Obra da poeta Maria Lúcia Alvim precisa ser recuperada e valorizada, diz coorganizador de seus inéditos

Ricardo Domeneck, especial para O GLOBO
·5 minuto de leitura

Muitos viram como um pequeno consolo que a morte de uma grande poeta como Maria Lúcia Alvim, no último dia 3, não tenha passado em brancas nuvens. Graças à publicação recente de seu livro “Batendo pasto” (Relicário Edições, 2020), incluído em várias listas de melhores do ano, um grupo muito maior de brasileiros e também portugueses pôde ter a noção exata do significado daquela perda. É uma pequena alegria que ela possa ter sido — oxalá — convencida, ao final de sua vida, de que não estava completamente esquecida, como ela própria me disse que acreditava estar quando a visitei pela primeira vez em Juiz de Fora.

A recuperação de seu trabalho será um processo, e é um esforço coletivo, só possível sobre os alicerces que já vinham sendo construídos por outros. E, ao mesmo tempo, dependeu de um daqueles acasos que chamamos de felizes, os que ocorrem ao redor de uma consciência atenta, quando o volume “Vivenda 1959-1989”, editado por Augusto Massi na lendária coleção Claro Enigma, caiu nas mãos de Guilherme Gontijo Flores, que o leu com acuidade crítica e preparou uma pequena seleção de poemas para a revista “Escamandro”. Ao conversar com o colega de Curitiba sobre a poeta de Araxá, nascida em 1932, concordei que estávamos diante de uma autora de força singular, e que precisava ser lida por mais gente.

Os alicerces estavam ali, graças a Augusto Massi e o volume que reunia toda a poesia editada por Maria Lúcia Alvim até o ano de 1989, mas que intuíamos não ser toda a poesia escrita por ela. Do próprio Massi vieram as primeiras informações concretas: sim, ela era irmã de Maria Ângela Alvim (1926-1959) e do também poeta Francisco Alvim (1938), e morava em Juiz de Fora, na sua Minas Gerais natal. Outros amigos colaboraram com informações precisas, como o poeta Edimilson de Almeida Pereira, que vive na cidade, e também o irmão da poeta.

Aqui entrou em cena outra figura essencial, Luciana Oliveira Dias, secretária e cuidadora de Maria Lúcia, com quem pude marcar uma visita à poeta. Numa manhã de fevereiro de 2020 embarquei num ônibus no Rio de Janeiro a caminho de Juiz de Fora, onde encontrei uma mulher tão lúcida quanto inteligente, e, se um tico amarga com o tratamento que seu trabalho recebera ao longo das décadas, também não se furtava a comentários ácidos sobre outras figuras bem menos interessantes que haviam galgado os cimos do reconhecimento no país. Ela tinha consciência da sua importância. Falamos sobre seus anos no Rio, onde chegou a expor pinturas e colagens, seu abandono da cidade para viver no campo.

Manuscritos localizados

Algumas semanas mais tarde pude organizar na Livraria da Travessa em Botafogo uma homenagem a Maria Lúcia Alvim, com a presença da autora, e leituras de seus poemas por Paulo Henriques Britto, Celia Pedrosa, Rita Isadora Pessoa, Leonardo Marona e Anelise Freitas. Esse evento foi importante, pois ali ouviria de Britto que ele tinha um manuscrito inédito da poeta, o agora celebrado “Batendo pasto”. Era urgente a publicação. Para mim era essencial que este livro não fosse póstumo, ainda que Maria Lúcia o houvesse pensado assim. Graças à prontidão de Maíra Nassif na Relicário Edições, o livro saiu a tempo.

O resto, dizem, é história. Desde então, foi lançada em Portugal uma antologia de seus poemas, e já localizamos dois outros manuscritos inéditos. Certamente há mais coisa dispersa, e o trabalho de coleta começará para uma futura “Poesia reunida”. Por ora, parece-nos de alguma justiça que os livros que não tiveram sua vida individual a possam ter. Não só os inéditos, mas que uma obra-prima como o “Romanceiro de Dona Beja”, de 1979, possa exercer seu impacto individual sobre os leitores.

Se o resto é história, devemos ter muito cuidado ao escrevê-la. Há uma série de escolhas narrativas que talvez devamos questionar, como, por exemplo, a eleição pela crítica de estilos considerados típicos de uma época, para facilitação dessa narrativa histórica, que são então adotados de manuais escolares a artigos na imprensa. Qualquer escritor que não caiba nessa narrativa cai pelas frinchas. Se isso é complicado em décadas que parecem esteticamente coesas, em períodos com maior pluralidade isso se torna desastroso.

A submissão às vendas

Se as décadas de 1950/60 foram o período das neovanguardas brasileiras, nada deveria ter nos impedido de apreciar os poetas independentes surgidos na mesma época, como Maria Lúcia Alvim, Hilda Hilst, Leonardo Fróes, Marly de Oliveira, Orides Fontela etc. Há outro fator: é necessário, num país como o Brasil, que o jornalismo cultural se torne menos dependente do famigerado gancho. E um processo perverso começou no Ocidente quando se aceitou como natural que o valor cultural de uma obra, e portanto seu prestígio e relevância jornalística, sejam medidos por seu sucesso de venda.

Em 1930, sob o impacto do suicídio de Vladimir Maiakósvki, Roman Jakobson iniciou a escrita de seu belo ensaio, “A geração que desperdiçou seus poetas”, na qual lamentaria a perda de nomes como Blok, Khlébnikov, Gumiliov, Iessênin e o próprio Maiakóvski para a doença, a fome, o suicídio e o pelotão de fuzilamento. Hoje em dia, a poesia desses autores é reverenciada, porque há algo poderoso no texto poético: sua flexibilidade histórica. E é aqui que encerro esse artigo. Se é uma pena que Maria Lúcia Alvim não tenha recebido mais atenção e mais cedo, há um pequeno milagre no surgimento de “Batendo pasto” agora. Escrito em 1982, e pertencendo ao seu tempo, há algo de absurdamente atual em sua celebração da vida simples e da natureza.

Ricardo Domeneck é escritor, autor de “Odes a Maximin” e “Sob a sombra da aboboreira”. Colabora com Guilherme Gontijo Flores na edição da obra inédita de Maria Lúcia Alvim