Oito datas comemorativas de 2023 vão movimentar R$ 2,1 bilhões na cidade do Rio

Se em alguns lugares os feriados prolongados significam comércio fechado e produção parada, no Rio a realidade pode ser oposta, de economia aquecida e arrecadação em alta. Estimativas do Rio Convention & Visitors Bureau (Rio CVB/Visit.Rio) indicam que, apenas nos oito feriadões nacionais deste ano, alavancada pelo turismo, a cidade movimentará R$ 2,3 bilhões — conta que sequer considera o carnaval e celebrações locais, como a de amanhã, Dia de São Sebastião. Só em Imposto Sobre Serviços (ISS), projeta-se que o município engordará seus cofres em R$ 104 milhões. E os setores que faturam não se restringem a hotelaria, atrações turísticas, transportes e bares e restaurantes. O efeito vai dos shoppings ao aluguel de carros, fazendo o dinheiro girar, inclusive, em atividades informais, como constatam os barraqueiros e ambulantes da orla.

— No Rio, onde serviços e turismo têm grande peso, é muito positivo este fenômeno de 2023, de tantos feriados emendados ao fim de semana. O taxista e o motorista de Uber têm mais passageiros, crescem as vendas dos quiosques da praia... Em termos de arrecadação, impacta, sobretudo, o ISS. Mas até o ICMS (principal imposto estadual) tem ganhos. Pense na pessoa que vem de Minas Gerais de automóvel e abastece no Rio — exemplifica Carlos Werneck, presidente-executivo do Rio CVB/Visit.Rio.

Ele lembra que, depois do tombo devido à Covid-19, a cadeia do turismo se recupera, e os feriadões deste ano se tornam providenciais para manter a demanda estável após a alta temporada de verão. Apesar de desafios no horizonte, Werneck destaca ainda relatórios do aeroporto do Galeão apontando que 74% dos voos internacionais que havia em 2019 já retornaram ao Rio. E o turismo interno continua estimulado, com novos hábitos mudando cenários.

— O aumento das viagens nacionais após as restrições da pandemia é um ponto sem volta. Muitos também se encorajaram a pegar a estrada, de carro ou ônibus. Assim como o trabalho remoto tem facilitado que visitantes estendam suas estadias longe de casa — afirma.

Sobre o cálculo do montante que circulará na cidade, Werneck explica que se baseou em dados da Embratur de que, em média, um turista brasileiro gasta US$ 221 por dia, enquanto o estrangeiro desembolsa US$ 329. Com cerca de 40 mil quartos na rede hoteleira, e presumindo-se uma ocupação de 80% deles nos feriados, a fundação chegou à previsão conservadora de 64 mil pessoas no Rio. Dessa forma, cada uma das quatro celebrações que caem numa segunda ou numa sexta-feira — Dia do Trabalho, Sexta-Feira Santa, Tiradentes e Natal — injeta R$ 250 milhões na economia carioca, tendo em vista três dias de feriadão, incluindo o fim de semana. Já para as quatro datas especiais que ocorrerão numa quinta-feira — Corpus Christi, Independência, Nossa Senhora Aparecida e Finados —, assume-se a possibilidade de enforcar a sexta-feira, o que leva ao cômputo de R$ 333,3 milhões por feriadão.

Dos restaurantes do Largo da Prainha, na Zona Portuária, a grandes atrativos turísticos do Rio, todos comemoram o 2023 com mais tempo de lazer. No Trenzinho do Corcovado, principal acesso ao Cristo Redentor, há um esquema extraordinário para essas datas, com horário de operação estendido e reforço nas equipes de atendimento.

— Estimamos aumento de até 15% no fluxo, o que significa cerca de mais cem mil turistas no final do ano — afirma Sávio Neves, presidente do Trem do Corcovado.

Já o Museu do Amanhã aposta numa grade especial.

— A programação “Brincar é Ciência”, voltada às crianças, está agendada para todos os feriados de 2023, reforçando nosso compromisso como museu educador com atividades para a família toda — diz a diretora geral Bruna Baffa.

