De olho no carnaval de rua, foliões acima dos 60 anos começam a tirar a poeira dos instrumentos

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RIO - “Eu tenho tanta alegria, adiada/ Abafada, quem dera gritar/ Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”. Cinquenta anos depois do lançamento desses versos de Chico Buarque, de 1972, o Rio — se a pandemia deixar — promete ser palco da maior farra momesca de todos os tempos. Para os foliões e folionas de coração que foram mais atingidos pelas regras de isolamento e distanciamento, ou seja, aqueles com mais de 60 anos, não há mais completa tradução do que essa canção.

Aos 68 anos, Lia Palka, batuqueira de diferentes blocos, confessa estar ansiosa. Figurinha fácil em sambas pela cidade — “o Samba do Trabalhador é o meu crush” —, ela ensaia (de máscara) com o seu chocalho nas noites de quarta no Circo Voador junto da bateria do Quizomba. Lia seguiu à risca todas as regras de proteção contra a Covid, mas agora recupera o ritmo de antes e não vê a hora de comemorar os 69 anos caindo na farra, já que o aniversário, no dia 25 de fevereiro, será desta vez justamente na sexta, véspera de carnaval.

— Eu sempre brinco com quem acha que sou uma pessoa muito séria que, no carnaval, incorporo alguma coisa: quando solto a franga é difícil colocá-la de volta na gaiola — diverte-se Lia, editora de mídias sociais numa empresa americana e moradora de Copacabana.

Até festa junina

Viúva e sem filhos, ela nasceu em Londrina, no Paraná, viveu com os pais em São Paulo e, em 1970, chegou ao Rio. Mas bem antes disso foi mordida pelo bichinho do carnaval. Torcedora do Salgueiro, teve sua fase de desfilar no Sambódromo. Mas, nos últimos anos, mergulhou de vez nos blocos: no ano passado, tocou em quase dez cortejos pela cidade. Aliás, o carnaval para ela já começou:

— Há uns cinco anos, vi que as pessoas que tocavam ficavam dentro da corda. Esse foi meu primeiro incentivo para começar a tocar. Outro é o desafio de, na minha idade, aprender um instrumento. Mas a minha principal motivação é não precisar esperar fevereiro: quem toca em bloco tem carnaval o ano inteiro! — diz ela, lembrando que os blocos até festa junina fazem. — Agora estou menos receosa de participar dos ensaios, porque já estou terceirizada (com a 3ª dose da vacina).

Após um 2021 sem festa, a carioca Ana Lad, de 61 anos, tira a poeira do seu tamborim. Ex-bailarina, mãe de três e avó de dois, ela sempre vibrou com a folia: nos últimos tempos, passou a tocar em quase todos os blocos de Laranjeiras, onde mora, como Xupa mas não baba e Quem num guenta bebe água. Desde 2017, através do Terreirada Cearense, é apaixonada pelo xequerê (cabaça usada como uma espécie de chocalho), com o qual dará pinta em 2022 no Caramuela, bloco de forró.

— Falo com meus filhos que já tenho 61 anos e tomei as três vacinas, por ser profissional de educação física — diz ela, que já frequenta ensaios, ponderando: — Ainda estou receosa. Na minha cabeça, o deadline é o réveillon, quando haverá muita gente de fora. Vai ser tipo um teste: se depois de 15 de janeiro continuar tudo bem, vou para o carnaval de rua.

Presidente do bloco Larga a Onça, Alfredo!, Manoel Jorge, de 63 anos, tem rodado botecos da cidade cantando com amigos numa roda de samba de raiz alternativa. Esse movimento, ele começou há pouco mais de um mês. Sobre o carnaval de rua, de certo apenas a sua participação no Larga a Onça, que reúne uma turma acima dos 50 em Laranjeiras, no domingo anterior à folia:

—Não estou super animado para o carnaval, mas também não acho que será uma catástrofe universal, uma desgraça homérica. Pelo fato de ter ficado afastado desse movimento, ainda não peguei aquele vírus da folia. Até porque a gente do bloco se dispersou nesse tempo de pandemia — relata o aposentado, morador do Bairro de Fátima.

Nascida em Salvador, mas carioca e foliona de corpo e alma, Jana Maria Brito Silva, de 62 anos, só se liberou até agora para os ensaios do Quizomba no Circo. Profissional de educação física e personal de idosos — seus alunos vão dos 60 aos 90 anos —, ela prefere ir devagar.

— Tenho segurado a onda, não tenho ido para a noite, por causa do meu trabalho. Mas o Circo é um lugar aberto, e estão fazendo falta esse convívio com outras pessoas e essa batucada — comenta Jana, que mora em Botafogo com o marido e diz ter “21 anos de carnaval no Rio”. — Ficar um ano sem carnaval foi muito importante pelo que passamos. Não tínhamos vacina. Essa aproximação dá uma animada, mas também preocupa. Entrar na muvuca como eu fazia não rola mais, não.

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