Obituário: Coaracy Nunes, a trajetória de um dos cartolas mais longevos do esporte brasileiro

O cartola que a mais tempo esteve a frente de uma confederação esportiva no Brasil, Coaracy Nunes faleceu nesta quinta-feira, aos 82 anos, vítima de complicações de seu frágil estado de saúde. O ex-presidente da Confederação de Desportos Aquáticos (CBDA), lutava contra o mal de Azlheimer, diabetes, hidrocefalia e demência senil e estava internado desde o dia 25 de abril em hospital na Barra da Tijuca. Havia pego o coronavírus mas chegou a vencer a Covid-19. Ele não resistiu às complicações desta infecção e ao quadro terminal de Azlheimer.

Apesar dos 30 anos no cargo de presidente da CBDA e de conquistas olímpicas importantes em sua gestão, ele colecionou desafetos e teve sua história como dirigente esportivo manchada por acusações de desvio de verba pública e prisão.

O advogado Coaracy Nunes Filho presidiu a CBDA entre 1988 e 2017. Durante sua passagem, as modalidades aquáticas brasileiras conquistaram dez medalhas olímpicas, tendo atletas destaques como Gustavo Borges, Fernando Scherer, Carlos Jayme, Edvaldo Valério, Cesar Cielo, Thiago Pereira e Poliana Okimoto. Foi o período de ouro da natação do Brasil. Coaracy era conhecido como mão de ferro.

Filho de um ex-deputado federal pelo Amapá, Nunes despontou no cenário esportivo como diretor de esportes olímpicos do Fluminense nos anos 1980. A posição o alçou para ser o vice da Federação Aquática do Estado do Rio, que o levou a se candidatar à presidência da CBDA.

Coaracy perdeu o pleito para Ruben Marcio Dinard, mas uma intervenção federal que anulou as eleições o levou ao cargo. O presidente acumularia investimentos, medalhas olímpicas e polêmicas.

Uma delas foi o patrocínio com os Correios, fechado em 1991, que viria a ser uma das relações mais duradouras do esporte olímpico brasileiro. Se a entidade acumulou conquistas junto à empresa, herdou dívidas após o término do vínculo em 2019 e entrou em crise.

Desde janeiro de 2019, a CBDA vive de inscrições de torneios e de venda de direitos de imagem, cerca de R$ 3,5 milhões por ano. Não tem nenhum patrocínio. Além disso, seus R$ 4,5 milhões da Lei Agnelo Piva, porcentagem dos jogos da loteria federal, são geridos pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB), já que a entidade está impossibilitada de receber recursos públicos.

A entidade, que hoje tem uma dívida de R$ 17 milhões por causa de prestações de contas não aprovadas, já teve R$ 18 milhões por ano dos Correios.

Coaracy também foi investigado por fraudes e desvio de verba pública e de premiação de jogadores enquanto esteve na presidência.

A mais controversa aconteceu em 2017, quando foi preso pela Polícia Federal, durante a Operação Águas Claras, que investigou fraude em licitações, superfaturamento na compra de passagens, hospedagens e traslados durante torneios e treinamentos dentro e fora do país (em desvio de cerca de R$ 40 milhões repassados à CBDA) e apropriação de premiação de jogadores. Ele ficou preso por pouco menos de três meses, quando ainda não havia uma condenação.

No ano passado, ele e outros alvos da ação foram condenados e Coaracy teria de cumprir pena de 11 anos e 5 meses de reclusão. E outros três anos e seis meses de detenção por fraudes na gestão de recursos financeiros da entidade. Seus advogados recorreram e ele não chegou a voltar à prisão.

Das denúncias, o ex-presidente da CBDA foi considerado culpado em duas: realizar quatro licitações fraudulentas para aquisição de equipamentos esportivos com recursos do então Ministério do Esporte e apropriação de valores destinados originalmente à ida da seleção júnior para um Mundial de categoria no Cazaquistão, em 2015.

Coaracy morreu enquanto ainda recorria destas condenações que ele mal lembrava, devido ao estado de saúde.

Após o falecimento, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) emitiu nota de pesar:

– É com extremo pesar que o Comitê Olímpico do Brasil (COB) recebe a notícia do falecimento de Coaracy Nunes Filho. O ex-presidente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) morreu na manhã desta quarta-feira, 14 de maio, no Rio de Janeiro, de causas ainda não divulgadas.