Obrigado a deixar o poder em 2024, Putin prepara futuro político

Por Antoine LAMBROSCHINI
O presidente russo, Vladimir Putin

O presidente russo, Vladimir Putin, começou a preparar seu futuro político, ao anunciar um novo governo e reformas constitucionais - disseram analistas e membros da oposição nesta quinta-feira (16), lembrando que o atual marco legal o obriga a deixar o Kremlin em 2024.

- Qual futuro para Putin? -

Putin disse que decidiu rever o superpresidencialismo russo, prometendo reduzir as prerrogativas do chefe de Estado e aumentar as do Parlamento. A Casa designará o primeiro-ministro.

Os especialistas dizem que ele quer restringir os poderes presidenciais em coincidência com sua saída do Kremlin, enquanto se prepara para um novo cargo.

"Acredito que Putin continuará sendo a figura principal na Rússia, como foi durante 20 anos", afirma a especialista russa Maria Lipman.

Alguns o imaginam como o árbitro supremo, como fez Nursultan Nazarbayev no Cazaquistão, ao se tornar em 2019 uma espécie de "pai da Nação", deixando a Presidência para um herdeiro obediente.

Putin pode, por exemplo, manter-se como chefe do Conselho de Estado - um corpo político reforçado por sua reforma constitucional -, assim como do poderoso Conselho de Segurança.

Mas também poderá encarar algo completamente diferente.

"Vemos certas peças do quebra-cabeças. Há algumas que vemos, e outras que nunca veremos. Mas há um plano, e está na mente de Putin", afirmou Lipman.

- Por que agora? -

Apesar de uma popularidade de cerca de 70%, o presidente russo sabe que a erosão ameaça seu poder, após 20 anos de exercício.

Uma "demanda por mudança surgiu, claramente, dentro da sociedade", declarou ontem em seu discurso diante da elite política russa.

Símbolo dessa insatisfação, Moscou foi palco, durante o verão de 2019, do maior movimento de protesto russo desde o retorno de Putin ao Kremlin em 2012. Ele havia deixado o cargo provisoriamente para ser primeiro-ministro, devido à limitação de mandatos presidenciais.

Em setembro de 2019, o partido pró-Putin Rússia Unida era tão impopular que seus candidatos nas eleições locais em Moscou se apresentaram sob outras legendas.

Em 2021, estão programadas eleições legislativas. Segundo as pesquisas, o Rússia Unida tem o apoio de um terço dos eleitores, bem longe dos 54% obtidos em 2016.

- Que papel terá o primeiro-ministro? -

Devido a uma qualidade de vida em queda, o leal premiê Dmitri Medvedev, no cargo por oito anos, viu sua popularidade se estancar entre 30% e 38%.

A nomeação de outro chefe de governo significa, portanto, um novo começo. E Mikhail Mishustin, chefe do Serviço de Impostos Federais, é, certamente, um desconhecido, mas não um novato.

Aos 53 anos, ele é considerado um funcionário particularmente competente e defensor da digitalização. Foi capaz de transformar a Receita Federal, que deixou de ser uma burocracia obsoleta e corrupta e agora é um órgão eficiente e temido.

Além disso, com este perfil mais tecnocrático do que político, não aparece como um possível sucessor e ainda menos como um rival.

"Sua indicação como primeiro-ministro aponta para uma chefia de governo baseada na eficiência e centrada na agenda nacional", tuitou o diretor do Carnegie Center em Moscou, Dmitri Trenin.

A razão desta prioridade para o setor doméstico é clara. Segundo uma pesquisa do Instituto Vtsiom, 52% dos russos pensam que, do ponto de vista econômico, "o pior está por vir".

Em seu discurso de ontem, Putin estabeleceu objetivos complexos e ambiciosos: enriquecer os russos, conter a crise demográfica e modernizar o país. E tudo isso antes de 2024. Um programa que demandará investimentos da ordem de 379 bilhões de euros.