Observadores internacionais contestam Keiko e afirmam que eleição no Peru foi limpa

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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - As acusações de fraude na eleição presidencial peruana, feitas por Keiko Fujimori, perderam força poucas horas depois. Com 97,93% das urnas apuradas, ela aparece nesta terça-feira (8) com 49,77% dos votos, atrás de Pedro Castillo, que lidera com 50,22%.

Na noite desta segunda-feira (7), a candidata direitista afirmou que foram detectadas "diversas irregularidades" na votação, o que acarretaria uma "fraude sistemática" no pleito no país.

O Júri Nacional de Eleições, porém, informou que a Missão de Observadores da União Interamericana de Órgãos Eleitorais apresentou relatório no qual afirma que o pleito ocorreu de modo regular e com êxito.

A declaração foi corroborada pela Missão de Observação Eleitoral da OEA, composta por 40 membros e liderada pelo ex-chanceler do Paraguai Rubén Ramírez Lezcano. Para o órgão, eventuais inconformidades "não comprometeram a eleição como um todo" e podem ser "resolvidas pela via legal".

Em um vídeo, Ramírez afirma que a entidade reconhece o trabalho na organização de um pleito de "grande complexidade, marcado pela pandemia e pela polarização política". "Estivemos em 18 províncias e cinco cidades do exterior, o que nos permitiu acompanhar de modo integral diferentes aspectos do processo".

Em entrevista coletiva, Keiko exibiu vídeos e fotos como supostas evidências de que atas eleitorais —espécie de resumos da votação nas seções— foram alteradas. Os registros também mostrariam treinamento dado a mesários e fiscais de Castillo para cometer atos ilegais que garantissem sua vitória.

No Peru, são os chefes das seções eleitorais que reúnem os votos de cada local em uma ata, vigiados por outros funcionários. Um dos vídeos exibidos mostra um apoiador de Castillo ordenando que os mesários chegassem antes dos demais integrantes da seção para ter a certeza de que poderiam controlar a ata.

O analista Fernando Tuesta, ex-titular da Onpe, o órgão eleitoral peruano, diz que a atitude de Keiko ao apontar uma possível fraude é "repugnante". "Ela já deixou de reconhecer os resultados em oportunidades anteriores. E, devido a essa posição, levou o país a níveis de ingovernabilidade que sofremos até hoje."

Em uma publicação no Twitter, o ex-presidente da Bolívia Evo Morales comparou Keiko a Donald Trump, que também alegou fraude ao ser derrotado por Joe Biden, e a Carlos Mesa, também ex-presidente boliviano que classificou a vitória de Evo em 2019 de "fraude escandalosa". "O mesmo discurso da direita racista, fascista e golpista: denuncia a 'fraude' sem provas e ataca a democracia que afirma defender", escreveu Evo. "Repetem a mesma mentira e ignoram o voto do povo. Que o resultado seja respeitado."

Quando apareceu à frente de Castillo nos primeiros relatórios divulgados pela Onpe, com quase seis pontos percentuais de vantagem, Keiko reagiu com moderação e pediu prudência a seus eleitores, afirmando que não havia vencedores ou derrotados na eleição e defendendo a unidade dos peruanos.

Um dia antes, durante o café da manhã com eleitores —uma tradição dos candidatos presidenciais no dia da votação—, disse que aceitaria os resultados e assumiu o compromisso de respeitar a vontade popular. "Será a decisão que o nosso país definir, se tenho que servir como presidente ou uma simples cidadã."

O discurso de Keiko, no entanto, foi mudando de tom conforme a apuração avançava e Castillo assumia a liderança. A pequena diferença, que na tarde desta terça equivale a cerca de 83 mil votos, reflete a polarização do Peru enquanto o país escolhe a quinta pessoa a ocupar a Presidência desde 2018.

Diante deste cenário, a filha do autocrata Alberto Fujimori, que liderou o Peru de 1990 a 2000, convocou jornalistas na noite de segunda-feira para acusar a existência de fraude eleitoral e dizer que há uma "clara intenção de boicotar a vontade popular". "Estamos recebendo notícias de irregularidades e por isso pedimos a ajuda de vocês, eleitores e apoiadores", disse.

Horas depois de a candidata fazer as denúncias, Castillo falou a apoiadores diante do comitê de seu partido em Lima, ao som de buzinas e vuvuzelas. No breve discurso, no qual ignorou as declarações da adversária, disse que "o povo salvará o povo". Já nesta terça, apoiadores do Perú Libre e do Força Popular, de Keiko, reuniram-se em frente ao prédio da Onpe para acompanhar a apuração.

Muitos fujimoristas vestiam a camiseta da seleção peruana, enquanto eleitores de Castillo levaram uma grande bandeira do Peru, que esticaram diante do edifício.

A pesquisa de boca de urna do Instituto Ipsos, divulgada logo após o fechamento das urnas, no domingo, dava vitória à direitista —50,3% dos votos contra 49,7% de Castillo. Mais tarde, porém, uma contagem rápida feita pelo mesmo instituto apontou resultado inverso, com 50,2% para o professor de escolas rurais e 49,8% para a ex-congressista.

Se a vitória de Castillo se concretizar, ele será o primeiro presidente peruano sem vínculos com as elites políticas, econômicas e culturais. Sindicalista e professor do ensino médio, ficou conhecido ao liderar greves de docentes, a mais famosa delas em 2017. Castillo defende maiores salários aos empregados do setor da educação, tem um discurso anticorrupção e propõe dissolver o Tribunal Constitucional e a Constituição de 1993 —segundo ele, os responsáveis por permitir práticas irregulares.

Um sucesso dele representa, também, a terceira derrota de Keiko nas urnas —ela já foi candidata em 2011 e em 2016, perdendo ambas as vezes no segundo turno. Como consequência, a política, que assumiu há 15 anos a tarefa de reconstruir quase das cinzas o movimento político de direita fundado por seu pai em 1990, teria que ir a julgamento sob risco de acabar na prisão.

Keiko é investigada pelo caso das contribuições ilegais da empreiteira brasileira Odebrecht, um escândalo que afetou também quatro ex-presidentes peruanos, e já passou 16 meses em prisão preventiva por isso.

Se ela inverter o resultado e vencer, abrirá um precedente ao ser a primeira mulher nas Américas a chegar ao poder seguindo os passos de seu pai, cujo mandato foi marcado por uma série de denúncias de violações de direitos humanos.

O vencedor do pleito deve tomar posse em 28 de julho, e o mandatário ou mandatária precisará assumir as rédeas de um país em crise que já teve quatro líderes diferentes desde 2018.

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