Obras da nova sede do Museu do Pontal já estão 90% prontas

Madson Gama
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RIO — Depois de um longo período de percalços na sede histórica, no Recreio, afetada por inundações recorrentes desde 2010, o Museu do Pontal, referência em arte popular brasileira, está cada vez mais próximo de ver seu novo espaço, com vista para a Pedra da Gávea, aberto ao público. Segundo o diretor executivo, Lucas Van de Beuque, a área de exposição já está completamente finalizada, e cerca de 90% da obra da parte interna já foram concluídos. Das mais de nove mil esculturas do acervo de 300 artistas brasileiros, todas as que deveriam seguir para o novo local, na Avenida Célia Ribeiro da Silva Mendes 3.300, na Barra, cerca de cinco mil, já chegaram. A reinauguração deverá ser entre abril e junho de 2021. A entrada e as oficinas do museu serão gratuitas.

A área construída é de 2.600 metros quadrados, num projeto que inclui um auditório com capacidade para 194 pessoas, uma sala de exposições temporárias e outra de exposições de longa duração (ambas somando mil metros quadrados), um café e áreas técnicas. A área total da nova sede tem 14 mil metros quadrados, dos quais dez mil serão destinados a um projeto paisagístico concebido pelo Escritório Burle Marx.

— Na parte interna faltam só detalhes, como acabamentos de banheiro. Já instalamos os dutos e agora vamos instalar os aparelhos de ar-condicionado e os computadores. Em algumas áreas, como a sala multiuso (auditório) e o mezanino onde vai haver o restaurante, falta colocar o piso de madeira. Vamos começar a fazer isso em janeiro. As outras questões, mais trabalhosas, são do lado de fora, onde estamos fazendo, por exemplo, uma drenagem de todo o entorno para não termos nenhum problema com água. Estamos também com uma campanha para arrecadar fundos e conseguir fazer o mais rapidamente possível os jardins, que são um elemento central desse novo espaço — explica Lucas.

A campanha de financiamento coletivo para plantar 30 mil mudas de 37 espécies brasileiras numa área de dois mil metros quadrados vai até o dia 31. As doações podem ser feitas pelo endereço museudopontal.com.br/plantandoofuturo. A proposta é que os jardins sejam compostos de palmeiras, paus-brasis, pés de açaí, pitangueiras e jabuticabeiras, entre outras plantas.

O projeto do edifício foi todo pensado levando-se em consideração a sustentabilidade. Apenas 30% do espaço — incluindo auditório, área administrativa e salas imersivas — serão refrigerados por ar-condicionado. O restante terá arejamento natural: um estudo de insolação e ventilação cruzada mostrou que bastará manter as janelas abertas para conseguir uma temperatura agradável no museu. Além disso, toda a água captada pelo sistema de drenagem vai ser armazenada numa caixa de reúso, que servirá para irrigar os jardins.

Programação fixa para toda a família

Toda a programação que já existe no museu será mantida. O carro-chefe da casa é o projeto educativo, que envolve visitas teatralizadas, em que crianças passeiam pelo universo da cultura popular brasileira enquanto um arte-educador conta histórias, por exemplo, da festa folclórica nordestina bumba meu boi, do teatro pernambucano de fantoche mamulengo ou do repente, arte baseada no improviso cantado. O projeto leva em torno de 20 mil estudantes por ano ao museu, que também continuará realizando oficinas de trabalhos manuais nas escolas públicas da região, envolvendo produção de artigos de argila e costura de vestimentas e fantasias.

— A grande novidade do nosso trabalho é uma programação diversificada todo sábado e domingo, para que as pessoas comecem a marcar presença com regularidade, incluam o museu na sua rotina. A Barra da Tijuca e Jacarepaguá são áreas muito carentes de espaços culturais com uma agenda constante, e sabemos da importância disso para a população. Teremos desde atividades para bebês até eventos para adultos, como palestras e seminários. Nosso foco é ser um espaço para toda a família. Todo o entorno do terreno será gradeado, para que as crianças possam ficar livres brincando. Serão disponibilizados carrinhos, tipo os de pipoqueiro, e dentro deles vai ter corda, elástico, pião, bandeira e outros elementos que remetem ao lúdico — conta Van de Beuque.

A expectativa é que o público visitante dobre, passando de duas mil pessoas, média registrada na sede histórica, para quatro mil na nova área. Não vai faltar incentivo para isso. Segundo o diretor executivo, para facilitar a mobilidade, o museu oferecerá um serviço gratuito de vans que vai buscar e levar as pessoas até uma estação do BRT:

— Vai haver um funcionário do museu recepcionando o público e organizando a fila na estação. Ainda está em estudo qual será ela, mas o serviço vai funcionar todos os dias, o tempo todo.

Parte do acervo será mantida no segundo andar da sede histórica. Por causa do risco de enchentes sempre que chove, um dos principais critérios que nortearam a transferência para o novo espaço foi retirar primeiro as obras que estavam no piso inferior e na reserva técnica. Foram mantidas no Recreio também peças de grande porte, que exigem transporte especial, como o “Sinaleiro do vento”, de cerca de três metros de altura, obra de Laurentino Rosa Santos, artista do Paraná cujos bonecos são inspirados nas figuras de cangaceiros, índios, jogadores de futebol e pássaros, explica a diretora e curadora do Casa do Pontal, Angela Mascelani:

— Ficaram lá também obras grandes de Antônio Poteiro, como a “Torre de Babel”, e uma grande escultura de leão, de 1,40m, da Família Julião. Aqui já estão “A roda da vida”, do mineiro Geraldo Teles de Oliveira (GTO), e peças de artistas como Ulisses Pereira Chaves, Dona Isabel e Noemiza Batista dos Santos. O coração do museu já está aqui.

Seiscentos metros da área expositiva serão destinados a mostras temporárias. A novidade é que outros colecionadores serão convidados a expor. Os 400 metros restantes serão reservados a uma exposição de longa duração com o acervo do fundador do museu, o francês Jacques Van de Beuque, avô de Lucas. Angela conta que, nessa área, não pode faltar o pernambucano de Caruaru Mestre Vitalino, um expoente da cultura popular brasileira, famoso por esculturas de cerâmica antológicas, como “O enterro na rede”, “Cavalo marinho” e “Casal no boi”.

— Também não podem faltar os aspectos que falam propriamente da cultura brasileira de uma maneira mais profunda. Tomar banho, por exemplo, é algo tão associado à cultura do país que as obras que contam essa história têm que estar presentes, assim como as que falam do surgimento das profissões, da vida rural, da emergência da vida urbana — diz Angela.

A mudança do Museu Casa do Pontal é consequência de uma rotina marcada por inundações que danificaram parte do acervo. As enchentes passaram a acontecer a partir de 2010, após o início da construção do que seria a Vila de Mídia da Rio-2016, o que elevou o nível da rua em um metro, tornando a sede histórica vulnerável a alagamentos. Após uma longa disputa, um acordo entre a prefeitura, a construtora Calper e a direção do museu estabeleceu a transferência da sede da instituição para um novo terreno. Segundo o combinado, a empreiteira deveria destinar ao museu R$ 7,5 milhões, como forma de quitar uma dívida com o município, mas, segundo Lucas Van de Beuque, esse acordo não foi cumprido:

— A solução foi a gente esquecer essa história e buscar empresas e financiamento coletivo.