OAB abre investigação disciplinar contra advogadas que vazaram depoimento do Caso Marielle

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RIO - O corregedor-geral da OAB-RJ, Andre Andrade Viz, pediu ao Tribunal de Ética e Disciplina da entidade que tome providências sobre a conduta das advogadas Kenya Vanessa Lima Araujo de Jesus e Eloísa Reis Assis do Nascimento. Elas são suspeitas de obstrução de Justiça por vazar em presídio o áudio de um depoimento sigiloso prestado no Caso Marielle.

O caso ocorreu no ano passado, quando as advogadas acompanharam o ex-presidente da Associação de Moradores de Rio das Pedras, Jorge Alberto Moreth, o Beto Bomba, seu cliente, em depoimento ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), no Ministério Público do Rio de Janeiro. Embora avisadas de que teriam de desligar os celulares, elas gravaram o testemunho de Beto com um ponto eletrônico escondido.

Poucos dias depois, o áudio circulava na Penitenciária Bandeira Stampa (Bangu 9), no Complexo de Gericinó, representando mais um revés nas investigações sobre os mandantes das mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Em ofício ao Tribunal de Ética, Andre Andrade Viz encaminha documentação anexa para "análise, apuração e adoção de medidas disciplinares" sobre o episódio envolvendo as duas advogadas.

O interesse dos investigadores pelo depoimento de Beto Bomba começou quando uma interceptação telefônica, em 8 de fevereiro de 2019, captou uma conversa na qual o ex-líder da associação de moradores diz ao então vereador Marcello Siciliano que o mandante da morte de Marielle e Anderson seria o conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) Domingos Brazão. No áudio, Beto também cita os nomes de supostos executores, Leonardo Gouveia da Silva, o Mad, Leonardo Luccas Pereira, o Leléo, e Edmilson Gomes Menezes, o Macaquinho:

"Só que o sr. Brazão veio aqui fazer um pedido para um dos nossos aqui, que fez contato com o pessoal do Escritório do Crime, fora do Adriano [da Nóbrega], sem consentimento do Adriano. Os moleques foram lá, montaram uma cabrazinha, fizeram o trabalho de casa, tudo bonitinho, ba-ba-ba, escoltaram, esperaram, papa-pa, pa-pa-pa pum. Foram lá e tacaram fogo nela [Marielle]".

No Gaeco, Beto negou a acusação a Brazão. Alegou que a conversa era bravata e pretendia apenas ajudar Siciliano, na época investigado por suspeitas de ser o mandante da morte da vereadora e do motorista. Porém, o testemunho foi além e ajudou na elucidação de pontos até então obscuros do Caso Marielle. Por isso, o cuidado dos investigadores com o sigilo sobre a ida do ex-dirigente ao MP-RJ.

Procurada pelo GLOBO, Kenya Vanessa, sócia de Eloísa, disse que não tem nada a declarar porque "gravar o depoimento de clientes é um direito legal da defesa, amparado pela legislação". Ela admite a busca e apreensão e disse que a considera normal, porque "já foi feita com outros escritórios". O GLOBO não localizou Eloísa.

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