Após oito anos de guerra, vizinhos da Síria se cansam dos refugiados

Por Layal ABOU RAHAL con Gokan GUNES en Estambul y Mussa HATTAR en Amán
Menina síria chora após caminhar da Turquia à Síria, em 6 de agosto de 2019 em Istambul

Os refugiados sírios se sentem cada vez mais forçados a voltar a seu país, ainda em guerra, após serem expulsos de Turquia, Líbano e Jordânia, países vizinhos exasperados pela dificuldade de acolher milhões de sírios em seu território.

As autoridades turcas expulsaram em julho Nidal Hussein, um sírio que se deslocou a Istambul no começo de 2019 para se reencontrar com a família, no exílio há cinco anos. Sem nenhum motivo aparente e com o argumento de que não tinha permissão de residência, o extraditaram diretamente para a Síria.

"Deixei minha mulher e três filhos em Istambul", explica este homem de 48 anos. "Tentarei voltar", promete.

Líbano, Turquia e Jordânia acolhem 5,2 milhões de sírios, que abandonaram seu país após o início da guerra, em 2011.

As autoridades destes três países se mostram cada vez mais ativas em forçar os refugiados sírios a voltarem para seu país, por considerá-los uma "carga" para a economia.

Várias organizações de defesa dos direitos humanos alertaram nos últimos meses para o crescimento da xenofobia e da pressão sobre os refugiados sírios para obrigá-los a voltar para seu país.

"A crise demora, já temos oito anos desde o início do exílio dos sírios (...) Os países vizinhos estão exaustos", lembra Nasser Yasin, diretor do Instituto Isam Fares, especializado em assuntos internacionais e cuja sede fica em Beirute.

A ausência de "soluções claras na questão do retorno dos refugiados sírios" favorece uma "multiplicação de campanhas contra eles", explica.

Segundo as Nações Unidas, a Turquia acolhe 3,6 milhões de exilados sírios; o Líbano, 1,5 milhão, e a Jordânia, um milhão, segundo os respectivos governos.

Embora na Jordânia não se tenha acentuado tanto a pressão sobre os refugiados sírios, as autoridades insistem em atribuir as dificuldades econômicas e os problemas de infraestrutura à sua presença.

- "Clima hostil" -

Ativistas turcos impulsionaram a campanha "Todos somos migrantes" para denunciar a pressão que os refugiados sofrem.

"O clima hostil contra os sírios (...) se degradou recentemente com o consenso entre políticos e meios de que os sírios são fonte de problemas" na Turquia, explica Yildiz One, porta-voz desta campanha.

"Expulsar os sírios para um país ainda em guerra (...) os expõe a uma ameaça de morte", lembra.

Segundo Ancara, 337.729 refugiados sírios na Turquia voltaram ao seu país desde o início da guerra e todos eles o fizeram voluntariamente.

A mesma versão é defendida pelo governo libanês, ao assegurar que 325.000 refugiados voltaram para a Síria desde 2017 de forma "não forçada".

Várias ONGs questionam, no entanto, o caráter voluntário destes retornos e denunciam várias medidas para pôr a corda no pescoço dos refugiados.

Desde junho, mais de 3.600 famílias sírias viram suas casas de cimento serem destruídas na localidade de Aarsal, no leste do Líbano, segundo fontes deste município, que autoriza apenas barracas de camping e toldos.

O Exército libanês também destruiu 350 casas no norte do Líbano e deteve dezenas de pessoas sem permissão de residência, denunciaram várias ONGs.

O ministro do Trabalho do Líbano também impulsionou recentemente uma campanha contra a mão de obra estrangeira e ilegal, uma medida destinada sobretudo aos exilados sírios.

O regime sírio voltou a abrir, em outubro de 2018 o principal posto fronteiriço com a Jordânia, após ter recuperado seu controle três meses antes.

Desde então, 25.000 refugiados voltaram para a Síria, segundo a ONU. Mas muitos deles temem voltar devido "à perseguição e à falta de segurança" neste país, segundo Yasin.

Metade dos exilados sírios em Jordânia, Líbano e Turquia "têm constância de que suas casas foram destruídas ou ficaram em estado inabitável", acrescentou esta ativista.

Damasco, que conta com o apoio da Rússia e do Irã, controla 60% do território sírio.