Obra de novo condomínio afeta comunidade no Recreio

Há cerca de um ano começaram as obras do Orla Recreio, da Cury, na Av F-W, na esquina com a Rua Zelio Valverde. Foi quando começaram também uma série de transtornos para os moradores da comunidade 8W, localizada ao lado do terreno. Casas tiveram paredes rachadas pelo impacto das obras e algumas chegaram a ser condenadas pela Defesa Civil. Moradores dos becos agora têm suas residências invadidas por água da chuva e do esgoto o que, dizem, não ocorria antes. E há denúncias de que fauna e flora foram afetadas: segundo relatos, jacarés teriam sido soterrados; e capivaras, mortas por retroescavadeiras.

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— Era obrigatório que a construtora apresentasse o plano de manejo dos animais silvestres antes do início das obras. Infelizmente isso não aconteceu e os animais foram mortos. Não houve responsabilidade ambiental em relação a fauna e flora e nem em relação a canalização de água e esgoto. Aterraram uma área que era uma espécie de brejo e funcionava como um sistema de deságue natural — diz Júlio Cesar Ribeiro da Costa, fundador da ONG Onda Carioca, que atua na comunidade.

Costa conta que cerca de 80 casas foram invadidas por água da chuva e esgoto após um temporal, em 11 de janeiro. E que os moradores cujas casas foram condenadas tiveram que se mudar, mas não foram indenizados: receberam aluguel social por um curto período. O motorista Luciano Silva, que mora na 8W há 50 anos, foi um dos que perderam sua residência. Ele morava com seus quatro filhos e a ex-mulher.

— Eles fecharam o escoamento da água e subiram o nível do solo. Com isso, a água da chuva entra o esgoto agora volta para dentro das casas. Isso nunca tinha acontecido antes. Quando chove, muitas pessoas nem conseguem sair de casa. A obra também deixou rachaduras nas minhas paredes. Perdi tudo, fui morar com minha tia e não recebo mais o aluguel social. Cinco casas foram condenadas, e somente uma recebeu indenização — afirma.

Sol de Pinho Inácio, moradora da 8W há 30 anos, conta que desde o início das obras animais silvestres têm buscado refúgio dentro da comunidade.

— Eles começaram a fugir e corriam para cá. Infelizmente sabemos que não vamos mais ver animais silvestres por aqui. Já estávamos acostumados e os respeitávamos. Sabemos da importância da sua preservação —diz.

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O condomínio terá dois prédios, um com 353 unidades e outro com 280 apartamentos. São um, dois ou três quartos a partir de R$ 264 mil, voltados para famílias com renda familiar superior a R$ 6 mil mensais.

O que dizem os responsáveis

Procurada, a Prefeitura do Rio informa que emitiu todas as licenças para a obra do empreendimento Orla Recreio. Nova responsável pela emissão de licenças ambientais, no lugar da Secretaria de Meio Ambiente (Smac) — numa medida, segundo o município, que visa a incentivar a legalização de processos —, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Simplificação (SMDEIS) diz que constam quatro processos para o local, sendo três deles com o início da obra condicionado à obtenção da Autorização Ambiental para Manejo de Fauna Silvestre emitida pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea). No outro, a licença é sem restrição para a execução de obras. A SMDEIS informa também que foi autorizada, em caráter emergencial, a supressão da vegetação em uma área de 19,80m² para realização de obra de drenagem, em decorrência de alagamentos ocorridos no local.

Ainda segundo a SMDEIS, a Subprefeitura da Barra acompanha de perto o processo, junto a moradores e à construtora Cury, que, afirma, está ressarcindo os moradores afetados — o que estes, no entanto, negam. Quanto às denúncias ambientais, a prefeitura diz apenas que não foram feitas denúncias à Patrulha Ambiental na região.

O Inea, por sua vez, explica que a concessão da Autorização Ambiental para Manejo de Fauna pedida pela construtora está em análise, e salienta que a atividade de resgate de fauna deve ser realizada antes da supressão de vegetação e demais intervenções no terreno.

Já a Cury garante que a obra está devidamente legalizada e que. para implantação do empreendimento, vai recuperar o solo da região e fará um projeto de urbanização.

Revitalização das fachadas com grafite

A comunidade 8W não se deixa abater pelas preocupações. Comemora o projeto da ONG Onda Carioca que pretende transformar a Rua 8W numa galeria de arte a céu aberto para fomentar o turismo e o desenvolvimento da região. Com recursos do edital Rua Cultural RJ, da Secretaria estadual de Cultura e Economia Criativa, a ONG realiza hoje um mutirão de grafite em diversas fachadas e muros de residências da rua, que contará com imagens a história da comunidade. Há também o projeto para mudar o nome da via para Rua do Surfe.

— Aqui será o Polo 8W. O lugar tem uma potência enorme para turismo, com caverna, escalada, trilha, gastronomia, cultura, parapente. Com os R$ 125 mil que recebemos conseguimos emboçar as fachadas de moradores que nunca tiveram condições de reformar suas casas, tudo com mão de obra da comunidade. E também convidar o (grafiteiro e artista plástico) Acme para fazer a curadoria e 20 artistas para criarem o grafite, além de encomendar um censo que será feito pelos próprios moradores para conhecer mais sobre a comunidade — diz Costa.

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Geólogos e historiadores de universidades também foram contratados para fazer um estudo sobre a história da região, que será contada nos muros e fachadas.

— Sabemos que povos sambaquis moraram aqui, depois os tupinambás e os portugueses, até chegar à colônia de pescadores, aos surfistas e aos nordestinos que vieram para cá. A pintura vai terminar com o surfe, que é uma característica do local. A ideia é identificar os locais que oferecem esporte, cultura, lazer, arte e gastronomia dentro da comunidade e fazer um roteiro turístico — acrescenta Costa.

Silvana Batista da Silva, que mora na 8W há 44 anos, tem uma vendinha que nasceu com sua mãe vendendo picolé. Ela tem esperança de que a arte dos muros atraia mais pessoas:

—Esperamos que os negócios da comunidade aumentem para melhorar a economia local.

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Vindo de Minas Gerais há 20 anos, Christian Alves da Silva aposta que as pinturas trarão visibilidade para a 8W.

— A comunidade vai ficar mais bonita e acho que mais movimentada. Aposto que vai vir gente aqui para tirar foto. Com isso, quem sabe, o poder público não vai começar a olhar para a gente? — questiona.

Para Cadu Guimarães, morador há dez anos, a comunidade tem um ar bucólico que lhe dá charme.

—Conheci isso aqui e pousei minha nave. Parece uma cidade do interior, uma roça, com um clima de muita paz —afirma.

O curador da galeria, Acme, convidou 20 artistas que estavam dispostos a receber um cachê simbólico para participar do mutirão de grafite.

— Busquei artistas que abraçam esse tipo de trabalho e querem fazer a diferença para o mundo, passando uma mensagem com a sua arte. Estamos chegando para somar e trazer para esses moradores a sensação de pertencimento a comunidade —explica.

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