Oito filmes e livros que mostram a violência usada pela ditadura militar contra as mulheres que lutaram pela democracia no Brasil

O Globo
·6 minuto de leitura

RIO - Em seu primeiro ato público como ministro da Defesa, o general Braga Netto publicou ontem (30) uma ordem do dia alusiva ao aniversário de 57 anos do golpe militar de 1964, que chamou de "movimento". O ministro conclui o texto dizendo que devem ser "compreendidos e celebrados os acontecimentos daquele 31 de março". Em reação, usuários do Twitter no Brasil, colocaram a hashtag #DitaduraNuncaMais no topo dos trending topics da rede social.

Mas, em 31 de março, não há o que comemorar. A data que marcou o início da ditadura militar no Brasil, em 1964, tampouco pode ser esquecida. A Comissão Nacional da Verdade estipulou pelo menos 434 mortos e desaparecidos nos 21 anos do regime. Segundo a organização internacional Human Rights Watch, mais de 20 mil pessoas foram torturadas pelos militares brasileiros. Para as mulheres detidas nos porões do regime militar, à tortura física e psicológica, muitas vezes, foi acrescentada a tortura sexual. Não são poucos os relatos de ex-prisioneiras que incluem estupros.

Listamos oito filmes e livros que mostram as trajetórias de brasileiras que ousaram lutar pela democracia, e a violência com que foram tratadas pela ditadura militar.

Torre das donzelas (2018)

O documentário de Susanna Lira narra o período da ditadura militar através do depoimento de mulheres encarceradas na chamada Torre das Donzelas, nome dado ao conjunto de celas femininas no Presídio Tiradentes, em São Paulo, na década de 70, auge da violência no período de exceção. Para o local, eram levados os presos políticos depois de passarem por órgãos de repressão como o Dops e o DOI-Codi.

O filme tem entre as entrevistadas a ex-presidente Dilma Rousseff, presa em 1970 e levada ao presídio Tiradentes. Elas narram como foram capturadas, as torturas que sofreram e suas vivências dentro do presídio com outras mulheres que também lutavam pela democracia. O filme está disponível no Globo Play.

Que bom te ver viva (1989)

Em seu primeiro longa, Lúcia Murat recolheu histórias de oito mulheres que foram torturadas pelo regime militar. "Que bom te ver viva" alterna os depoimentos com momentos ficcionais protagonizados em monólogo pela atriz Irene Ravache.

Tensionando drama e documentário, o filme faz um retrato de como as ex-presas políticas da ditadura militar brasileira enfrentaram as torturas e prisões ao longo do período. Muitas delas falam de episódios de violência sexual que sofreram enquanto estiveram presas. O filme está disponível no Looke.

Heroínas desta história (2020)

Lançado em março de 2020 pelo Instituto Vladimir Herzog, o livro "Heroínas desta História – Mulheres em busca de justiça por familiares mortos pela ditadura" reúne depoimentos de 15 mulheres que tiveram suas vidas impactadas pela violência do Estado no período da ditadura militar.

A obra foi escrita por uma equipe 100% feminina e organizada por Carla Borges e Tatiana Merlino. Com uma pesquisa extensa elas localizaram cerca de 70 mulheres que foram atingidas pela repressão militar, chegando aos 15 perfis retratados na obra. Militantes, indígenas, operárias ou camponesas, elas são mulheres que se posicionaram contra o autoritarismo de diferentes maneiras e que por isso foram perseguidas, torturadas e assassinadas ou viram seus entes queridos desaparecerem e até hoje buscam por justiça.

Zuzu Angel (2006)

O filme dirigido por Sérgio Rezende é baseado na história real da famosa estilista mineira Zuleika Angel Jones (1921-1976), interpretada por Patrícia Pillar. Sua vida é transformada quando seu filho, Stuart Angel Jones (Daniel Oliveira), após ingressar no movimento contra a ditadura, é preso, torturado e morto pelos militares em 1971.

Zuzu então começa uma busca por informações sobre o filho e o direito de sepultá-lo, denunciando as arbitrariedades praticadas pela ditadura à imprensa e a órgãos internacionais. Sua mobilização incomoda o regime a ponto de ela própria acabar morta em um acidente de carro suspeito, em 1976.

Luta, substantivo feminino (2010)

Coordenado por Tatiana Merlino, o livro “Luta, substantivo feminino: mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura” faz o registro da vida e morte de 45 brasileiras que lutaram contra a ditadura e reúne o depoimento de 27 sobreviventes que narram as brutalidades sofridas quando foram presas pelo regime, incluindo violência sexual, partos e episódios de aborto na prisão.

"Os torturadores falavam muito das presas, ridicularizavam, gritando para você ouvir. Eram coisas libidinosas, como do tamanho da vagina de uma pessoa que eu conhecia", narra uma das sobreviventes. "Teve pau de arara com choque elétrico no corpo nu: nos seios, na vagina, no ânus", diz outra.

A publicação foi fruto de uma iniciativa das secretarias de Direitos Humanos e de Políticas para Mulheres do governo federal em 2010 e está disponível para download gratuito na internet.

Em Busca de Iara (2014)

Por meio de uma investigação pessoal de sua sobrinha, Mariana Pamplona, o filme resgata a vida da psicóloga Iara Iavelberg, que largou uma confortável vida familiar para se engajar na luta armada contra a ditadura.

Vivendo na clandestinidade, na esteira de uma rotina de sequestros e ações armadas, tornou-se a companheira do ex-capitão do exército Carlos Lamarca, compartilhando com ele o posto de um dos alvos mais cobiçados da repressão. Através da pesquisa de documentos, entrevistas e filmes de arquivo, o documentário reconstrói a vida de Iara e desmonta a versão oficial de sua morte em 1971, dada como suicídio. Disponível no Canal Curta.

Em nome dos pais (2017)

O livro "Em nome dos pais", de Matheus Leitão, remonta a história da prisão de seus pais, os jornalistas Marcelo Netto e Míriam Leitão, em 1972. Para reconstituir a trajetória dos pais nos anos de chumbo, o autor levou dez anos analisando documentos, ouvindo ex-companheiros de militância e, principalmente, localizando personagens que, 50 anos depois, ainda representam dor e repulsa na família.

Dois dias depois de ser presa com Marcelo e levada para o 38º Batalhão de Infantaria, em Vila Velha, em 3 de dezembro de 1972, Míriam foi submetida a uma sessão de torturas que começou com uma sequência de chutes e socos — um deles abriu sua cabeça — e terminou numa sala escura, nua por horas, na companhia de uma jiboia, trazida dentro de uma caixa de isopor por “Pablo”, o oficial que comandava a equipe de torturadores. Aos 19 anos, Míriam estava grávida de um mês do primeiro filho.

A identidade de torturadores de Míriam e de Marcelo é uma das revelações do livro, lançado pela editora Intrínseca em 2017.

Memórias femininas na luta contra a Ditadura Militar (2015)

Dirigido por Maria Paula Araújo, o filme é fruto do Laboratório de Estudos do Tempo Presente, do departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o documentário recupera vozes femininas que construíram a resistência ao regime militar.

O vídeo foi realizado em parceria com a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. A perspectiva de gênero demonstra como o regime impactou a vida das mulheres de uma forma específica em diferentes níveis, com violências de caráter sexual e que atingiam também o corpo e a condição de maternidade. Disponível no Youtube.