Objetivos na guerra mudaram e vão além do Leste da Ucrânia, diz Rússia

O governo da Rússia deu uma forte declaração de que pretende manter o controle outras partes da Ucrânia além da região do Donbass, no Leste, onde o seu ataque atualmente se concentra. Em entrevista a Margarita Simonyan, editora-chefe da emissora RT, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, citou a conquista de várias outras regiões como metas e afirmou que a retomada das negociações com a Ucrânia para um cessar-fogo "não tem sentido na situação atual".

— Nossa disposição de aceitar as sugestões ucranianas foi baseada na geografia no final de março de 2022 [quando as negociações foram interrompidas]. Agora os objetivos geográficos da operação especial mudaram — afirmou o chanceler, usando o eufemismo oficial do Kremlin para a invasão, antes de se referir às duas regiões que compõem o Donbass. — Eles estão longe de ser apenas a RPD (Donetsk) e a RPL (Luhansk). Trata-se também da região de Kherson , da região de Zaporíjia e de vários outros territórios, e esse processo continua, consistente e persistente.

Desde o início da guerra, a Rússia é propositalmente ambígua sobre quais são os objetivos de sua campanha militar, alegando, inicialmente, buscar a “desmilitarização” e “desnazificação” da Ucrânia — este último item era em geral entendido como uma troca de poder em Kiev.

Após o fracasso da fase inicial da campanha, com a desistência de cercar Kiev no final de março, a ofensiva se concentrou no Leste, onde separatistas pró-Moscou estão em conflito com forças ucranianas desde 2014, nas chamadas Repúblicas Populares de Donetsk (RPD) e Luhansk (RPL).

Desde então, o Kremlin é mais ambíguo sobre o que pode satisfazê-lo. As províncias de Kherson e Zaporíjia ficam, respectivamente, no Sul e no Sudeste da Ucrânia. Ambas — com a exceção notável da capital da segunda província, homônima — estão sob controle de forças russas, que desde então já tomou medidas para tratar o território como sendo seu, como impor o rublo como moeda e usar placas em russo.

Lavrov responsabilizou as potências do Ocidente, que fornecem armas à Ucrânia, pela suposta expansão das ambições russas. Ele disse que enquanto continuarem "enchendo" a Ucrânia de remessas de armas, isso fará a Rússia "expandir ainda mais a sua linha".

— Não podemos permitir que a parte da Ucrânia que [Volodymyr] Zelensky ou quem o substituir controlará tenha armas que representem uma ameaça direta ao nosso território — afirmou.

A despeito das afirmações, Lavrov foi suficientemente ambíguo para mais uma vez não deixar claro o que constituiria uma vitória para a Rússia. Há também diversos indícios de que o governo russo pretende bloquear o acesso da Ucrânia ao mar, estendendo seu domínio até a Transnístria, na Moldávia, e o chanceler russo não abordou essa possibilidade.

Por outro lado, analistas questionam se a Rússia teria a disposição e a capacidade de manter uma ocupação em longo prazo de porção significativa do território ucraniano, com a resistência que o renovado nacionalismo anti-Moscou na Ucrânia deve continuar a propiciar.

Ao afirmar que “não faz sentido” manter negociações de paz com a Ucrânia no momento atual, Lavrov mais uma vez culpou os EUA e seus aliados europeus, dizendo que estão “impedindo a Ucrânia de quaisquer passos construtivos” para um acordo de paz.

— [A Ucrânia] não está apenas [sendo] sendo enchida de armas. Eles são forçados a usar essas armas de uma maneira cada vez mais arriscada.

Em resposta às declarações de Lavrov, o governo ucraniano pediu às potências ocidentais que lhe enviem mais armas e aumentem as sanções à Rússia. "Os russos querem sangue, não negociações", tuitou o chanceler Dmytro Kuleba. "A confissão do ministro de Relações Exteriores russo demonstra seu sonho de se apoderar de mais terras ucranianas e demonstra que a Rússia rejeita a diplomacia e se concentra na guerra e no terror."

Lavrov também abordou a questão dos grãos ucranianos que estão armazenados em silos no país enquanto a Rússia bloqueia os seus portos, ameaçando arruinar a próxima safra e prolongar a crise alimentar global, com o aumento dos preços dos grãos.

O chanceler disse que Moscou aceitou os "princípios básicos" de um acordo sobre os grãos com a Ucrânia, que está sendo negociado com mediação da Turquia e da ONU, mas que a delegação de Kiev se recusou a incluir uma cláusula para proteger as exportações russas. Ele acusou a ONU de não intervir nesse ponto.

— A delegação da ONU ficou vergonhosamente silenciosa — disse o ministro das Relações Exteriores. — Ontem enviamos um sinal ao secretário-geral (da ONU), dizendo "como é possível?" Afinal, é uma iniciativa dele.

Na terça-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, pediu aos países ocidentais que removam as restrições às exportações de grãos da Rússia.

— Vamos facilitar a exportação de grãos ucranianos, mas com base no fato de que todas as restrições relacionadas a possíveis exportações de grãos russos serão suspensas — disse Putin a repórteres em Teerã, onde manteve conversas com seus colegas iraniano e turco.

Nesta quarta, ao aprovar um embargo às importações de ouro russo em nova retaliação pela invasão da Ucrânia, a União Europeia também determinou o descongelamento de fundos de sete bancos russos sancionados no início da guerra se o dinheiro estiver ligado ao comércio de produtos agrícolas e fertilizantes. O bloco disse que a medida foi adotada para que as sanções "não ponham em risco a segurança alimentar e energética do mundo".

Também hoje, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou estar confiante em chegar a um acordo entre a Rússia e a Ucrânia sobre as exportações "nesta semana".

— Temos um memorando que esperamos que se torne um texto esta semana — disse o líder turco ao retornar de Teerã.

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