Ocupação urbana de favelas em áreas de risco triplica em 37 anos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No Brasil, as favelas crescem em ritmo acelerado e já ocupam 106 mil hectares, que representam três vezes a área da cidade de Belo Horizonte. A cada 100 hectares que esses espaços ganharam de 1985 a 2021, 15 foram em áreas de risco.

É o que aponta um levantamento realizado pelo Mapbiomas publicado nesta sexta-feira (4) e realizado a partir da análise de imagens de satélite captadas nesses 37 anos.

O estudo mostra que ocupação urbana como um todo em áreas de risco triplicou desde então. Nas favelas esse aumento foi ainda maior (3,4 vezes).

"Tudo que cresceu de favelas nos últimos anos, 15% estão em áreas com baixa capacidade de respostas caso um evento extremo aconteça", diz Julio Pedrassoli, coordenador do estudo.

Para ele, o número é um reflexo de como o Brasil e a maioria dos país do mundo tratam a habitação como mercadoria e não como direito.

"Essas populações vão sofrer cada vez mais. No Brasil, esse dado é significativo porque as favelas continuam aumentando, as pessoas não ocupam essas áreas porque querem, mas por falta de opção. Ninguém ocupa um morro ou uma casa com risco de queda porque escolheu estar ali, e a baixa capacidade de resposta é por uma questão estrutural", afirma ele, destacando que eventos extremos, como chuvas fortes, têm acontecido cada vez com mais frequência e em menores intervalos.

Apesar das diferenças regionais, o Norte, o Nordeste e o Sudeste concentram a maior parte das cidades com maiores crescimentos de áreas urbanizadas em favelas. A região Norte possui 13 das 20 cidades com a maior proporção de crescimento em favelas —sendo que em nove delas a área urbanizada em favelas cresceu mais do que a área urbanizada formal.

As capitais concentram a maior parte da área urbanizada em favelas, aponta a pesquisa. Manaus possui o maior crescimento da série histórica, com cerca de 10 mil campos de futebol em 2021 —um hectare equivale a um campo de futebol.

Na sequência, aparecem São Paulo, Belém, Rio de Janeiro e Salvador. Apesar das diferenças territoriais de cada cidade, houve um crescimento semelhante das áreas informais.

Em relação aos biomas, a Amazônia (29,3%) tem a maior concentração de favelas no Brasil e a menor é no Pantanal (3,2%). O estudo aponta ainda que 25% dos municípios do Brasil viram o surgimento de sua primeira ocupação precária após 1985, e a década de 1990 foi a de maior aceleração do crescimento em área.

Outro índice que triplicou foi a de áreas urbanizadas em todo o Brasil, que passaram de 1,2 milhão de hectares, em 1985, para 3,7 milhões, em 2021, o que representa um crescimento de 3,2% ao ano.

Nos últimos 37 anos, o cerrado foi o bioma que mais perdeu vegetação nativa para áreas urbanizadas. De lá para cá, foram convertidos 156,5 mil hectares, o que corresponde a 28% do total. Em seguida vêm a mata atlântica, Amazônia, caatinga, pampa e Pantanal.

As maiores expansões de áreas urbanizadas aconteceram nas terras de uso agropecuário. A pesquisa aponta, por exemplo, entre as áreas urbanizadas em 2021, 67,8% eram de uso agropecuário e 22,2% eram de vegetação nativa em 1985.

Segundo os pesquisadores, os números preocupam porque estados perderam mais da metade da cobertura natural para as áreas urbanizadas. Isso afeta os ecossistemas naturais em que se inserem as cidades e contribui para uma resposta cada vez menos eficiente aos desafios climáticos.

A perda total das formações naturais para áreas urbanas foi de 22,2% em 37 anos. A mata atlântica é o bioma onde as áreas urbanizadas estão mais concentradas (53%).

São Paulo e Rio de Janeiro concentram as maiores áreas urbanizadas do país e, somados, perderam quase 38 mil hectares de vegetação nativa —26.655 hectares, em São Paulo, e 10.982 hectares, no Rio de Janeiro. Ainda no ranking dos biomas, em segundo lugar está o cerrado (23%), seguido da caatinga (12%), Amazônia (9%), pampa (3%) e Pantanal (0,2%).