Olimpíada de Matemática premia com medalha de ouro mais de 570 alunos de escolas públicas e privadas do país

SALVADOR — Após três longos anos de espera devido à pandemia, os alunos medalhistas da 15ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), realizada em 2019, finalmente receberam seus prêmios em evento realizado na tarde desta segunda-feira (7), em Salvador, na Bahia. Entre os mais de 18 milhões de jovens, de 99,71% dos municípios brasileiros, 579 tiveram um desempenho espetacular e conquistaram a tão sonhada medalha de ouro. A cerimônia é promovida pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).

Entre o total de premiados, estão presentes no evento 443 estudantes. Além da distribuição das medalhas, a Obmep consagrou dez “multimedalhistas” — alunos que foram destaque em quatro ou cinco edições da prova — e três meninas com as maiores notas em 2019, com o troféu Meninas Olímpicas. O intuito é ressaltar o desempenho feminino e incentivar cada vez mais a participação de mulheres na matemática e na ciência como um todo. As vencedoras desta edição foram: Jessica Guedes (nível 1), Bianca Araújo (nível 2) e Daniela Fernanda Giraldo (nível 3).

Todos os "estudantes de ouro" são convidados para participar do Programa de Iniciação Científica Jr. (PIC), que oferece aulas avançadas de matemática e uma bolsa de R$ 100 do CNPq. A partir do ano que vem, a Olimpíada de Matemática contará ainda com a bolsa Tech Behring, destinada a ex-medalhistas admitidos em universidades na área de tecnologia. Ao todo, serão 25 bolsas de R$ 900 oferecidas pela Fundação Behring.

Nesta edição de 2019, a Obmep distribuiu também 1.746 medalhas de prata, 5.183 medalhas de bronze e 48.163 menções honrosas.

No discurso de abertura, o diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana, comemorou a volta da cerimônia nacional da OBMEP, após dois anos de pandemia, e destacou os planos do instituto para o futuro, como a criação de um curso de graduação.

— O IMPA vai lançar em 2024 a sua primeira graduação que será dentro do centro de inovação no Rio de Janeiro. Será um curso de bacharelado com ênfase em matemática, computação, ciência de dados e física, visando capacitar profissionais de altíssimo nível. Um dos fatores de admissão são os resultados nas olimpíadas do conhecimento, especialmente a OBMEP — contou Viana.

Ao GLOBO, o diretor-geral do IMPA disse que esta cerimônia é ainda mais especial não apenas pela superação do período crítico da Covid-19, mas também porque após três anos é possível ver a evolução dos estudantes na educação. Muitos deles já estão cursando a faculdade.

— Esse ano tem um sabor especial por conta da pandemia. A Obmep é uma prova feita majoritariamente por crianças e jovens de famílias carentes, muitos participam de programas do governo federal. Ver muitos deles hoje crescendo profissionalmente é lindo. Muitos em cursos de matemática, engenharia, direito e até medicina — vibrou Viana, que hoje também está presente no evento como pai de um dos medalhistas.

Da Obmep para a universidade

Morador da favela do Timbó, em João Pessoa, e destaque da Obmep cinco vezes, com quatro medalhas de ouro e uma de bronze, o estudante Leonardo Lima, de 19 anos, é um dos exemplos do poder da educação. Aos 10 anos ele realizou a primeira prova e, desde então, se empenhou nos estudos para mostrar que “na periferia também tem doutor”, em suas palavras. Hoje, ele cursa matemática na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e compõe rimas de hip-hop, o qual diz ter tudo a ver com os números.

— Na primeira vez que eu fiz a prova, nem sabia do que se tratava. Mas depois que passei para a segunda fase fui procurar e vi que era algo que tinha potencial para mudar minha vida. Desde novo eu sempre quis muito transformar minha realidade. Sem a Olimpíada eu não estaria na faculdade, e sem a matemática, nenhum dos meus versos faria sentido. Desde as rimas até a construção das estrofes, tudo é matemática — afirma o jovem. — Eu estou realmente muito feliz por estar aqui hoje, pela minha história e por ser de onde eu sou — complementa Leonardo, ressaltando que a Obmep o proporcionou ainda sua primeira viagem de avião neste domingo (6), para Salvador.

Aos 65 anos, o artista plástico Félix Pedemonte também é um dos medalhistas de ouro. Estudante do Ensino de Jovens e Adultos (EJA), ele realizou o sonho de ingressar na graduação de matemática em setembro deste ano.

— Eu acho muito importante ter esse estímulo na educação. Eu hoje sou o mais velho aqui no evento e ver esses jovens todos aqui me dá esperança — disse Félix.

15 anos da Olimpíada

A solenidade desta segunda-feira marca os 15 anos da Obmep e terá uma programação especial com homenagens a personalidades importantes para a história da competição.

Uma das homenageadas é a deputada federal Tabata Amaral (PSB), que teve sua vida transformada pela olimpíada. A lista de 15 homenageados inclui ainda Elizabeth Jaskow Mac Nicol, superintendente da B3 Social, Wagner Victer, ex-secretário de Educação do Rio, e um representante do Instituto TIM.

Conhecida por alunos do ensino fundamental e médio por suas questões um tanto quanto desafiadoras, mas que estimulam o raciocínio lógico, a Obmep já premiou mais de 680 mil estudantes de todo o Brasil. Realizada todos os anos, desde 2005, a maior competição científica do país é aplicada majoritariamente por escolas públicas, mas também conta com a participação de colégios privados.