Obra de Di Cavalcanti que Janja diz estar danificada vale cerca de R$ 5 milhões

Encomendada por Oscar Niemeyer durante a construção de Brasília, a obra "Músicos", de autoria do pintor e muralista Di Cavalcanti, está avaliada em pelo menos R$ 5 milhões. A tapeçaria foi um pedido do arquiteto que projetou a capital federal e fica no Palácio da Alvorada. Nesta quinta-feira, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, conhecida como Janja, esteve no local e apontou uma série de objetos danificados na residência oficial do presidente da República. Entre elas estaria a peça feita pelo artista modernista.

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— Aqui é a sala de Estado, que está totalmente descaracterizada. Essa obra aqui, ela não é aqui, o original dela é na biblioteca. Você pode ver que ela foi colocada aqui e está desbotada. Aqui bate sol. Infelizmente essa aqui vai ter que ser restaurada — disse Janja em entrevista a GloboNews.

A obra foi retirada da biblioteca para a instalação dos equipamentos usados nas lives do ex-presidente Jair Bolsonaro. E acabou ficando em local onde recebe luz solar.

Consultado por O GLOBO, o marchand Evandro Carneiro afirmou que a obra tem valor inestimável, pois não há referências nas produções de Di Cavalcanti em tapeçarias. O artista produziu poucos tapetes e não existem registros anteriores de peças semelhantes feitas por ele e vendidas.

— Nessas dimensões, não tem muitas referências. É um preço que tem que ser atribuído. Para efeito de seguro, se alguém me perguntasse eu diria que ela vale em torno de R$ 5 milhões. Mas é um bem inestimável, feito sob medida para aquele local. O Oscar Niemeyer encomendava o artista certo, para o local certo, dava o tema. Então estou fazendo uma estimativa a partir do zero — disse Carneiro.

A produção de "Músicos" ocorreu durante uma fase em que Di Cavalcanti estava influenciado pelos muralistas mexicanos, explica o marchand.

— Di quando fez aquilo estava muito influenciado pelos muralistas do México. Embora não seja um mural, ela tem características. Estilisticamente, ela é uma consequência da vivência, do conhecimento e da experiência dele com os muralistas mexicanos — afirmou.

'Orixás'

Carneiro lamentou o estado de conservação da obra, mas recebeu com otimismo a notícia de que Janja pretende coordenar a recuperação das obras danificadas ou retiradas das residências e palácios oficiais.

— Fico muito satisfeito em saber que a Janja está fazendo isso, sobretudo em relação à Djanira, uma obra prima da arte brasileira, que estava em um porão, uma coisa tosca — disse.

Em dezembro de 2019, quase um ano após o início de seu mandato, o então presidente Jair Bolsonaro fez algumas mudanças no Palácio do Planalto, edifício que abriga o gabinete da presidência do Brasil. Uma delas foi a retirada da obra "Orixás", da pintora Djanira (1914-1979).

"Orixás" foi removida do lugar de destaque que ocupava no Salão Nobre do edifício e mandada para a reserva técnica do palácio. À época, a iniciativa foi considerada intolerância religiosa por parte do governo, que não explicou o motivo da mudança.

Infiltração, janela quebrada, sofá rasgado

Janja também mostrou uma série de outros problemas no Palácio da Alvorada. De acordo com a primeira-dama, o local está com infiltrações, janelas quebradas, danos em tapetes e sofás rasgados.

— Até o piso está muito deteriorado, não teve cuidado, não teve manutenção — lamentou a primeira-dama, apontando em seguida para uma imagem sacra do século XIX deixada no chão.