Olavo de Carvalho: as mentiras e distorções do guru bolsonarista

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  • Olavo de Carvalho: as mentiras e distorções difundidas pelo guru do bolsonarismo

  • Autoproclamado filósofo difundiu ideias que formaram uma geração de extremistas radicais

  • Ex-astrólogo foi um dos principais promotores de teorias conspiratórias no Brasil

Olavo de Carvalho, considerado o guru ideológico do presidente Jair Bolsonaro (PL), morreu na última segunda-feira (24/01) aos 74 anos. O autoproclamado filósofo difundiu ideias que formaram uma geração de extremistas radicais e foi um dos principais promotores do negacionismo no Brasil.

Carvalho também é um dos responsáveis pela divulgação de teorias conspiratórias. Seu pensamento baseava-se em ideias de ultradireitistas dos Estados Unidos ligados a Lyndon LaRouche no início dos anos 1990 e que propaga elementos de velhas teorias conspiratórias antissemitas.

Um dos pilares de seus pensamentos era a teoria conspiratória do "marxismo cultural". De acordo com a ideia distorcida, intelectuais da Escola de Frankfurt elaboraram um plano para uma suposta "guerra cultural" para conquistar a hegemonia no campo das ideias com o objetivo de minar a cultura ocidental – um plano que teria sido mantido pela esquerda mesmo após o fim da Guerra Fria.

Autoproclamado filósofo, Olavo de Carvalho difundiu ideias que formaram uma geração de extremistas radicais no Brasil (Foto: YouTube/Reprodução)
Autoproclamado filósofo, Olavo de Carvalho difundiu ideias que formaram uma geração de extremistas radicais no Brasil (Foto: YouTube/Reprodução)

Carvalho importou essas teorias conspiratórias para a realidade brasileira. Ele afirmava que o Foro de São Paulo, organização que promove encontros entre partidos da esquerda da América Latina, era o principal responsável pela implantação do comunismo no continente.

Durante a pandemia de Covid-19, o ex-astrólogo foi um crítico assíduo das medidas sanitárias recomendadas pelos órgãos de saúde mundiais. Além disso, minimizou mortes ocasionadas pelo vírus e questionou a eficácia dos imunizantes desenvolvidos para combater a doença. O escritor chegou a afirmar que o Brasil não tinha nenhuma morte por Covid-19.

Olavo de Carvalho havia sido diagnosticado com Covid-19 oito dias antes de falecer. Heloísa de Carvalho, filha de Carvalho que rompeu relações com o pai, afirmou em uma rede social que ele morreu em decorrência da Covid-19. O guru bolsonarista questionava a letalidade do coronavírus, que chamava de "mocoronga vírus".

As fake news de Olavo de Carvalho

O escritor e ideólogo da direita brasileira colecionava declarações públicas questionando a letalidade do coronavírus. O guru do bolsonarismo disse que a Covid-19 era “historinha de terror”.

Nas redes sociais, centenas de pessoas passaram a resgatar publicações nas quais o escritor criticava medidas de isolamento social, o uso de máscaras, duvidava dos riscos do coronavírus e compartilhava teorias conspiratórias.

Relembre os momentos em que Carvalho compartilhou informações falsas e teorias conspiratórias:

"O medo de um suposto vírus mortífero não passa de historinha de terror para acovardar a população e fazê-la aceitar a escravidão como um presente de Papai Noel", escreveu Olavo em sua conta de Twitter em maio de 2020.

A afirmação é falsa. De acordo com os dados do Our World in Data, organizado pela Universidade de Oxford, até o momento foram registrados 366 milhões de casos e 5,64 milhões de mortes ao redor do mundo de Covid-19.

Segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em março de 2021, a origem do vírus ainda não foi descoberta, existem algumas hipóteses. O documento é resultado do esforço de 34 especialistas que trabalharam em conjunto para identificar as origens do vírus. A missão incluiu uma viagem à cidade de Wuhan, na China, e visitas em hospitais, laboratórios e mercados de 14 de janeiro a 10 de fevereiro de 2021.

