Ocidente pede cessar-fogo na Etiópia, mas premiê eleva tom contra rebeldes

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em meio a uma escalada de tensão evidenciada também na retórica beligerante do primeiro-ministro que já venceu um Nobel da Paz, a Etiópia viu crescerem os pedidos internacionais por um cessar-fogo. A volta do conflito entre o governo central e rebeldes da região do Tigré completa um ano neste mês.

Na quarta-feira (3), a ONU voltou a fazer alertas para violações de direitos humanos na guerra entre as forças do premiê Abiy Ahmed e a TPLF (Frente de Libertação do Povo do Tigré), partido que hoje controla essa região ao norte do país. Segundo relatório das Nações Unidas, o conflito é marcado por "brutalidade extrema" e todos os envolvidos podem ter cometido crimes contra a humanidade.

O documento aponta que os dois lados cometeram atos de tortura, estupraram homens e mulheres e mataram civis, além de fazerem prisões étnicas. O Departamento de Estado dos EUA disse que vai "analisar cuidadosamente" o relatório.

O enviado americano para a região conhecida como Chifre da África, Jeffrey Feltman, foi deslocado nesta quinta (4) para Adis Abeba com a missão de pressionar as autoridades pelo fim das operações militares e pelo início das negociações de cessar-fogo. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que conversou com Ahmed e se ofereceu para ajudar a criar as condições para um diálogo.

A posição também foi adotada pela União Europeia, pela Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (Igad) --bloco de oito nações da África Oriental que atua como mediador nos conflitos do Sudão do Sul-- e pela alta comissária da ONU para os direitos humanos, Michelle Bachelet.

"Esta investigação é a oportunidade para que todas as partes reconheçam suas responsabilidades, comprometam-se a adotar medidas concretas em termos de responsabilidade e reparação às vítimas e encontrem uma solução sustentável para acabar com o sofrimento de milhões de pessoas", afirmou a ex-presidente chilena na apresentação do relatório das Nações Unidas, em Genebra.

O texto tem como base 269 entrevistas confidenciais e reuniões com autoridades locais e federais, representantes de ONGs, profissionais da área da saúde e sobreviventes de episódios de abusos --metade das mulheres ouvidas foi vítima de estupros coletivos.

As entidades ainda acusam o governo central de novamente bloquear ajuda humanitária --nenhum comboio humanitário entra no Tigré desde 18 de outubro, segundo a ONU.

Em resposta, Abiy Ahmed disse que o relatório "demonstra claramente que as acusações de genocídio são falsas e não têm nenhuma base". Em comunicado do governo, ele rechaçou as alegações de que suas ações resultaram na morte de civis por fome.

A retórica do premiê tem indicado tudo menos um recuo. Em postagem nas redes sociais nesta quinta, confirmada por autoridades à agência Associated Press, o governo etíope voltou a atacar os rebeldes com comparações agressivas. "Como diz o ditado, 'um rato que se afasta de sua toca está mais perto da morte'", dizia o texto.

No fim de semana, o Facebook deletou uma postagem de Ahmed, considerada ofensiva, que pedia à população que "enterrasse" as forças do Tigré. "Estamos comprometidos a ajudar as pessoas a se manterem seguras e a prevenir agressões online e offline por meio de nossas plataformas", disse um porta-voz do Facebook à agência Reuters.

Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro rejeitou os pedidos de negociação e acusou as forças do Tigré de exagerarem sobre seus ganhos territoriais. "Este país não cede à propaganda estrangeira, estamos travando uma guerra existencial", disse comunicado do governo. Um porta-voz ainda acusou a mídia internacional de ser "excessivamente alarmista" e de "perpetuar a propaganda terrorista como verdade".

Dias antes, o premiê havia pedido para que cidadãos pegassem em armas para se defender dos insurgentes.

Na terça, Ahmed declarou estado de emergência por seis meses em toda a Etiópia, depois que a TPLF anunciou ter avançado sobre outras regiões do país e considerou marchar até Adis Abeba. Desde então, segundo a Reuters, a polícia prendeu dezenas de pessoas -que dão, segundo um porta-voz, apoio moral, financeiro e de propaganda aos insurgentes.

Um porta-voz do rebeldes informou nesta quarta que suas tropas estavam na cidade de Kemise, na região de Amhara, a 325 km da capital, e haviam se juntado a combatentes de um grupo da etnia oromo, o Exército de Libertação Oromo. "Não temos a intenção de atirar em civis e não queremos derramamento de sangue. Se possível, gostaríamos que o processo fosse pacífico", disse.

Analistas, porém, acreditam que uma possível tomada da capital só se daria após os rebeldes assumirem o controle da estrada que liga Adis Abeba ao Djibuti, evitando, assim, contra-ataques de possíveis aliados do governo central.

Nesse contexto, a comunidade internacional receia que a guerra se espalhe para além das fronteiras etíopes. A conselheira especial da ONU para a prevenção do genocídio, Alice Wairimu Nderitu, disse em um evento online nesta quinta que se isso acontecesse seria "algo completamente incontrolável".

A embaixada dos EUA na Etiópia autorizou a saída voluntária de alguns funcionários e familiares.

O conflito atual começou em novembro de 2020, quando grupos leais à TPLF tomaram bases militares no Tigré. Em resposta, Ahmed, vencedor do Nobel da Paz em 2019, enviou tropas para a região.

O hoje grupo insurgente dominou a política nacional por quase três décadas, mas perdeu influência depois de o atual primeiro-ministro assumir o cargo, em 2018, após anos de protestos contrários ao governo da época.

As relações com a frente do Tigré, por sua vez, azedaram depois que Ahmed foi acusado de centralizar o poder às custas das administrações regionais do país --acusação que o premiê nega.

No último ano, o conflito matou milhares de pessoas, forçou mais de 2 milhões a fugir de casa e deixou 400 mil etíopes em situação de fome no Tigré.

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