Odessa, alvo de ataque na Ucrânia, foi palco de série de massacres na história

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Alvo de bombardeios no último sábado (23), a cidade de Odessa, no sul da Ucrânia, já foi palco de uma série de massacres ao longo da história --mas é mais conhecida por um conflito da ficção.

Segundo o governo ucraniano, mísseis russos atingiram instalações militares e dois prédios residenciais na cidade no último fim de semana, matando, segundo os ucranianos, ao menos oito pessoas; nesta segunda (25) Moscou negou ter atacado qualquer área residencial.

Às margens do mar negro, Odessa tem importância estratégica para a Rússia na guerra. A região, se conquistada, poderia isolar a Ucrânia do mar e ajudar a estabelecer um corredor entre a Crimeia e a Transdnístria, área separatista pró-Moscou na Moldova que abriga tropas russas.

Foi de Odessa, onde fica o principal porto da Ucrânia, que partiram os mísseis que atingiram e afundaram o principal navio de guerra russo, o Moskva, na versão do governo ucraniano --de acordo com Moscou, o cruzador naufragou depois de um incêndio a bordo.

A Ucrânia tem cidades com mais de um milênio de ocupação, como a própria capital, Kiev, fundada entre os séculos 6º e 7º. Não é o caso de Odessa, cuja ocupação começou a ganhar corpo como uma fortaleza tártara no século 14, esteve sob controle turco a partir do século 15 e foi fundada oficialmente dentro do Império Russo ao fim do século 18.

A cidade ficou conhecida mundialmente por ser palco de uma das sequências mais famosas da história do cinema. Em "O Encouraçado Potemkin", filme de 1925 do cineasta russo Serguei Eisenstein, militares cossacos avançam sobre a população na escadaria da cidade, considerada porta de entrada para quem vem do mar Negro, em uma cena que entrou para o cânone cinematográfico. A escadaria até hoje é o maior símbolo da cidade.

Não faltam, porém, conflitos na vida real, a maior parte deles contra judeus, que se instalaram na cidade ao longo dos séculos fugindo de perseguições em outras partes do país. O mais grave ocorreu em 1941, quando mais de 20 mil ucranianos foram assassinados, a maior parte deles judeus, durante a Segunda Guerra Mundial --até hoje não se sabe o número exato de vítimas.

A Ucrânia, à época parte da União Soviética, enfrentava uma ofensiva nazista, que teve na tomada de Odessa um de seus momentos mais importantes. Em outubro daquele ano, após dois meses de batalha, o Exército Vermelho se rendeu e tropas da Romênia apoiadas pela Alemanha ocuparam a cidade portuária.

Levantamento realizado em 1939 apontou que, dos 600 mil habitantes de Odessa, 180 mil eram judeus, segundo o Museu do Holocausto dos Estados Unidos. Com a tomada nazista, mais da metade dessa população fugiu da cidade, e entre 80 mil e 90 mil judeus permaneceram em Odessa.

Em 22 de outubro, após a conquista, uma bomba explodiu um edifício no centro usado como sede das tropas ocupantes e matou 67 pessoas, entre eles oficiais romenos e alemães. As forças de Bucareste então decidiram se vingar: juntaram à força cerca de 19 mil judeus em uma praça e atiraram contra o grupo. Depois, jogaram gasolina sobre os que sobreviveram e os queimaram vivos.

As tropas ainda levaram outro grupo de cerca de 20 mil pessoas a campos improvisados em depósitos, e a população judia remanescente foi obrigada a viver em guetos nos arredores da cidade. Em janeiro e fevereiro de 1942, os romenos deportaram 19.295 judeus para campos de concentração em outros locais, segundo o Museu do Holocausto. A perseguição nazista se manteve até a União Soviética reconquistar a cidade, em abril de 1944. Ao fim da Segunda Guerra, estima-se que a população judia de Odessa tenha se reduzido a 5.000 pessoas.

Esse grupo já havia sido alvo de ataques em Odessa ao longo do século 19 e no começo do século 20, nos chamados "pogroms", como ficaram conhecidas as perseguições em massa contra a etnia. O mais famoso deles, em 1905, deixou cerca de 300 mortos, vítimas de perseguição pelo Império Russo.

Mais recentemente, a cidade foi palco de confrontos em 2014, no contexto pós-revolução que tirou do poder o presidente Viktor Ianukovitch, alinhado a Moscou.

Em 2 de maio daquele ano, após semanas de tensão, grupos favoráveis e contrários a uma maior integração com a Europa se envolveram em confrontos violentos na cidade, e 48 pessoas foram mortas. Quase todas as vítimas, 46, eram pró-Rússia.

Na tarde daquele dia, os grupos nacionalistas encurralaram os manifestantes alinhados a Moscou na Casa dos Sindicatos, prédio de uma união sindical na cidade, e atearam fogo ao edifício. Relatório da ONU sobre a tragédia apontou que 32 pessoas morreram intoxicadas por monóxido de carbono e 10 pulando das janelas para escapar do incêndio. O episódio ficou conhecido como "inferno de Odessa".

Os confrontos daquele dia deixaram outras 247 pessoas feridas, 27 atingidas por tiros e 31 esfaqueadas. Ao todo, 99 foram hospitalizadas, incluindo 22 policiais.

O clima ainda continuou tenso na cidade nos dias seguintes. Em reação, mais de 2.000 manifestantes pró-Rússia se reuniram e atacaram a sede da polícia, armados com bastões e exigindo a libertação de companheiros detidos nos confrontos. Os policiais entrincheirados no prédio começaram a soltar um a um os suspeitos detidos, saudados pela multidão como heróis.

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