Obra parada na Avenida Brasil: capítulo de uma novela que não vale a pena ver de novo

Célia Costa
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Viaduto que dará acesso ao futuro Terminal das Margaridas, em Irajá, nem foi pavimentado e já está coberto de mato

O tormento de quem enfrenta diariamente os congestionamentos da Avenida Brasil é uma novela que parece sem fim e que acaba de ganhar mais um capítulo triste. Os poucos trabalhadores que atuam nos canteiros de obras do corredor BRT ao longo da via vão entrar em férias coletivas a partir de hoje. E não é apenas para descansarem. Devido à previsão de não pagamento pela prefeitura, o consórcio responsável suspendeu a execução das obras e liberou os 1.300 operários. A possibilidade de mais uma paralisação dos trabalhos, iniciados em 2014, ainda durante o governo de Eduardo Paes, que deveriam estar concluídos no ano passado, deixou quem depende de mobilidade sem esperança. Em setembro, a prefeitura havia dado dois meses para a conclusão do Transbrasil (do Caju a Deodoro). O prazo, que terminaria na primeira semana de novembro, já não fora cumprido antes do caos financeiro na prefeitura.

A aposentada Benedita Maura da Conceição, de 72 anos, enfrenta mais de duas horas de viagem diariamente na Avenida Brasil. Em tratamento contra um câncer, precisa ir ao Centro cinco vezes por semana para atendimento no Into e no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, do Fundão, onde faz radioterapia. Para ela, que mora no Km 32, em Nova Iguaçu, a integração com o BRT Transbrasil seria uma forma de diminuir o tempo da viagem.

— Por causa dos engarrafamentos, levo mais de duas horas para chegar ao Hospital do Fundão. É muito cansativo. A gente sempre acha que, enquanto as obras são realizadas, a população precisa ter paciência. Mas há anos essa obra está sendo realizada e constantemente é parada. Tenho uma prótese no quadril, o que torna as viagens longas um sacrifício — diz Benedita, que costuma pegar o ônibus em Nova Iguaçu, descer em Deodoro e, de lá, seguir para a Ilha do Governador.

O especialista em transporte e professor da Uerj Alexandre Rojas, prevê mais dificuldades para a conclusão da obra.

— Com a prefeitura falida, é preciso um aporte do governo federal. A Avenida Brasil, a BR-101, é uma rodovia federal. Sem essa ajuda, a obra não será concluída. Quando as obras foram iniciadas, não existiam os recursos para a conclusão. Mas, depois de iniciada, tem que ser terminada. São duas faixas de tráfego fechadas, o que tem provocado os longos congestionamentos — avaliou.

Sinais de desgaste em vias nunca usadas

Ontem, o EXTRA percorreu toda a futura Transbrasil. Ao longo do percurso, só três canteiros de obra estavam ativos e, ainda assim, com poucos operários. Em São Cristóvão, eles trabalhavam na construção das fundações de uma estação. Ali, a rua estreita foi fechada por blocos de concreto e transformada em estacionamento. Para os pedestres que precisam acessar a passarela para atravessar a via, o risco é grande. A técnica em enfermagem Ginalva Miranda, que mora em Anchieta e trabalha em São Cristóvão, se queixa da lentidão da via e da sensação de insegurança:

— Levo mais de uma hora para fazer o percurso. Passo diariamente, mas quase não vejo obras em andamento. Para piorar, depois que fecharam a pista lateral, aumentou o risco de assalto aqui. Ficou muito perigoso.

Algumas passarelas do BRT já foram construídas nas primeiras etapas da obras. Outras ainda não ligam os dois lados da avenida, porque o acesso aos ônibus é por escadas que serão instaladas no canteiro central. Apesar de nunca terem sido usadas, há passarelas com sinais de desgaste e abandono. Há também viadutos. A maioria, por enquanto, não leva a lugar nenhum. Em Irajá, feito na primeira etapa da obra, o viaduto de acesso ao futuro Terminal Margaridas ainda não foi pavimentado, mas ali o mato já cresceu.

Um dos poucos canteiros ativos fica no viaduto de Coelho Neto. Duas faixas em cada sentido estão interditadas. E é ali que a lentidão do trânsito aperta. A partir de Barros Filho, sentido Zona Oeste, nada de obras até o que seria o final do corredor, em Deodoro. Perto da estação de trem, é previsto um terminal de integração com outros modais. Mas, apesar de as obras da Transbrasil se arrastarem desde 2014, não há sequer uma placa que indique que ali será construído o terminal.

Adiamentos sucessivos

A obra começou em 2014. Em 5 anos foram inúmeras paralisações. A primeira previsão era de que seria entregue em 2016. Mas, em agosto daquele ano, sofreu sua primeira interrupção e só foi retomada em abril de 2017. Antes da 2ª parada, em março de 2018, o prazo de conclusão era no fim daquele ano.

Quando anunciou a retomada das obras, quatro meses após a segunda suspensão, a prefeitura passou a prometer o corredor para meados de 2019, mas sem três terminais — Deodoro, Missões e Margaridas. Em setembro, o prazo já era novembro. Hoje, não se fala mais em previsão de término.