O documento de 120 páginas – assinado por epidemiologistas, veterinários, cientistas de dados, especialistas de laboratório e insegurança alimentar – analisou quatro cenários possíveis para o surgimento do vírus e com base nas evidências coletadas durante este período concluiu:

  • A principal probabilidade é que o vírus tenha sido transmitido de um bicho para seres humanos, esse animal poderia ser o morcego;

  • O documento classifica como “muito provável” que a transmissão tenha se dado por meio de um animal intermediário, que pegou a doença de um animal infectado e passou para o homem;

  • É “possível” que a transmissão tenha sido feita por alimentos ou embalagens de produtos contaminados;

  • É "improvável" que o vírus tenha surgido devido a um incidente no laboratório de Wuhan.

A pesquisa, no entanto, ainda deixa em aberto os principais questionamentos a respeito do surgimento do vírus e sua transmissão para os humanos. “Este relatório é um começo muito importante, mas não é o fim", disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom.

“ A Pepsi está usando células de fetos abortados como adoçante”, declarou Olavo de Carvalho.

A afirmação é falsa. Em 2 de dezembro de 2019, a empresa fez um pronunciamento sobre a mentira compartilhada nas redes sociais. A multinacional afirmou que não realiza ou financia pesquisas feitas com tecido humano ou culturas de células derivadas de embriões.

“Como sempre, a PepsiCo absolutamente não conduz ou financia pesquisas que utilizem qualquer tecido humano ou linhagem de células derivadas de embriões ou fetos”, disse a empresa.

O boato começou a circular em 2011 quando o grupo contra o aborto Children of God for Life revelou a existência de um contrato entre a PepsiCo e a Senomyx. A empresa de biotecnologia, localizada em San Diego, nos Estados Unidos, desenvolve novos sabores e fragrâncias para companhias de alimentos, bebidas, perfumes e produtos de limpeza. A entidade pró-vida chegou a mobilizar um boicote aos produtos da Pepsi, mas desistiu da ideia ao receber uma resposta oficial da companhia, similar ao texto compartilhado no Twitter, que garantiu não pesquisar ou financiar estudos que utilizam tecidos humanos ou culturas de células derivadas de embriões ou fetos

"O Brasil não quer vacina chinesa obrigatória, o STF quer. Quem manda mais? O Brasil não quer ideologia de gênero nas escolas infantis. O STF quer. Quem manda mais? O BRASIL NÃO MANDA NADA", escreveu em 27 de outubro de 2020, no Facebook.

A afirmação é falsa. Na ocasião, Carvalho fazia insinuações sobre a Coronavac, imunizante desenvolvido pelo Butantan no Brasil em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. A vacina teve eficácia e segurança comprovadas por meio de uma série de etapas rigorosas de ensaios clínicos com milhares de voluntários. Esses dados foram referendados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável pela avaliação e aprovação de medicamentos no Brasil. Para um imunizante ser liberado no Brasil o órgão analisa como ele foi produzido, os estudos e embasamentos técnicos que concluíram pela segurança e eficácia do medicamento. Após a liberação do uso em seres humanos, a Anvisa também faz o monitoramento para possíveis eventos adversos.

“No Brasil, xingado de genocida é o presidente que, liberando a cloroquina, salvou milhares de vidas. Esse país é o paraíso da ignorância", escreveu Olavo em 15 de julho de 2020.

A afirmação é falsa. Na ocasião, Olavo de Carvalho defendia a liberação da hidroxicloroquina para o tratamento contra a Covid-19. No entanto, o medicamento é comprovadamente ineficaz no combate ao coronavírus. O chamado “tratamento precoce” com hidroxicloroquina e ivermectina – foi defendido por grupos antivacina. Contudo, estudos mostraram que a substância não evita a infecção pelo novo coronavírus e tampouco atenua os sintomas da doença.