E não é só a capital que borbulha. Para este Dia de São Sebastião, com os cariocas antecipando a vibe de fim de semana para viajar, a ABIH-RJ aponta que, de amanhã até domingo, a ocupação na rede hoteleira do interior do estado bate 85,91%, contra 73,32% no mesmo feriado de 2022.

Os indicativos para o carnaval também são animadores. Na cidade do Rio, a primeira prévia do HotéisRIO mostra uma média de 62,83% dos quartos reservados para o período de 18 a 21 de fevereiro. Presidente do sindicato, Alfredo Lopes prevê que, até a festa, esse índice ultrapasse os 90%, com o percentual de estrangeiros aumentando para em torno de 35% dos visitantes, com destaque para argentinos, chilenos, americanos, ingleses e franceses. Já no restante do ano, diz Alfredo, os feriadões serão impulsores do turismo interno.

— Considerando o sucesso do réveillon, durante o qual chegamos a 98% de ocupação, o que se prevê para este ano, que tem quase um feriado emendado por mês, são excelentes resultados, principalmente em função do mercado interno. Aqui ao lado está São Paulo, o maior emissor de turistas do país — diz Alfredo.

Como, no entanto, não é só de feriado que vive o turismo, o Rio CVB/Visit.Rio ressalta que a cidade também tem feito o dever de casa para captar mais eventos, um dos trunfos para manter a demanda nas baixas temporadas. Para 2023, o calendário conta com 109 deles confirmados até o momento, com previsão de que atraiam público de aproximadamente um milhão de pessoas, gerando receita de R$ 2,5 bilhões.

— Nos dois últimos anos, realizamos um trabalho intenso junto ao trade e ao poder público para fortalecer a imagem do Rio como um destino de lazer e negócios. A captação de eventos para a cidade comprova que estamos no caminho certo e que 2023 promete ser, realmente, o ano da retomada dos números da pré-pandemia para o turismo — prevê Roberta Werner, diretora-executiva do Rio CVB/Visit.Rio.

A entidade ressalta que, embora sejam eventos de negócios, as características do Rio acabam incentivando que participantes desses congressos, encontros e feiras aproveitem a passagem pela Cidade Maravilhosa para o lazer, às vezes trazendo junto a família inteira.

Das mais de cem oportunidades para essa “esticadinha” este ano, os executivos do Rio CVB/Visit.Rio destacam programações que consideram de “extrema relevância”, como o Web Summit Rio, um dos maiores eventos de tecnologia do mundo, que pela primeira vez acontecerá fora da Europa. A edição carioca está marcada para maio e deve levar mais de 15 mil pessoas ao Riocentro. Outro evento aguardado é a Expo Abav, uma das principais feiras de turismo da América Latina, que retornará à cidade após dez anos, em setembro.

Para que essa maré positiva perdure, no entanto, Carlos Werneck ressalta que o Rio não pode falhar no enfrentamento a uma lista de gargalos, cujas soluções contribuiriam para o turismo deslanchar de vez. Segurança pública continua tema-chave, mas não faltam questões de infraestrutura a resolver. Com mais gente optando pelas viagens rodoviárias, Werneck destaca entraves em estradas que são acesso à capital e às zonas turísticas do interior. Ele cita a Rodovia Rio-Santos (BR-101), rumo à Costa Verde, com a promessa de ser duplicada nos próximos anos. Destaca ainda a Serra de Petrópolis (BR-040), com obras paradas, à espera de uma concessão federal. E diz ser fundamental uma saída para os engarrafamentos no entroncamento entre a BR-101, a BR-493 e a RJ-104, em Manilha, Itaboraí, no caminho da Região dos Lagos.

Um desfecho para o imbróglio da concessão dos aeroportos do Galeão e o Santos Dumont, no entanto, é a principal urgência, diz ele:

— É o debate mais importante este ano para o turismo e o Estado do Rio. Hoje, com muitos voos nacionais concentrados no Santos Dumont, vemos o aeroporto lotado às 6h30, enquanto o Galeão permanece esvaziado. Na minha opinião, o Santos Dumont deve ser usado para pontes aéreas. E o Galeão precisa ganhar mais conectividade nacional e, consequentemente, internacional.