, no texto O funk e o sertanejo, ou um Brasil que interessa, e um que não).

O pagode baiano “Lepo-Lepo” foi o hit “pardo” do verão de 2014. E eu acho a evolução simbólica entre “Lepo-Lepo” e “Deu Onda” notável. O primeiro fazia uma reivindicação um tanto idiota de pobreza versus potência sexual, em que a melancolia da melodia correspondia meio que a um pedido de migalhas afetivas (eu sou pobre mas transo bem, se minha namorada não me larga as coisas afinal estão mais ou menos).

Já “Deu Onda”, em sua versão atenuada (não na original “Meu Pau Te Ama”) faz uma curiosa concessão social, uma confissão de rebaixamento da testosterona de mano (fator de empoderamento masculino na periferia), de abandono da “vida loka” (maconha, álcool, crime) em função da preferência pelo afeto do “mozaum”. Não é dissemelhante, digamos, do excelente tecnopop “Casa”, de Lulu Santos. Assim como Claudinho e Buchecha, no começo da década, MC G15 vem a ser um Ritchie ou Lulu apenas um pouco mais mal-acabado (diga-se de Lulu Santos que, ao contrário de Ritchie, sempre se entendeu bem com a música de periferia).

Assim, no pântano brasileiro, enquanto os presídios ameaçam o advento do caos absoluto, na música popular o funk sinaliza com algum nível simbólico de ajuste e/ou conciliação. Evidentemente as percepções comunista, cristã e reacionária de sociedade apontariam a a impertinência lógica de uma comparação entre contextos que envolvem mortes violentas, num caso, e música (“ruim”, ainda por cima) em outro.

As disputas em torno do que é isso de “Brasil” passam, e passarão, por níveis vários de pulsões, cheias de Eros e cheias de Tânatos. Nada aqui será simples, nem linear. Mas o “caldeirão brasileiro” tem que começar a engendrar respostas que não sejam apenas o caos afirmando o caos. E este verão está querendo nos dizer alguma coisa.

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