Ocupação de favelas no RJ completa 1 ano na mira de investigações e sem entregar promessas

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - "Não é um programa de enxugar gelo, é um programa de atingir o problema onde ele acontece", clamou o governador Cláudio Castro (PL) em janeiro de 2022. Ele explicava por que, dias antes, centenas de policiais militares haviam ingressado e ocupado duas favelas no Rio de Janeiro.

Começava o Cidade Integrada, vitrine da gestão que disputaria a reeleição em alguns meses. A iniciativa prometeu ser diferente das finadas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e reduzir os muros entre favela e "asfalto" com ações que iam além da segurança pública.

O projeto completa um ano, porém, na mira de investigações, entregando serviços vistos como insuficientes, sem conseguir conter tiroteios nem crimes, com relatos de relação com organizações criminosas e sob críticas de diversos lados: moradores, policiais, funcionários e especialistas da área.

Mesmo assim, Castro, agora reconduzido ao cargo, já anunciou a expansão das ocupações para mais dois territórios. "Enquanto o programa não estiver devidamente implantado, dando resultado para a comunidade, não há de se falar em próximo", havia dito no início.

Primeiro foram as comunidades do Jacarezinho (zona norte do Rio), onde 28 pessoas foram mortas na operação policial mais letal da história fluminense em 2021, e da Muzema (zona oeste), onde 24 foram soterrados num desabamento de prédios da milícia local em 2019.

Em breve serão o morro do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, que divide as turísticas Copacabana e Ipanema, e o Cesarão, que já foi considerado o maior conjunto habitacional da América Latina. Equipes já vêm fazendo cadastramentos para as ações.

Lançado em locais de grande "clamor popular" segundo o próprio governador -sem critérios técnicos nem metas-, o programa que custou R$ 333 milhões até aqui teve o apoio da maioria dos cariocas: 59% eram a favor do projeto em abril, apesar da mesma parcela nunca ter ouvido falar dele, mostrou o Datafolha.

Não foi a mesma impressão de quem vive nas favelas. Uma pesquisa feita em agosto pelo coletivo Observatório Cidade Integrada mostrou que 62% dos moradores do Jacarezinho queriam o fim da iniciativa e 19%, que ela fosse melhorada. Só 1% defendia a continuidade.

"A única coisa que eu vejo aqui é a polícia", diz o fotógrafo Bruno Itan, 34, repetindo a opinião de outros quatro moradores com quem a reportagem conversou. "No início fizeram mutirões de cadastro para vaga de emprego, identidade, levaram dentista, mas isso é dever do Estado e usam como campanha. Não fizeram nada que mude a vida de alguém."

Uma denúncia feita em dezembro pelo Ministério Público Eleitoral contra Castro e outros 11 membros de seu governo e parlamentares traz indícios de que houve um esforço para que, de fora, o projeto fosse visto com outros olhos. Allan Borges, coordenador do Cidade Integrada, está entre os alvos da acusação por abuso de poder político e econômico.

No documento, três ex-funcionários relatam que o programa era usado para fins eleitorais. Um deles afirmou que o grupo sentia vergonha por ter que tirar fotos com o colete do projeto em uma quadra no Jacarezinho, com obras paradas, para as redes sociais.

Eles afirmam que eram obrigados a entregar panfletos, comparecer a eventos e apoiar determinados candidatos. Faziam ainda relatórios diários sobre os problemas da favela, mas não viam as ações andarem, com reformas inauguradas sem conclusão.

Segundo a denúncia, os funcionários do programa estavam entre as 27 mil pessoas remuneradas na "folha de pagamento secreta" da fundação Ceperj (Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do RJ), revelada pelo UOL e também investigada no âmbito criminal pelo Ministério Público Estadual.

Já na frente da segurança pública, a ocupação da Polícia Militar não conseguiu conter tiroteios. Levantamento da plataforma Fogo Cruzado a pedido da Folha de S.Paulo mostra que ocorreram 16 trocas de tiro no Jacarezinho entre fevereiro e dezembro, contra 11 nos dois anos anteriores. Na Muzema foram 2, contra zero no mesmo período.

Também não freou os principais crimes. Homicídios, roubos de rua e furtos cresceram na região que abrange a favela da zona norte, por exemplo, a maior do programa -mortes por policiais diminuíram, mas não são raras acusações de abusos como invasão de casas.

As armas, antes expostas, estão menos visíveis, relatam os moradores, mas o tráfico de drogas e as bocas de fumo voltaram depois de poucos meses. Quando policiais passam, os traficantes se escondem. Quando barricadas são retiradas, reaparecem no dia seguinte.

Sob anonimato, um agente lotado no Jacarezinho usa a palavra "inferno" para descrever o trabalho, pelo qual recebe como hora extra obrigatória. Eles não têm estrutura adequada nem base fixa.

Segundo relatos, o Bope (Batalhão de Operações Especiais) usa a casa do chefe do tráfico Adriano Souza de Freitas, o Chico Bento, que fugiu para o Complexo do Alemão no dia da operação da Polícia Civil com 28 mortos.

A TV Globo revelou em agosto que o Ministério Público fluminense investiga se um suposto pai de consideração do traficante atuou como funcionário do Cidade Integrada para garantir que colaboradores do governo circulassem sem prejudicar o tráfico.

Na Muzema, a reportagem apurou que também há influência da milícia local dentro do programa, incluindo em cargos de coordenação. A presença da Polícia Militar ali se limita a viaturas e uma nova cabine blindada e, segundo moradores, não alterou a relação de extorsão a serviços e comerciantes.

Ações eleitorais por funcionários, como panfletagem, são citadas como cenas comuns na época do pleito, e a chegada de serviços públicos também é apontada como insuficiente.

A reportagem solicitou uma entrevista com o coordenador Allan Borges para comentar as críticas, mas o governo Castro pediu que questionamentos fossem enviados por escrito já que ainda não se sabe quem assumirá o programa.

A gestão nega qualquer atuação eleitoral ou elo com criminosos. "Nenhum colaborador da coordenação participou de atividades de campanha eleitoral, sobretudo, foram coagidos a apoiar qualquer candidato", afirma, acrescentando que o suposto pai do traficante Chico Bento nunca foi coordenador do Cidade Integrada.

O governo enumera ainda 30 ações feitas até aqui, incluindo o desassoreamento de rios, a instalação de postos do Detran, a reforma de conjuntos habitacionais e escolas, a concessão de microcréditos para pequenos empreendedores e a inauguração de cursos profissionalizantes.

Também cita 614 presos, 37 adolescentes apreendidos e 94 armas de fogo e mais de uma tonelada de drogas recolhidas pela PM. "O programa ganhou maturidade com a vivência de um ano nos territórios, que durante décadas não recebiam a atenção devida pelos órgãos públicos", afirma.