Oito vezes que aliados de Bolsonaro se envolveram em polêmicas nazistas

João de Mari
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Chanceler brasileiro afirmou, em entrevista ao canal no YouTube
Chanceler brasileiro afirmou, em entrevista ao canal no YouTube "Brasil Paralelo", que o nazismo e fascismo são "fenômenos da esquerda". (Foto: AFP/Sergio Lima)
  • Filipe Martins, assessor internacional do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), é acusado de fazer símbolo ligado ao nazismo durante transmissão da TV Senado

  • Ao menos em oito ocasiões, aliados ao presidente Bolsonaro se envolveram em polêmicas nazistas

  • Museu do Holocausto se manifestou dizendo que toda semana tem que denunciar, reprovar ou repudiar um discurso antissemita, um símbolo nazista ou ato supremacista

Filipe Martins, assessor internacional do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), apareceu ao vivo na TV Senado, nesta quarta-feira (24), fazendo um gesto de "OK" com as mãos de um jeito específico, como se mantivesse três dedos retos em forma da letra W. 

O gesto é classificado como "uma verdadeira expressão da supremacia branca" pela Liga Antidifamação (ADL, na sigla em inglês), organização dos Estados Unidos que monitora crimes de ódio, e faz referência ao nazimo, regime liderado por Adolf Hitler que matou milhões de pessoas entre judeus, comunistas, homossexuais, ciganos, Testemunhas de Jeová e outras minorias.

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Após o ocorrido, o Museu do Holocausto de Curitiba se manifestou nas redes sociais com uma nota de repúdio, dizendo que pesquisas acadêmicas, como da antropóloga Adriana Dias, mostram crescimento no número de células neonazistas e no engajamento de integrantes no Brasil.

"É estarrecedor que não haja uma semana que o Museu do Holocausto de Curitiba não tenha que denunciar, reprovar ou repudiar um discurso antissemita, um símbolo nazista ou ato supremacista. No Brasil, em pleno 2021. São atos que ultrapassam qualquer limite de liberdade de expressão", postou a organização no Twitter.

Nas redes sociais, Filipe Martins negou as acusações e ainda afirmou que irá processar os "palhaços" que querem "emplacar a tese" de que ele simpatiza com o nazismo.

"Um aviso aos palhaços que desejam emplacar a tese de que eu, um judeu, sou simpático ao "supremacismo branco" porque em suas mentes doentias enxergaram um gesto autoritário numa imagem que me mostra ajeitando a lapela do meu terno: serão processados e responsabilizados; um a um", disse.

No fundo, Filipe Martins e o gesto que gerou revolta por sua identificação com supremacistas brancos (Foto: Reprodução/TV Senado)
No fundo, Filipe Martins e o gesto que gerou revolta por sua identificação com supremacistas brancos (Foto: Reprodução/TV Senado)

Mas, o caso do assessor da Presidência da República não é isolado. Em pelo menos outras sete oportunidades, pessoas ligadas ao presidente Bolsonaro se envolveram em polêmicas ligadas ao nazismo. 

Confira a lista:

  • Roberto Alvim

  • Mário Frias

  • Ernesto Araújo

  • Abraham Weintraub

  • Allan dos Santos

  • Sara Winter

  • Paraquedistas

Roberto Alvim, ex-secretário especial de Cultura

Em janeiro de 2020, um vídeo em que o então secretário da Cultura Roberto Alvim copia trechos de uma citação do ministro de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, em um discurso para as redes sociais para divulgar o Prêmio Nacional das Artes.

O vídeo foi postado pela Secretaria Especial da Cultura do governo Bolsonaro para divulgar o prêmio, lançado horas antes em live com a participação do próprio presidente.

Roberto Alvim foi demitido após vídeo citando ministro nazista - Foto: Reprodução/Twitter
Roberto Alvim foi demitido após vídeo citando ministro nazista - Foto: Reprodução/Twitter

"A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada", disse o ministro de cultura e comunicação de Hitler em um pronunciamento para diretores de teatro, segundo o livro Goebbels: a Biography, de Peter Longerich.

"A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada", afirmou Alvim.

Após a ampla repercussão, o presidente Bolsonaro demitiu Roberto Alvim.

