Obscuridade, notoriedade, documentário e tricksterismo: sobre os Residents e o LCD Soundsystem

Documentários sobre música, na sua usual mistura de trechos musicais e histórias saborosas de bastidores, são um gênero “fácil”. Dos anos recentes, eu pinço dois que, sem abdicar dessa graça natural, conseguem se desenvolver como peças de reflexão importante (e em tempo real) sobre a trajetória de artistas inconformados com os mecanismos do sucesso.

Durante o In:Edit, festival dedicado ao gênero, além dos usuais nomes históricos e atraentes (Zappa, Leonard Cohen, Cream) está em exibição Theory Of Obscurity: A Film About The Residents (dir. Don Hardy, 2015; há mais uma sessão programada em São Paulo na semana que vem – cheque a programação no site).

Surgidos no final da década de 1960, os Residents eram um corpo estranho na cena hippie de São Francisco. Por um lado, puderam se aproveitar da brecha performática e libertária mas, por outro, eram muito mais uma ocorrência precoce de uma estética que se consagraria nos anos 1980 (conceitual, cínica, formalista, anticatártica) do que similar à de seus pares sessentistas e setentistas, mais ligados a entregas, digamos, “viscerais”.

Escrevi sobre o grupo e suas esquisitices a propósito do inesperado show deles no ano passado em São Paulo: “Assim como (Captain) Beefheart, os Residents começaram a lançar os fundamentos do pós-punk muitos anos antes do próprio punk. No caso do grupo, incorporando equipamentos eletrônicos e a utilização de técnicas de estúdio como instrumento, e a desconstrução de ícones pop como Beatles, Rolling Stones e James Brown – na verdade eles andaram espalhando que eram os próprios Beatles. Há um paralelismo com o krautrock alemão e o trabalho de Brian Eno, mas com uma disposição para a paródia anárquica que esses não tiveram. Também lembra um pouco o universo do Zappa – mas sem um “ídolo” central e sua verve (aliás meu amigo, o guitarrista Nelson Coelho, os define os como uma espécie de cruzamento entre Zappa e Eno)”.

E seguia: “Até pelos padrões quadriculados do cenário dessa turnê, a coisa lembra uma maçonaria (ainda mais) bizarra, onde os destinos da cultura pop são decididos sem que o mundo exterior se dê conta de onde vêm as ordens. Neste link, Fúlvia Haroldo comenta um pouco dos cenários, figurino, coreografia e repertório – que na verdade traduzem toda uma ética. Como diz ela, ‘o mundo é um lugar esquisito. Onde até as melhores intenções serão as erradas porque não estamos aqui pra ganhar. Então porque fazemos tanta questão de fazer ou vangloriar trilhas de ‘vencedores’? Ou do seu oposto, de mártires tão sofridos (…)? As poucas certezas da vida normalmente tratamos como aberrações, mas e se tratássemos essas ‘aberrações’ como algo naturalmente esquisito e as acolhêssemos? Foi a segunda coisa que aprendi com os Residents: a vida é esquisita, acolha o esquisito e ele será o que tem que ser: normal’”.

A demonstração desse pioneirismo dos Residents se dá claramente no filme, mostrando como a MTV foi o primeiro veículo de massa para seus One Minute Movies. E nas entrevistas de gente como Jerry Casale (Devo), Jerry Harrison (Talking Heads) e Les Claypool (Primus) – curiosamente Casale menciona que o Devo poderia também ter sido uma banda conhecida de membros desconhecidos, se os óculos grossos de Mark Mothersbaugh não tivessem sido sugados para a notoriedade. Há até um flash de como a cantora Kesha, recentemente, roubou o principal símbolo da fortíssima identidade visual dos Residents, o globo ocular de cartola. Mas é exatamente na questão das idiossincrasias que as escolhas do filme começam a ficar interessantes.

A primeira delas é o anonimato do grupo, e sua disposição em circular narrativas fantasiosas e pseudoteóricas. Como o da influência sobre eles de um certo vanguardista europeu, “N. Senada”,  e a própria “teoria da obscuridade” que dá titulo ao filme. Com esses mitos já criados, seria fácil partir para algum tipo de mockumentário, o documentário de fantasia e/ou comédia, como os das falsas bandas Spinal Tap (de Rob Reiner) e Rutles (de Eric Idle, do Monty Python), do violonista Emmett Ray (em Poucas e Boas, de Woody Allen) ou do cantor folk Llewin Davis (irmãos Coen).