Um medicamento é considerado eficaz após passar por estudos clínicos e metodológicos que atestem seus benefícios e riscos. Estudo publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2021 sobre medicamentos preventivos “faz uma

recomendação forte contra o uso de hidroxicloroquina”, após a análise de seis estudos.

“Eles [a classe política] nem sabiam do negócio da movimentação militar”, disse Olavo em uma uma entrevista ao programa Conversa com Bial, do jornalista Pedro Bial, na TV Globo, realizada em 2019.

A afirmação é falsa. De acordo com o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas (CPDOC-FGV), O governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, foi um dos principais articuladores do golpe militar. Ou seja, não é verdade que a classe política brasileira não sabia da movimentação dos militares com o objetivo de tomar o poder de forma antidemocrática.

De acordo com o CPDOC-FGV, desde 1963 o governador mineiro se opunha a João Goulart. Para isso, fazia contatos frequentes com militares que estavam descontentes com os rumos do governo. O afastamento do presidente João Goulart pelo Congresso ocorreu depois de uma série de ações tomadas pelos militares em 31 de março e 1º de abril de 1964.

“Para mim essa questão de Terra plana é como qualquer outra: ninguém tem certeza de p* nenhuma. As pessoas sensatas se divertem com a investigação, os neuróticos se ofendem com a pergunta”, disse Olavo de Carvalho em 17 de setembro de 2019.

A concepção falsa de que a Terra é plana é compartilhada por negacionistas científicos. Adeptos da teoria conspiratória, afirmam que continentes seriam dispostos em torno do Pólo Norte e todo o Hemisfério Sul estaria espalhado pela circunferência externa de um plano circular. A ideia era difundida por filósofos pré-socráticos. No entanto, Isaac Newton comprovou por meio da força gravitacional que a Terra é uma esfera. De acordo com a lei de Newton, a gravidade atrai todos os corpos em direção ao centro do planeta, onde o seu campo magnético está localizado. Essa força também é a responsável por nos manter sobre o chão.

“ A distribuição de kits gays continua em alta no Brasil”, declarou Olavo de Carvalho.

O chamado “kit gay”, nome pejorativo usado para se referir ao projeto “Escola Sem Homofobia”, é difundido por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Encomendado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados ao Ministério da Educação (MEC) o projeto fazia parte do programa Brasil Sem Homofobia. Criado em 2004, o programa foi elaborado para combater o preconceito e a violência contra a população LGBTQIA+. O material - composto por um caderno com orientações para professores, boletins e vídeos - foi desenvolvido exclusivamente para a formação de educadores, e não tinha previsão de distribuição para alunos. O projeto foi vetado pela presidente Dilma Rousseff (PT) em 2011.

Em diversos momentos, Bolsonaro já se referiu ao “kit” e exibiu o livro Aparelho Sexual e Cia dando a entender que a obra fazia parte do projeto Escola Sem Homofobia. Editado pela Companhia das Letras, a publicação é indicada para adolescentes e de forma pedagógica informa sobre sexualidade. O livro nunca foi adotado pelo Ministério da Educação (MEC) e, em 2016, a pasta já havia negado por meio de nota que tivesse adquirido exemplares desse título.

“Quem compôs as canções deles [The Beatles] foi Theodor Adorno”, declarou Olavo de Carvalho.

A afirmação é falsa. No registro Carvalho sugere que as canções dos The Beatles foram compostas pelo filósofo alemão Theodor Adorno (1903-1969), um dos principais nomes da Escola de Frankfurt. Segundo a hipótese do autor de "O imbecil coletivo", os The Beatles eram "semi-analfabetos em música" e lhe parecia verossímil que Adorno tenha composto com o grupo britânico.

Na verdade, Adorno era um grande crítico das culturas de massa e escreveu textos sobre como a indústria da música estava se tornando uma mercadoria e perdendo seu valor artístico. Em uma entrevista, o filósofo criticou a banda britânica: "o que essas pessoas têm a oferecer é algo retardado em termos de seu próprio conteúdo objetivo", afirmou.

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