Mário Frias compara medidas de combate à pandemia ao Holocausto

No último dia 12, o secretário especial de Cultura do governo federal, Mário Frias, comparou medidas de combate à pandemia do coronavírus ao Holocausto. Para o secretário, o setor de eventos também é essencial e deveria continuar funcionando.

Frias postou um trecho do filme A Lista de Schindler. A cena mostra pessoas em um campo de concentração e, para tentar se proteger, alegam que são “trabalhadores essenciais”. O secretário faz alusão aos estados que, para frear a propagação do coronavírus, estão fechando serviços considerados não-essenciais.

No fim do vídeo, há a mensagem: “Por medo, estamos permitindo políticos decidirem quem é essencial e quem não é. Cuidado. Seu trabalho é essencial. Você é essencial” (Foto: Agência Brasil)
No fim do vídeo, há a mensagem: “Por medo, estamos permitindo políticos decidirem quem é essencial e quem não é. Cuidado. Seu trabalho é essencial. Você é essencial” (Foto: Agência Brasil)

No fim do vídeo, há a mensagem: “Por medo, estamos permitindo políticos decidirem quem é essencial e quem não é. Cuidado. Seu trabalho é essencial. Você é essencial”.

Nas redes sociais, o Museu do Holocausto de Curitiba reagiu à publicação de Frias. “’A Lista de Schindler’, secretário? É desta forma que pretende se opor às medidas de combate à pandemia? Crê que a analogia com esta paródia agressiva não ofende sobreviventes e descendentes? Que não prejudica a construção da memória do Holocausto? Que vergonha, secretário.”

Mario Frias continua no cargo.

Ernesto Araújo, ministro da Relações Exteriores, faz analogia com campos de concentração

Em abril de 2020, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, comparou a imposição de medidas de distanciamento social aos campos de concentração nazistas. A analogia foi feita quando o chanceler brasileiro publicou um texto em seu blog pessoal criticando um livro escrito pelo filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek.

"Os comunistas não repetirão o erro dos nazistas e desta vez farão o uso correto. Como? Talvez convencendo as pessoas de que é pelo seu próprio bem que elas estarão presas nesse campo de concentração, desprovidas de dignidade e liberdade", disse o ministro à época.

Ao lado de membros do governo israelense, o ministro disse que esse tipo de analogia "banaliza" o Holocausto. (Foto: Reprodução)
Ao lado de membros do governo israelense, o ministro disse que esse tipo de analogia "banaliza" o Holocausto. (Foto: Reprodução)

O Comitê Judeu Americano exigiu um pedido de desculpas do ministro das Relações Exteriores. "Essa analogia usada por Ernesto Araújo é profundamente ofensiva e totalmente inapropriada. Ele deve se desculpar imediatamente", escreveu o Comitê no Twitter.

Mesmo assim, na semana passada, em viagem a Israel, Araújo reclamou da publicação de um manifesto de intelectuais, sindicalistas e religiosos que comparou a situação dramática da pandemia no Brasil e a falta de ações do governo federal a uma "câmara de gás a céu aberto". Ao lado de membros do governo israelense, o ministro disse que esse tipo de analogia "banaliza" o Holocausto. 

Os autores do manifesto acabaram retirando esse trecho do texto. Araújo, por sua vez, nunca pediu desculpas pela sua fala de abril passado.

Nesta quarta-feira (24), a jornalista Andréia Sadi, do G1, publicou matéria dizendo que parlamentares pressionam pela saída de Ernesto Araújo. De acordo com o texto, ele poderia ser substituído por Antonio Anastasia ou Fernando Collor. Relações ruins com a China seriam motivo relevante para pressão contra Araújo.

