Obra de Alba de Céspedes sobre uma dona de casa é retrato da existência passiva de milhões

Entre tantas obras discutindo “a condição feminina” hoje disponíveis, poucas devem ser tão marcantes quanto o “Caderno proibido”, da italiana Alba de Céspedes (1911-1997). Ela abusou. Mirando numa simples dona de casa, retratou bilhões de pessoas que morreram ou vão morrer após uma existência pré-programada, cartesiana, em linha reta — e sem qualquer consciência dessa sua passividade diante da vida. Assim, Alba extrapolou sua crítica à tal condição feminina e foi bater na própria condição humana.

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A rigor, a história poderia ocorrer em qualquer lugar e época: no apartamento aí da vizinha ou aqui em casa. Mas estamos em Roma, década de 1950, ressaca da Segunda Guerra, numa família de classe média em decadência que mantém a dignidade.

O centro de tudo é Valerie, de 42 anos, mãe de dois jovens universitários. O rapaz é o projeto do machista típico, não só pelo instinto como pela própria criação caprichada nos paparicos (o que, aliás, pouco se discute ainda hoje); sua irmã é puxada na rebeldia, libertária, ambiciosa, determinada e justa. O pai é o Michelle, bancário com talento para o cinema, sujeito bonito, quase cinquentão, machão sem perder a ternura jamais. Valerie ama o marido e os filhos, administra tudo e todos no rigor do figurino. Tradição e famiglia, sem propriedades.

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Meio no susto, precisando dar vazão a desejos reprimidos, Valerie compra um caderno para registrar seu cotidiano modorrento. Nada excitante: ela faz tudo em casa, faz tudo no trabalho, volta na hora de preparar o jantar, depois lava a louça, dorme e recomeça no dia seguinte. É assim de segunda a sábado; aos domingos, continua cuidando do doce lar, enquanto os outros passeiam, descansam, amam, vivem. Marido, inclusive.

O mergulho na palavra

À medida que se embrenha no exercício da escrita —confessional, pessoal e intransferível, secretíssima —, Valerie percebe que precisa de mudanças. Não que esteja revoltada ou amarga. Toca suas tarefas sem alterações. Mas o que escreve não lhe deixa dúvidas: a vida não deve ser apenas isso.

E não é mesmo.

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Só que o peso da cultura não é moleza, o que deixa Valerie refém, como tanta gente ainda hoje, da autoridade familiar, uma lei hereditária que, por definição, perpetua conceitos que vêm desde o início dos tempos e seguirão ad aeternum. Isso cansa.

Valerie está cansada. Ela se percebe decrépita na sua longeva idade e nota que deixou ser uma Mulher, com inúmeras acepções e possibilidades, tornando-se apenas dona de casa (como se fosse pouco), em vias de tornar-se sogra, vovó e, depois, somente uma vaga lembrança.

O próprio marido, olha que esquisito, a chama de “Mamãe” o tempo todo — e não há nada mais antiafrodisíaco do que esse tratamento (salvo em famílias estranhíssimas). Sexo entre os dois é assunto morto. O que havia de relacionamento sensual ali virou saudade e constrangimento. Embora, naturalmente, o marido tenha seu caso extraconjugal.

Valerie é uma bela mulher, e não por acaso desperta a paixão do chefe — paixão retribuída porque, afinal, hormônios pulsam e vão tomando rumos inesperados. Isso acontece (e muito), mas Valerie, tão presa à cultura vigente, tem receios de se abrir a uma situação tão ousada. Pelo menos, por ora.

Enfim, é ao registrar esse cotidiano tão insosso que Valerie se ilumina: gastou sua vida inteira com os outros, não consigo mesma. O tempo passou, sua casa pequena tornou-se ainda menor e, no fim das contas, só restou a ela um cantinho — na cozinha, claro.

Nada do que vimos é algo realmente extraordinário. Mas a consciência sobre a existência chinfrim é o primeiro passo para mudanças. Essa consciência, no caso de Valerie, só apareceu com o exercício da escrita e da sinceridade. Será que, ao fim do “Caderno proibido”, ela vai mudar de vida? Como vai lidar com seu maior inimigo — aquele que, afinal, mora dentro de casa, literal e simbolicamente?

Por essas e outras tantas questões, dá para entender que “Caderno proibido” seja citado como inspiração para Elena Ferrante e sua prosa tão peculiar. Ela é tipo o conterrâneo Dino Buzzatti e seu “Deserto dos tártaros” (1940): impossível esquecer.

Aliás, só quem esqueceu, curiosamente, foi o nosso mercado editorial. O livro foi lançado em 1954, saiu aqui no país em 1962 e depois sumiu. Ainda bem que voltou.

“Caderno proibido”. Autora: Alba de Céspedes. Tradução: Joana Angélica d’Ávila Melo. Editora: Companhia das Letras. Páginas: 286. Preço: R$ 79,90. Cotação: Ótimo.

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