Obras de Tunga e Abdias Nascimento se encontram em nova mostra no Inhotim

·4 min de leitura

Logo na entrada da Galeria Mata, em Inhotim, a bengala usada por Abdias Nascimento (1914-2011) repousa escorada na parede, ao lado do banquinho que acompanhou Tunga (1952-2016) na montagem de uma de suas galerias por lá. Dispostos ali, discretamente, sem qualquer tipo de sinalização, os dois objetos evocam a presença dos artistas que compartilharam uma relação de amizade em vida. “É como se eles tivessem os deixado aqui e fossem conferir a exposição”, diz Douglas de Freitas, curador do museu localizado em Brumadinho, a duas horas de Belo Horizonte.

Soa também como se ambos estivessem no local para dar boas-vindas ao público que chega para a mostra “Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra”, que acaba de ser inaugurada, em parceria com o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, fundado por Abdias. Pelos próximos dois anos, o museu idealizado por ele, mas que nunca teve uma sede própria, terá ali um endereço provisório. “Trata-se de algo idealizado no começo dos anos 1950. Se fizermos um paralelo com o Museu de Arte Moderna do Rio, que foi fundado em 1948 e ganhou sua sede em 1953, entendemos o tamanho da barreira institucional para um projeto como esse”, afirma Julio Menezes Silva, coordenador do Museu de Arte Negra no ambiente virtual. “Nem mesmo o Abdias, com toda sua projeção e influência, conseguiu fazer com que isso se concretizasse.”

A instituição reúne um notável acervo com pinturas, fotografias e esculturas. Além de obras de Abdias e Tunga, guarda nomes como Ivan Serpa e Heitor dos Prazeres. Uma coleção que começou a ganhar notoriedade com o concurso seguido por uma exposição sobre o tema do Cristo Negro, realizados em 1955, em que a pintora Djanira saiu vencedora com a figura de um Jesus escravizado e açoitado. Já em 1968, o Museu de Arte Negra fez a sua exposição inaugural no Museu da Imagem e do Som, no Rio. Neste mesmo ano, Tunga, então com 15 anos, disse, em entrevista ao jornal Correio da Manhã, que “a arte negra foi a primeira a romper com as saturadas imagens renascentistas”.

A frase, segundo Elisa Larkin Nascimento, viúva de Abdias e co-fundadora do Ipeafro, vai no cerne do Museu de Arte Negra. “Desde que começou a ser montada, a coleção virou uma espécie de panorama, ao reunir alguns dos nomes mais importantes e, ao mesmo tempo, discutir as categorias diminutivas que são usadas para definir alguns artistas negros, como ‘artesão’, ‘folclórico’, e ‘naif’.”

A mostra em Inhotim será dividida em quatro atos, com duração de aproximadamente cinco meses cada. O primeiro deles é apresentado como “Abdias Nascimento e Tunga e o Museu de Arte Negra”, e a direção ainda não divulgou o que está por vir. Por ora, dispostos assim, lado a lado, os trabalhos dos dois artistas vão além da amizade entre eles, e criam diálogos e tensões. “As obras não precisariam conversar, porque o afeto entre ambos já faz essa ligação. Porém, os dois estão interessados no tema do eterno. Além disso, Adbias fala das mitologias das religiões de matriz africana, ao passo que Tunga cria mitologias em suas obras”, compara Douglas Freitas, do Inhotim.

Julio Menezes, do Museu de Arte Negra, por sua vez, não deixa escapar o que os separa. “O Tunga pôde passar a vida inteira dedicando-se às artes, enquanto Abdias teve que fazer um monte de coisas para pintar nas horas vagas. Além de ser muito talentoso, Tunga teve portas abertas de um jeito que não aconteceu para Abdias por uma questão racial.”

Contrastes e tensões voltam a aparecer a poucos metros dali, com outra exibição recém-inaugurada no museu mineiro: a coletiva “Deslocamentos”, na Galeria Fonte. Costurada por obras do acervo ainda não exibidas, a mostra reúne nomes como o britânico Cerith Wyn Evans, que combina código Morse a um globo de espelhos para criticar o eurocentrismo em “Cleave 02 (The accursed share)” e a mineira Rivane Neuenschwander, com dois trabalhos por lá. Um deles é o vídeo “Diários de Pangea”, em que formigas devoram fatias finas de carne cortadas em forma dos continentes.

Antes mesmo de chegar à galeria, porém, os visitantes começam a ser fisgados por uma série de fitas pretas que partem de diferentes cantos dos jardins em direção ao interior do espaço expositivo. Todas convergem para a obra “Puxador-paisagem (H=c/ M=c)”, de Laura Lima, em que um homem nu puxa as tais fitas, presas às suas costas, como se tentasse deslocar o mundo exterior para dentro da galeria. “Ao todo, são cinco homens que participam, sendo dois por dia. Eles fazem, de acordo com a força e o bem-estar deles, um trato sobre como vão cuidar dessa obra, revezando a participação”, conta a artista natural de Governador Valadares e radicada no Rio. Avessa a predefinições sobre seus trabalhos, ela afirma que, neste caso, a obra se dá, de alguma maneira, na mente do visitante ao projetar o desenho de tudo o que poderia se deslocar para o interior da galeria. “A não ser que você tenha a sorte de passar por aqui no momento em que a paisagem invada, de fato, o espaço interno”, ironiza.

É pagar para ver.

*O repórter viajou a convite do Instituto Inhotim

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos