Olimpíada: a prática de exercício é bem-vinda desde a primeira infância, mas é importante tomar alguns cuidados

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Há uma semana, o Brasil vibra assistindo aos Jogos Olímpicos de Tóquio e torce calorosamente cada vez que aparece a bandeira do país na telinha, numa competição da Olimpíada. Quando um nome conhecido nosso sobe ao pódio então... Uma das vitórias mais celebradas foi a de Rayssa Leal, a Fadinha, de apenas 13 anos, medalha de prata no skate, na categoria street feminino. Com a mesma idade, a japonesa Momiji Nishiya foi ouro na competição. Dois ótimos exemplos de que é de cedo que se começa a praticar esportes. Mas como escolher a atividade? E como fazer com que a criança curta aquilo e a rotina não vire um tormento? Para responder a essas e outras perguntas, conversamos com dois especialistas em saúde infantil.

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Segundo o pediatra e professor da UFF André Ricardo Araújo da Silva, do grupo Prontobaby, geralmente não há restrição para a prática de esportes na infância. Mas ele alerta:

— O esporte na fase pré-escolar deve ser praticado pelas crianças com caráter mais lúdico e colaborativo. Auxilia no desenvolvimento do espírito de coletividade em detrimento das preferências individuais (em esportes coletivos) e na disciplina, na obediência a regras, contribuindo para o fortalecimento do caráter. Já atividades esportivas que demandam uso da força muscular, como halterofilismo por exemplo, devem ser evitadas até que o crescimento esquelético esteja maduro o suficiente para suportar carga.

A psicóloga Talitha Nobre, também do Grupo Prontobaby, analisa:

— A prática de esporte deve ser uma possibilidade de qualidade de vida. Ela é importante e traz conceitos fundamentais para a formação da criança: cidadania, trabalho em equipe... Mas, quando existe o imperativo da vitória, pode gerar frustração. Se a gente parar para pensar, não só no esporte, mas na educação de uma maneira geral, a nossa cultura nos ensina desde pequenos que não basta ser bom, a gente tem que ser o melhor. Isso, desde cedo, vai criando na criança uma ideia de competitividade muito grande, de que não pode perder, de que tem que ganhar, e a gente tem uma tolerância pequena para perder. Os pais, os primeiros incentivadores, precisam sempre dialogar com a criança. É importante saber como ela encara aquilo: é um desejo dela praticar aquela atividade ou dos pais? Porque às vezes a criança vive o desejo dos pais, que se realizam ali, e não o dela.

A trajetória das duas jovens skatistas pode ser curta, mas não foi fácil. Rayssa começou sobre as quatro rodas aos 7. Nishiya, aos 5. Até agora, ambas têm se divertido nas provas, como pôde ser visto na Olimpíada. Mas, nesta semana, uma outra atleta chamou atenção ao desistir de competir, alegando que precisa cuidar da saúde mental. Trata-se de Simone Biles, de 24 anos, um fenômeno na ginástica, considerada a melhor do mundo atualmente na modalidade e apontada como o maior nome dos Jogos de Tóquio. Sentindo-se pressionada e estressada, anteontem, Biles ficou fora da disputa por equipes. Ontem, ela se retirou da final individual geral dos Jogos. Sobre essa pressão em cima de resultados, Talitha Nobre diz:

— Se a criança chega em casa com uma nota 10 em Português e 5 em Matemática, o que o pai faz? Coloca num curso para aprender Matemática. Mas não valoriza o 10 que ele tirou em Português. Desde pequeno, então, a gente tem uma cultura de valorizar aquilo que a gente tem de pior, e não valorizar o que a gente tem de melhor. O resultado disso é o adolescente que chega a uma fase onde precisa decidir por uma profissão e não tem a menor noção do que escolher. Cada vez mais cedo há uma convocação desses adolescentes sobre o que eles vão querer fazer e normalmente não há um preparo psíquico. Isso, na educação. Mas existe uma pressão em tudo! Você quer que seu filho tire 10 em tudo, mas isso é impossível. Ninguém é bom em tudo. A gente tem mais habilidade numa coisa, menos em outra, mas a gente é criado numa sociedade onde a gente precisa ser bom em tudo. Nos esportes, cada vez mais cedo, a gente vê crianças sendo incentivadas pelos pais a jogar futebol para ser um Ronaldinho, e muitas vezes você nem sabe se é um desejo da criança.

A atividade mais procurada

O pediatra André Ricardo explica: “A natação simula um ambiente no qual o bebê estava no ambiente intrauterino e por este motivo tem sido escolhido por muitos pais como a primeira atividade esportiva do neném. Além disso, a atividade não possui grandes impactos físicos, o que pode facilitar o gosto e prática pelo esporte. A natação pode ser praticada em qualquer época do ano, de acordo com a tolerância e disponibilidade de pais e crianças”.

Até no inverno?

“Sim, a natação e qualquer esporte ajudam na capacitação física da criança como um todo, incluindo o sistema respiratório, e não há problema em começar a atividade no inverno. No entanto, dependendo da região, o frio pode comprometer a adesão ao esporte”, responde o pediatra.

Piscina aberta ou fechada?

Mesmo nas temperaturas mais baixas, o ideal é sempre buscar piscinas arejadas, abertas. Esqueça a ideia de procurar um lugar fechado para fugir da friagem. “As piscinas de academia são cloradas, o que por si já cria um ambiente hostil para o desenvolvimento de vírus como o SARS-COV-2, causador da Covid-19. No entanto, o tempo frio por si só não é causador de infecções virais e sim o contato com alguma pessoa infectada com algum vírus respiratório. Como no inverno há uma tendência das pessoas ficarem em ambientes fechados, o risco seria maior nesta época, sendo ideal que haja algum tipo de circulação de ar, mesmo no inverno. Há também ainda a sazonalidade dos vírus respiratórios, ou seja, em determinada época do ano há maior circulação de vírus respiratórios, sendo esse período mais comum no Rio de Janeiro no fim do outono”, diz o pediatra.

Outras possibilidades

“Na fase pré-escolar, esportes mais lúdicos e coletivos como natação, corrida e futebol podem ser praticados por crianças de ambos os sexos. A partir da idade escolar, esportes que requeiram uma maior coordenação motora, como tênis, voleibol, badminton, basquete e handebol, podem ser praticados inicialmente também de forma lúdica para identificar as crianças que podem ser direcionadas para as competições”, indica o Dr. André Ricardo.

Basquete e vôlei para crescer

Muitos pais buscam o basquete e o vôlei para ajudar no crescimento das crianças. Sobre isso, Dr. Andre explica: “Na realidade, qualquer atividade física, além do vôlei e do basquete, contribui para o desenvolvimento musculoesquelético da criança e o crescimento. O que acontece também é que para um crescimento adequado são necessários uma alimentação equilibrada, uma rotina adequada de sono e fatores genéticos”.

E se a criança não estiver curtindo?

Natação, futebol, basquete... São muitas as possibilidades. Mas e se a criança não estiver curtindo a atividade, será que vale insistir, já que esportes são sempre bem-vindos? Como agir? “O ideal é que jamais a criança faça o esporte para compensar uma frustação pessoal dos pais que não puderam praticar determinado esporte quando eram crianças ou jovens, pois isso pode gerar um descontentamento na criança e, em alguns casos, criar uma aversão a qualquer esporte, o que é muito ruim para o desenvolvimento global. Caso a criança não goste de determinado esporte, é interessante apresentá-la a diferentes modalidades de forma que ela possa ser capaz de identificar alguma afinidade e praticar de forma prazerosa”, responde o pediatra.

Acompanhamento psicológico

Talitha defende que o ideal é a criança ter um acompanhamento psicológico, principalmente se for atleta, que compete: “Faz parte da vida perder e ganhar. Você perde pra alguém ganhar, e alguém perde pra você ganhar. E isso causa um sentimento de inadequação, que gera muito estresse, que pode desencadear sintomas psíquicos na criança. Então, os pais precisam ficar atentos aos sintomas: isolamento, perda do interesse por atividades que antes geravam prazer, crises de ansiedade, perda de apetite, mudança na rotina do sono... Sinais de que as crianças podem estar vivendo um estresse emocional muito grande”.

Diversão em primeiro lugar

Talitha aproveita para deixar bem claro: “Fazer esporte na infância deve ser algo divertido, e não fonte de estresse. Muitas vezes, os adultos adoecem pela pressão que sofre no trabalho, imagina a criança! Criança precisa brincar e levar a vida com leveza”.

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