Odebrecht inicia investigação interna sobre atuação de Marcelo Odebrecht

João Sorima Neto 
Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empresa.

SÃO PAULO - Depois de demitir por justa causa e sem direito a indenização, a Odebrecht vai investigar se Marcelo Odebrecht cometeu algum tipo de infração por conta da briga que vem travando com seu pai, Emílio, desde 2015. Desde que obteve a progressão para o regime semi-aberto, Marcelo passou a frequentar a sede da Odebrecht, em São Paulo, e o Conselho de Administração do grupo, que requereu a investigação, quer saber se Marcelo vinha influenciando - e até pressionando - funcionários em cargos de comando para abastecê-lo com informações sigilosas sobre a gestão da empresa e também sobre possíveis irregularidades dos executivos atualmente no comando do grupo. O conglomerado está em recuperação judicial, com dívidas de R$ 98,5 bilhões.

Saiba mais:Marcelo Odebrecht é demitido do grupo; saída agrava situação da empresaAlém de esmiuçar a conduta de Marcelo, o Conselho de Administração quer saber se estes funcionários também cometeram algum tipo de irregularidade ao vazar dados secretos, que seriam utilizados por ele para acusar seus desafetos. Marcelo tem disparado uma série de e-mails ao setor de compliance da Odebrecht com denúncias contra executivos do grupo, como o novo presidente Ruy Sampaio, que na semana passada substituiu Luciano Guidolin. Outro alvo dos e-mails é seu cunhado, Maurício Ferro.

Odebrecht: Imagem de símbolo da corrupção e política são desafios maiores do que dívidasEm relação a Sampaio, Marcelo afirmou nos emails enviados, aos quais o jornal "Folha de S. Paulo" teve acesso, que o novo presidente do grupo acertou pagamentos de propina a políticos e autoridades, além de também ter recebido recursos. Sobre Ferro, Marcelo diz que o cunhado teria manipulado emails da Odebrecht e da Braskem, petroquímica controlada pelo grupo, escondendo informações que poderiam indicar irregularidades cometidas por ele. Marcelo se sente injustiçado de ter sido condenado e preso, enquanto outros executivos que teriam cometido crimes, e não aderiram ao acordo de colaboração com o MPF, não passaram um dia na prisão.

Na semana passada, em entrevista ao jornal Valor Econômico, Ruy Sampaio respondeu às declarações de Marcelo e o acusou de chantagear a empresa durante a assinatura do acordo de colaboração com o Ministério Público Federal (MPF), em 2016. Sampaio diz que Marcelo fez exigências financeiras como receber um VGBL, plano de previdência privada, equivalente a seus ativos; pediu também recursos para pagar a multa imposta pelo MPF, de R$ 73 milhões, e exigiu compromisso do grupo de que seria ressarcido do patrimônio que perdesse por conta de processos da Lava Jato.

Credores: Delatores da Lava-Jato têm R$ 438 milhões a receber da OdebrechtSegundo Sampaio, essas exigências somavam nada menos que R$ 310 milhões. Marcelo determinou ainda que esses bens e recursos ficasssem blindados e não fossem usados para pagar credores. Marcelo ainda tem direto a receber R$ 53 milhões, em créditos trabalhistas, e mais R$ 17 milhões em bônus de incentivo que a empresa pagava a seus executivos, já que também também faz parte da lista de credores da Odebrecht. Sampaio disse ao Valor que Marcelo chantageou e continua chantageando o grupo.

Odebrecht:Plano da Petrobras de sair da Braskem em 2020 pode afetar recuperação judicialA investigação requerida pelo Conselho também vai levantar se Marcelo detalhou ao MPF, durante a assinatura do acordo de colaboração, o recebimento desses recursos, do VGBL e as demais garantias exigidas pelo executivo da empresa de sua família. Advogados consultado pelo GLOBO avaliam que a não declaração desse patrimônio ao MPF não tem necessariamente força para anular o acordo de colaboração assinado por ele, que reduziu seu tempo de pena. Mas o acordo pode ser anulado, dizem os advogados, se as novas investigações mostrarem que Marcelo mentiu na colaboração sobre crimes cometidos por ele ou outros executivos do grupo.— Na minha avaliação, uma rescisão do acordo só seria possível se Marcelo tivesse mentido sobre crimes cometidos por ele ou por executivos do grupo. O mero recebimento de recursos para fazer a delação, no meu entender, não é problema, salvo se houver uma cláusula clara nesse sentido no acordo. Ao oferecer esses benefícios a um executivo do grupo, a empresa pode querer legitimamente incentivar seus funcionários a colaborar com a investigação — diz um advogado especialista em acordos de delação de um grande escritório de São Paulo, que prefere se manter no anonimato.

Viu isso? Juiz rejeita pagamento de fiança de US$ 5 milhões para libertar ex-presidente da BraskemO rompimento entre Marcelo e seu pai aconteceu em 2015, depois que ele foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão por crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Com o acordo de colaboração, Marcelo cumpriu pena em regime fechado por dois anos e meio, passou ao regime de prisão domiciliar e obteve a progressão para o semi-aberto, em setembro passado.Na semana passada, as desavenças entre Emilio e Marcelo, segunda e terceira geração da família Odebrecht, ganharam um novo capítulo. Marcelo foi proibido de entrar na empresa por ordem expressa do pai e, com a demissão, perdeu direito ao uso de advogados, assessor de imprensa e motorista que eram pagos pela Odebrecht. Em nota, Marcelo disse que sua demissão é apenas a demonstração inequívoca "de mais um ato de abuso de poder do atual presidente da Odebrecht S.A. que, na tentativa de paralisar a apuração pelo compliance de fatos que lhe atingem e que deveriam estar protegidos por sigilo, retalia o denunciante como forma de intimidá-lo”.