Mas a trajetória dos Residents é tão bizarra em si mesma que ela parece precisar de um dispositivo redutor – e não de um expansor – de fantasia. É aí que eu quero mencionar outro título recente, o documentário de 2012 sobre o LCD Soundsystem e seu idealizador, James Murphy. Murphy, evidentemente, não é um anônimo. Mas foi meio que abduzido da cena eletrônica e projetado para um sucesso pop que não era o que projetava.

Num certo sentido, a carreira de quase 50 anos dos Residents e a ascensão irresistível do LCD SS, em menos de 10, se parecem. Ambas têm um olhar ético e estético sobre a cena pop – se os Residents sempre se dedicaram a releituras esquisitas, Murphy também sempre fez questão de deixar muito óbvias em suas composições as suas influências, quase releituras assumidas. Esse olhar levou nos dois casos a selos próprios, a Ralph Records dos Residents, a DFA de Murphy.

A DFA hoje é reconhecida por ter impulsionado neste século a carreira de grupos como Rapture, Hot Chip e Radio 4, e de resgatar a obras no wave como as de Liquid Liquid, Pylon e a Love Of Life Orchestra de Peter Gordon, mas a importância da Ralph Records não foi menor, nos anos 1980. Estreando com o primeiro single dos Residents, “Santa Dog”, em 1972, e o primeiro álbum, Meet The Residents, dois anos depois, já em 1979 a gravadora lançava a coletânea seminal do pós-punk de São Francisco, Subterranean Modern. Ela trazia os excelentes grupos Chrome, Tuxedomoon e MX-80 Sound (e de quebra iniciou a associação da Ralph com o ilustrador Gary Panter, conhecido por algumas das melhores capas de Zappa, Chili Peppers, Oingo Boingo e do selo experimental do poeta tardo-beatnik John Giorno).

A Ralph Records também apresentaria aos Estados Unidos o trabalho de vanguardistas europeus como Fred Frith e Chris Cutler (com os Art Bears), Yello e outros. O finado guitarrista inglês Phil Lithman, o Snakefinger, radicado em Frisco e colaborador habitual dos Residents, teve três ótimos discos lançados pelo selo (os dois primeiros tendo os Residents como banda). O mítico endereço da Ralph entre 1979 e 83, 444 Grove Street, foi um hub para um monte de gente criativa.

O engraçado, para os artistas associados e frequentadores, era descobrir eventualmente que o cara do balcão de discos, o engenheiro de som do estúdio ou o mano das artes gráficas eram os próprios (e literais) Residents. As pecinhas do quebra-cabeças vão aparecendo no filme, nos depoimentos de gente como Panter, Cutler, do ator e amigo/ apresentador Penn Jillette, e Matt Groening (o criador dos Simpsons).

Mas o que, no meu entender, mais aproxima o filme dos Residents e o do LCD SS é a tentativa de colocar bem no centro da conversa as filosofias e estratégias de resistência à devoração insana (e, afinal, babaca) do star system. A dos Residents, evidentemente, passa pelo anonimato. O documentário joga com habilidade nesse quesito, nem escancarando nem escondendo: estão lá os quatro fundadores (foto): o vocalista Homer Flynn e o músico Hardy Fox (principais compositores do repertório do grupo), mais Jay Clem e John Kennedy, que saíram em 1982. Mas falando todos como porta-vozes e ex-executivos da Cryptic Corporation (outra camada do enigma Residents).

E é aí que, sob a profusão de máscaras, narrativas e tipos estranhos, de dezenas de discos e projetos multimídia (desde o abortado filme de fantasia Vileness Fats, iniciado em 1972, que teve trechos e trilha lançados em 1984), emergem uns caras extremamente criativos, porém também ciosos da normalidade em suas vidas – e de uma espécie de rigor antiabuso, ainda que em meio ao non sense.

Nesse sentido há uma cena emblemática em que Flynn, disfarçado de secretário da Cryptic, arruma pessoalmente os 154 items dos Residents dentro de uma geladeira, o “box” de US$ 100 mil que o MoMA comprou. Assim como há rigor no apreciador de cafés espressos e de cães, James Murphy, que inseriu o documentário sobre o show final do LCD SS numa manobra de freagem, descompressão, balanço e desconstrução do projeto em 2011 (ele foi retomado no ano passado).

Não à toa, um filme em que Murphy deu um jeito de tratar do “proceder” (como dizem os rappers) se chamou Shut Up And Play The Hits – cala a boca e atende a demanda. Já os tiozinhos dos Residents celebram em Theory Of Obscurity suas estratégias fragmentárias e diversionistas que, no entanto, os trouxeram hoje a uma espécie de ápice de reconhecimento artístico. É sobre música, sim – mas talvez seja mais ainda sobre dignidade.

Siga-me no Twitter (@lex_lilith)