Abraham Weintraub cita onda de violência patrocinada pelo regima nazista

Em maio do ano passado, o então ministro da Educação Abraham Weintraub também usou falsas comparações com o nazismo para reclamar de uma operação da Polícia Federal contra bolsonariatas acusados de propagar fake news e ameaçar ministros do Supremo Tribunal Federal

Na ocasião, Weintraub disse que as investigações contra os bolsonaristas eram uma "Noite dos Cristais brasileira", em referência à onda de violência patrocinada pelo regime nazista contra judeus alemães em 9 de novembro de 1938. A declaração de Weintraub também provocou repúdio de entidades judaicas e até do consulado de Israel em São Paulo.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, fala durante audiência na Comissão de Educação do Senado Federal, em Brasília (DF) - Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
O ministro da Educação, Abraham Weintraub, fala durante audiência na Comissão de Educação do Senado Federal, em Brasília (DF) - Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Em outra ocasião, Weintraub disse falsamente em 2019 que os nazistas "inventaram a aspirina" numa publicação de mau gosto que sugeria que o educador Paulo Freire seria mais inútil que o nazismo. No entanto, a aspirina foi inventada décadas antes do nazismo e seu desenvolvimento contou com a participação de cientistas alemães de origem judaica.

Allan dos Santos, Eduaro Bolsonaro, Jair e o copo de leite

Em maio de 2020, o presidente tomou um copo de leite puro, durante uma transmissão ao vivo em seu perfil no Facebook. Pesquisadores associaram o gesto a uma prática de movimentos neonazistas americanos, que passaram a tomar leite branco como símbolo da supremacia branca. 

Pesquisadores associaram o gesto a uma prática de movimentos neonazistas americanos, que passaram a tomar leite branco como símbolo da supremacia branca (Foto: Reprodução)
Pesquisadores associaram o gesto a uma prática de movimentos neonazistas americanos, que passaram a tomar leite branco como símbolo da supremacia branca (Foto: Reprodução)

Um dia depois, Eduardo Bolsonaro ironizou as críticas recebidas pelo pai e postou uma foto dos atores Lázaro Ramos e Thais Araújo bebendo leite puro. O blogueiro Allan dos Santos, linha auxiliar do bolsonarismo nas redes sociais, repetiu o gesto em uma transmissão ao vivo do seu canal.

Sara Winter

A militante bolsonarista Sara Geromini passou a usar o sobrenome “Winter” para homenagear Sarah Winter, uma mulher inglesa que se tornou espiã nazista e integrante da União Britânica de Fascistas.

Em suas casas, a Winter original ostentava a bandeira nazista e nunca foi punida pelos bárbaros crimes cometidos pelos nazistas, ao contrário de outros ingleses que se vincularam ao governo de Hitler.

Sara Winter afirma que recebeu treinamento na Ucrânia (Reprodução/Facebook)
Sara Winter afirma que recebeu treinamento na Ucrânia (Reprodução/Facebook)

Sara organizou um grupo chamado “300 do Brasil”, que tinha como objetivo “combater a corrupção e a esquerda no mundo”. O grupo manteve, durante o mês de maio de 2020, um acampamento na Esplanada dos Ministérios. Nas marchas do movimento, eles carregavam tochas e se vestiam de branco. A estética se assemelhava à Ku Klux Klan (KKK), movimento de supremacistas brancos americanos.

Paraquedistas

Em maio de 2020, ex-companheiros de armas de Bolsonaro, quando o presidente era paraquedista das Forças Armadas, foram até o Palácio do Planalto saudar o mandatário. Porém, no momento do cumprimento, estenderam o braço direito para o alto e gritaram “Bolsonaro somos nós”.

O episódio foi encarado por especialistas como uma alusão ao nazismo. Entre eles, Lilia Moritz Schwarcz, historiadora, doutora em antropologia e professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Em um artigo publicado na Revista Zum , ela faz a relação entre o gesto e o movimento alemão.

Lilia Moritz Schwarcz, historiadora, doutora em antropologia e professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP faz a relação entre o gesto e o movimento alemão (Foto: Reprodução)
Lilia Moritz Schwarcz, historiadora, doutora em antropologia e professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP faz a relação entre o gesto e o movimento alemão (Foto: Reprodução)

“Paraquedistas, vestidos com roupas militares, entoam uma variação de Heil Hitler a partir do grito de ‘Bolsonaro somos nós’, selando uma espécie de compromisso coletivo, na base do ‘nós comum’, em torno dos ideais do presidente. No caso, porém, o gesto não evoca um ritual religioso, mas reforça um compromisso bélico numa nação que não está em guerra. Nesse sentido, indica uma possível guerra no horizonte político, e sinaliza lealdade ao dirigente”, explicou Shwarcz.