Oito em cada dez vítimas de feminicídio foram mortas por marido, namorados ou ex-companheiros

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RIO — No ano passado, o estado do Rio registrou 78 mortes enquadradas no crime de feminicídio, de acordo com o Dossiê Mulher, do Instituto de Segurança Pública (ISP). Cerca de 20% (15) delas ocorreram na presença dos filhos. Do total de mulheres vítimas, 52 eram mães, e mais da metade tinha entre 30 e 59 anos. A maioria já tinha sofrido algum tipo de violência não registrada. Os companheiros ou ex-companheiros representam grande parte dos autores dos crimes — 78,2%. Para 27 homicidas, a motivação do assassinato foi uma briga. Outros 20 apontaram o término do relacionamento.

Entre as vítimas mais recentes de feminicídio, está Geilza da Silva Alves, de 51 anos. Ela e um de seus filhos, Alan Alves de Souza, de 27, foram mortos na terça-feira, em Barros Filho, na Zona Norte do Rio. O crime foi cometido pelo ex-namorado dela, Carlos Henrique dos Santos Batista, de 44. Uma semana antes ele postou para ela numa rede social: “Parabéns meu amor, boa sorte e sucesso nos seus objetivos”.

A mensagem gentil, no entanto, escondia seu inconformismo com o fim do relacionamento, e na tarde da última terça-feira ele invadiu a casa de Geilza, protagonizando um crime brutal: baleou a mulher e os dois filhos dela. Um morreu no local, e o outro, ferido, conseguiu fugir pela janela. Ela também não resistiu. Carlos Henrique ainda incendiou a residência, se suicidando em seguida.

A 150 quilômetros dali, em Bracuí, na cidade de Angra dos Reis, menos de 24 horas depois, outra tragédia com contornos parecidos acontecia. Lucimar Freitas da Silva Vasconcelos, de 46 anos, e sua filha, a técnica de enfermagem Adriana Vasconcelos da Silva, de 19, foram encontradas mortas a facadas em casa. O acusado do crime, Márcio de Oliveira Vicente, de 38, que seria ex-namorado de Lucimar, foi preso por policiais da 166ª DP (Angra dos Reris).

O acusado se apresentou à polícia, logo após o crime e negou ser o assassino das duas. Em diligências na casa do suspeito a polícia encontrou uma calça com manchas semelhantes a sangue. Além disso ele apresentava ferimento cortante no dedo indicador diireito. Embora ele tenha dito que o ferimento tivesse sido feito no dia anterior, quando cortava cana, o delegado Vilson de Almeida considerou que há indícios que ele seja o criminoso e o prendeu em flagrante. Um sobrinho de Lucimar foi o primeiro a chegar na casa de Lucimar e testemunhas informaram que Márcio teria sido a última pessoa a entrar no imóvel.

A juíza Adriana Ramos de Mello, titular do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da capital, afirma que, infelizmente, casos em que os filhos são também vítimas diretas desses agressores não são incomuns.

— A gente tem dados trágicos dessa violência que vem acontecendo na presença dos filhos. Pelo Dossiê Mulher, em 44% dos feminicídios as mulheres tinham filhos menores, e 74% ocorreram num ambiente residencial. Se você tem um número grande acontecendo dentro de casa é comum que os filhos presenciem, isso quando eles não são atingidos diretamente pela violência — diz Adriana, acrescentando: — O feminicídio é considerado um crime de poder: o homem pratica a violência contra a mulher quando perde ou acha que vai perder o controle da relação.

Em Barros Filho, o ataque a tiros de Carlos Henrique dos Santos Batista ocorreu durante um almoço de família no feriado. Dias antes, a mensagem carinhosa numa rede social para Geilza, que parecia num momento feliz, por estar prestes a abrir um negócio na área de estética, disfarçava seu caráter violento. De acordo com a Polícia Civil, ele tinha antecedentes por violência doméstica, sendo investigado por dois delitos desse tipo em 2003 e 2005, quando se relacionava com outra mulher.

Família em choque

A polícia já sabe que pelo menos sete pessoas estavam na residência quando ele tocou a campainha. Ao ser atendido por um parente de Geilza, o ex-namorado preferiu não entrar na casa. Chamada, a mulher foi atendê-lo, e em seguida tiveram início os disparos. Ela ainda teria tentado fugir do agressor, mas acabou baleada e morta.

Carlos Henrique, ao disparar contra os filhos dela, matou Alan Alves de Souza, de 27 anos. Já o irmão dele, Marcos Vinicius, foi baleado, mas escapou do atirador pulando a janela. Ele, que foi atendido no Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, postou um vídeo em rede social para tranquilizar amigos e parentes. Na gravação, o jovem diz estar bem, apesar ter levado dois tiros numa das pernas. Marcos Vinicius também fez questão de esclarecer que o autor dos disparos quem mataram a mãe e o seu irmão foram feitos por Carlos Henrique:

“Estou gravando este vídeo só para dizer que estou bem. Foram só uns pontos na cabeça, um machucadinho de leve ( no rosto) e dois tiros na perna. Mas fui bem atendido nos dois hospitais por onde passei. Só para complementar... Tem saído algumas mentiras. Não foi meu pai que ocasionou isto. Foi o Carlos, ex- namorado da minha mãe”.

Dentro da casa onde Geilza foi morta, policiais civis encontraram uma pistola calibre 380, usada por Carlos Henrique, que trabalhava ultimamente como motorista de aplicativo. No entanto, em um perfil usado por ele no Facebook, ele dizia ser vigilante patrimonial e que, desde maio de 2017, estava em um relacionamento sério.

Adriana Ramos de Mello alerta para que as mulheres procurem ajuda no primeiro sinal de violência:

— Na raiz do feminicídio, estão o machismo e cultura do patriarcado, na qual tudo gira em torno do homem, que tem o controle da relação. A gente tem a Lei Maria da Penha, que representa uma mudança de paradigma, e há a própria lei do feminicídio, de 2015. Mas precisamos avançar nas políticas públicas. Tem que haver uma mudança no chip da sociedade brasileira. Mulher tem direitos iguais ao homens, e ninguém é propriedade de ninguém.

Na última segunda-feira, um homem suspeito de assassinar a cabeleireira Lívia Verly, de 36 anos, a pedradas, foi preso em Itaperuna, no Noroeste Fluminense. Ele é ex-companheiro da vítima, cujo corpo foi encontrado no mesmo dia às margens da RJ-234, na zona rural de São Fidélis. Ela deixou dois filhos adolescentes.

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