Obras do BRT se arrastam: estações são alvo de furtos e viram até moradia

Inicialmente previstas para terminar em 2017, as obras do BRT Transbrasil acumulam atrasos sucessivos e são motivo de transtornos diários para cariocas que precisam enfrentar o já complicado trânsito da Avenida Brasil. O prazo mais recente apontado pela prefeitura do Rio para a conclusão do corredor expresso vai até o fim de 2023. No entanto, o que se vê hoje ao logo da via são poucos operários trabalhando, estações vandalizadas que servem de abrigo para pessoas em situação de rua e a presença de dependentes químicos, o que traz insegurança extra para quem vive no entorno ou passa pela via.

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Mais desvios no trânsito

Em um dia útil do mês passado, na pista lateral da Avenida Brasil, na altura do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), apenas cinco operários trabalhavam na instalação de fiações elétricas da estrutura de ferro que será utilizada como estação do BRT. Em torno do grupo havia peças de metal enferrujado, um colchão velho e lixo espalhado. A cena contrasta com um ambicioso projeto de mobilidade urbana que, cortando 26 quilômetros da Avenida Brasil, do Caju, na Região Portuária, até Deodoro, na Zona Oeste, terá 18 estações e quatro terminais. Toda essa estrutura deveria estar em operação há cinco anos.

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Em entrevista recente, o prefeito Eduardo Paes disse que decidiu adiar a entrega das estações do BRT Transbrasil até as vésperas da inauguração do futuro terminal Gentileza, no Caju, que fará a integração do sistema com as linhas de ônibus urbanas e o VLT, prevista para dezembro de 2023. Paes explica que um dos motivos para tomar essa decisão foi a rápida degradação desses espaços, em alguns casos destruídos antes mesmo de entrarem em funcionamento.

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— Eu mandei parar de fazer as estações e continuar só após inaugurar a integração. O cara vai morar lá dentro e rouba tudo. O que a gente faz é dar pancada em ferro-velho direto — afirmou o prefeito.

Problemas de trânsito frequentes durante as obras tendem a piorar com novas interdições anunciadas pela CET-Rio. Até o fim do mês, serão criados desvios adicionais, no sentido Zona Oeste, em pontos próximos das passarelas 6, 28 e 32, além do trecho entre o viaduto das Margaridas e a passarela 35 e o acesso ao retorno para o Ceasa.

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Mario Roberto de Souza, de 32 anos, trabalha como motorista de aplicativo desde 2015 e, por pegar sempre a Avenida Brasil, é vítima e testemunha da lentidão das obras na região. Morador de Marechal Hermes, na Zona Norte, ele afirma que gasta, diariamente, cerca de três horas no trânsito por conta das intervenções do BRT Transbrasil.

— Eu moro perto do Terminal de Deodoro e acompanho a obra desde o início, em 2015. Ao longo desses anos, vi o trabalho começar, parar, recomeçar e parar novamente. O que mais me incomoda é o trânsito intenso que ela provoca. E já vi, na altura da passarela 9, no Parque União, homens furtando peças de metal do projeto. Raramente tem viatura por perto, o que facilita a ação de ladrões. Espero que, quando a obra enfim for entregue, essa realidade mude e o trânsito dê uma aliviada para nós motoristas — diz Mario Roberto.

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Os furtos observados pelo motorista são frequentes. Criminosos levam grades, telas de proteção, telhas e fios de cobre, quando não promovem atos de vandalismo em diversos pontos do BRT Transbrasil. De agosto de 2021, quando houve a retomada dos trabalhos, até o mesmo mês do ano passado, o Consórcio Transbrasil, responsável pela execução do projeto, registrou 12 boletins de ocorrência referentes a furtos nas estações de Bonsucesso, Benfica, Brás de Pina, São Cristóvão e Caju. De acordo com Jessick Trairi, secretária municipal de Obras e Infraestrutura, o cenário de degradação impactou diretamente no andamento das obras em alguns trechos.

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— A questão dos furtos, problema muito grande na cidade, acaba ocasionando atrasos. Mas isso também é um problema de segurança pública. A Transbrasil é um corredor que está sujeito a essas ações de criminosos — ressalta a secretária.

Jessick Trairi conta ainda que a prefeitura tomou medidas para combater o problema:

— A Mobi Rio fez um contrato de segurança patrimonial das estações. Agora que já temos isso muito bem ajustado, podemos iniciar a execução dessas obras e vamos acelerar.

Moradora do Parque União, no Complexo da Maré, há oito dos seus 28 anos, Letícia Lacerda cruza diariamente a passarela de acesso à estação Rubens Vaz do BRT. Ela conta que, por lá, é comum a presença de dependentes químicos que utilizam a estrutura como moradia. Estudante de Pedagogia, Letícia trabalha no centro da cidade e aguarda o Transbrasil ficar pronto na esperança de perder menos tempo no trânsito. No entanto, ela teme, que mesmo após a inauguração, a falta de segurança nas estações permaneça .

— Às vezes, vejo alguma ação para tirar os usuários de lá, mas não ocorre sempre. Eles ficam aos montes na estação, pego a passarela com medo. Passar de dia até vai, mas à noite é bem perigoso. Vejo poucas viaturas circulando pela região, e, mesmo quando tem policiais, eles não fazem nada. Espero que com a obra pronta isso mude e aqui seja um lugar mais tranquilo — desabafa a jovem.

Mesmo quando ficarem prontas as intervenções ao longo da Avenida Brasil, o funcionamento do corredor de BRT ainda dependerá da conclusão do Terminal Intermodal Gentileza, cuja construção foi iniciada em meados do ano passado, nas imediações da Rodoviária Novo Rio e do Elevado do Gasômetro.

— Vamos entregar as obras da Transbrasil por lotes, em um período de quatro meses. Ou seja, o primeiro lote em janeiro, o segundo em fevereiro, o terceiro em março e o quarto em abril. Dentro desses lotes, a gente vai ter trechos que acomodam da estação à pavimentação da via. O primeiro, por exemplo, será na estação do Into. Isso não quer dizer que vamos seguir uma sequência de entregas. Podemos terminar um trecho em uma determinada região e depois entregar outro em uma área diferente — afirma a secretária Jessick Trairi. — Assim que todos os terminais estiverem prontos, a operação do modal ficará a cargo da Companhia Municipal de Transportes Coletivos (Mobi-Rio).

A conta do atraso

De acordo com a Secretaria de Obras e Infraestrutura, o projeto da Transbrasil já custou aos cofres públicos cerca de R$ 1,9 bilhão. A paralisação no período de transição de governo, entre 2020 e 2021, segundo o consórcio, elevou os gastos com operação emergencial e reajustes previstos no processo contratual.

A auditoria “Avaliação dos impactos socioeconômicos decorrentes do atraso na execução das obras do corredor BRT Transbrasil”, feita em 2019 pelo Tribunal de Contas do Município do Rio (TCM), avaliou os prejuízos gerados pelos adiamentos na conclusão do projeto. O relatório apontou itens como o custo para o transporte público da Avenida Brasil; o agravamento das condições de segurança; a exposição indevida de população de rua a riscos; e custos ambientais. Feitos os cálculos, o TCU estimou a conta do atraso em R$ 911 milhões. O estudo ressalta que o valor não foi desembolsado pela prefeitura, mas, mesmo assim, representa um custo para a sociedade.

Sobre os problemas de segurança na região, a Polícia Militar afirmou, em nota, que o Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) atua junto a batalhões que cobrem os bairros às margens da Avenida Brasil com “equipes empregadas de maneira dinâmica e ostensiva nos acessos e ao longo da via”.