Aumenta tensão em Idlib entre Síria e Turquia, e êxodo de civis continua

Combatentes rebeldes sírios lançam foguete contra as forças governamentais no noroeste do país em 8 de fevereiro de 2020

A tensão aumentou nesta segunda-feira (10) entre Damasco e Ancara, após confrontos entre seus soldados em Idlib, uma região síria na fronteira com a Turquia, onde o exército sírio está avançando para recuperar a última fortaleza rebelde dominada por jihadistas.

Desde o início de dezembro, a violência nessa região do noroeste da Síria forçou a saída de cerca de 700 mil pessoas, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Na noite desta segunda, a Turquia, que apoia alguns grupos rebeldes e tem tropas na região, anunciou que "neutralizou" mais de 100 soldados do regime sírio, em resposta à morte de cinco militares turcos horas antes.

Estes confrontos ocorreram num contexto de tensões entre os dois países vizinhos, uma semana após os combates no noroeste da Síria, que deixaram cerca de vinte mortos de ambos os lados.

O governo turco teme que as operações do regime de Damasco, apoiadas por Moscou, provoquem uma nova onda de migração para o seu território, onde mais de 3,5 milhões de sírios buscaram refúgio desde 2011.

Uma delegação russa estava em Ancara para acalmar as tensões. Autoridades turcas pediram a Moscou que "assumisse suas responsabilidades" como fiador do acordo de cessar-fogo patrocinado pelos dois países e concluído em Sochi em 2018, informou a agência turca Anadolu.

"Segundo nossas fontes, 101 membros do regime foram neutralizados, três tanques e duas armas foram destruídas e um helicóptero foi atingido", informou o Ministério da Defesa turco nesta segunda-feira.

Esses números foram verificados de forma independentemente. Na Síria, nem a mídia estatal nem o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) registraram vítimas entre as forças do governo.

Previamente, cinco soldados turcos foram mortos e outros cinco ficaram feridos por tiros do regime contra posições turcas na província de Idlib.

O OSDH informou que os disparos de foguetes do regime contra o aeroporto militar de Taftanaz deixaram "mortos e feridos" entre as tropas turcas que estava ali.

- Cidades vazias -

Na semana passada, oito soldados turcos foram mortos em um bombardeio do regime de Bashar al-Assad na região, onde as forças sírias cercaram três dos 12 postos de observação turcos.

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, deu um ultimato ao regime sírio para afastar suas tropas dos postos de observação militares turcos antes do final de fevereiro.

Nos últimos dias, a Turquia continuou a enviar tropas e veículos blindados para novas posições militares no noroeste da Síria.

Na segunda-feira, um jornalista da AFP viu soldados turcos na área de Qaminas, ao sul da cidade de Idlib.

Um pouco mais da metade da província de Idlib e os setores vizinhos das províncias de Aleppo, Hama e Latakia permanecem dominados pelos jihadistas do Hayat Tahrir Al Sham (HTS, ex-braço sírio da Al-Qaeda).

Essa região de três milhões de habitantes também abriga outros pequenos grupos jihadistas e grupos rebeldes enfraquecidos.

A violência fez com que cerca de 689 mil abandonassem a região desde dezembro, declarou David Swanson, porta-voz do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), nesta segunda.

"Cidades inteiras estão vazias enquanto um número crescente de civis foge para o norte", em geral para a Turquia, acrescentou Swanson.

De acordo com a ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), ao menos nove civis, incluindo seis crianças, morreram na madrugada desta segunda-feira em ataques russos na localidade de Abin Semaan, no oeste de Aleppo.

As novas vítimas elevam para 29 o número de civis mortos desde domingo (9) em bombardeios do governo sírio e seu aliado russo, relatou o OSDH.

As equipes de resgate da defesa civil, conhecidos como "Capacetes Brancos", procuravam pessoas entre os escombros.

A operação militar do regime matou mais de 350 civis desde meados de dezembro, segundo o OSDH. Das 29 vítimas fatais registradas desde domingo, 23 morreram em ataques russos, e seis, em bombardeios das forças do governo Bashar al-Assad, completou o OSDH.

Os ataques se concentram na área sob controle dos jihadistas e rebeldes em um trecho de dois quilômetros da rodovia M5, a qual o governo espera reconquistar. Esta estratégica via liga Aleppo a Damasco.

A frente de Idlib representa a última grande batalha estratégica para o governo sírio, que controla mais de 70% do território chinês, conforme o OSDH.

Apenas dois quilômetros da rodovia que cruza o oeste da província de Aleppo permanecem fora do controle das forças do regime, que recuperaram todo trecho que atravessa a província de Idlib.

O conflito na Síria deixou mais de 380.000 mortos desde 2011 e obrigou milhões de pessoas a abandonarem suas casas.