Olimpíadas: ciência ajuda atletas mais velhos a desafiarem o corpo para continuar em alto nível

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Logo após a Olimpíada do Rio, em 2016, Geisa Coutinho, especialista nos 400m rasos, tomou uma decisão que supunha ser inabalável. Aos 37 anos, ia largar o atletismo para correr atrás de outro projeto de vida: a maternidade. Ganhou três meses de férias do treinador Carlos Alberto Cavalheiro para pensar melhor. Quando se reencontraram, ele a levou para uma pista — e lá convenceu a atleta de que seu corpo ainda aguentava mais um ciclo olímpico.

A poucos dias dos Jogos de Tóquio, Geisa estará lá como uma das reservas da equipe de atletismo. A atleta estará a postos para disputar sua quarta Olimpíada, aos 41 anos, caso haja algum problema entre as titulares.

— Os colegas brincam que entra e sai geração e eu estou ali. Eles não acreditam quando digo que amo acordar às 5h da manhã e às 6h já estou correndo — conta Geisa.

Em diferentes esportes tomados por jovens no auge de sua forma, homens e mulheres de 35 anos ou até acima têm conseguido estender a carreira no mais alto nível. São vários fatores que concorrem para que o mundo ainda possa aplaudir o talento do jogador de futebol Cristiano Ronaldo (36 anos), o astro do basquete LeBron James (36), a lenda do tênis Roger Federer (39), o ícone do futebol americano Tom Brady (43), a jogadora de futebol Formiga (43) ou o iatista multicampeão Robert Scheidt (48). Profissionalização do esporte, avanços na ciência, novas tecnologias e desenvolvimento psicológico são alguns dos elementos.

Nem tudo é igual

Aos 39 anos, o tenista brasileiro Bruno Soares se prepara para mais uma Olimpíada, jogando em dupla com Marcelo Melo, de 37 anos. Em duas décadas de circuito profissional, ele acompanhou de perto a evolução da medicina e da tecnologia do esporte e, sobretudo, aprendeu a compreender, com a ajuda de comissões técnicas, os limites do próprio corpo, o que lhe permitiu evitar muitas lesões. No tênis, a repetição de movimentos é crucial para o aperfeiçoamento da técnica, entretanto, isso cobra um alto preço das articulações.

— No início da carreira, eu só procurava o fisioterapeuta quando me machucava. Naquela época, quase ninguém viajava com o fisioterapeuta. Hoje, quase ninguém viaja sem um. Aos 25, eu estava zerado no dia seguinte a um jogo duro. Atualmente, preciso de uma boa recuperação para não sentir tanto — relata o atleta.

O sérvio Novak Djokovic, de 34 anos, número 1 do ranking mundial, é outro que estará nos Jogos de Tóquio, que começam a partir da semana que vem. Tênis, raquetes, calções, pisos e mais uma gama de materiais desenvolvidos especificamente para os atletas contribuem igualmente para reduzir o risco de lesões, beneficiando os de idade mais avançada.

Entre jogadores de futebol e atletas de velocidade, um dos métodos mais disseminados tem sido a eletroestimulação muscular, descoberta ainda nos anos 1970. Conforme explica o fisioterapeuta Alex Evangelista, que trabalhou em clubes cariocas como Vasco e Botafogo, as fibras musculares são divididas em três tipos: baixa velocidade (para andar), intermediária e alta (para correr).

— À medida que o corpo envelhece, todas as pessoas perdem a fibra de velocidade e se torna mais difícil ganhar massa muscular. Para um atleta conseguir mantê-la é necessário ativá-la regularmente com treinamento. O inconveniente: o risco de lesão aumenta.

Evangelista usa o exemplo de Cristiano Ronaldo para ressaltar a necessidade do equilíbrio. O astro português arrebatou três dos seus cinco títulos de melhor futebolista após os 29 anos. Este mês, ele foi o artilheiro da Eurocopa com cinco gols por Portugal.

No Brasil, também há casos de jogadores que empilham taças conquistadas depois dos 35 anos, como o volante Diego Ribas e o lateral-esquerdo Filipe Luís, ambos do Flamengo. Dentro do clube, ambos seguem treinamentos individualizados segundo o mapa físico e biológico de cada um. O lateral Daniel Alves, do São Paulo, é outro fenômeno de longevidade, tendo conquistado seu 41º troféu na carreira aos 38 anos. Praticamente metade deles (19) foram erguidos a partir dos 30 anos.

O psicólogo Victor Cavallari, especialista em psicologia do esporte, aponta a motivação como o principal combustível para que atletas que já conquistaram o mundo não se cansem depois de mais de 20 anos de carreira. A resiliência é fundamental para superar os mesmos treinamentos todos os dias e as limitações do corpo. O talento não se sustenta sozinho.

— Federer, Nadal e Djokovic, por exemplo, já ganharam tudo. Um milhão a mais de dólares não fará diferença. Não é por isso que eles continuam nas quadras. Eles têm um aparato intrínseco de competitividade — analisa Cavallari, que atende no Núcleo Score, de Ribeirão Preto (SP).

Um outro aspecto favorece os atletas mais velhos. A experiência traz uma melhor atuação cognitiva, maior atenção, agilidade nas reações, decisões mais acertadas e controle da impulsividade. Cavallari participa no momento de um estudo vinculado à Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp) que avalia mais de 1.200 atletas brasileiros, de 12 a 60 anos, incluindo alguns esportistas do Time Brasil que estará em Tóquio, como a nadadora de maratona Ana Marcela Cunha. O resultado inicial já demonstra que o pico da “inteligência esportiva” se dá dos 30 aos 40 anos.

Intuitivamente, já era possível apontar algumas vantagens dos que têm “mais horas de voo”. Maratonistas tendem a ser mais velhos. O recordista queniano Eliud Kipchoge , de 36 anos, é outro que está na Olimpíada.

— São poucos os que sobem o Everest aos 20 anos — afirma o especialista em medicina do esporte Claudio Gil Araújo, diretor de Pesquisa e Educação da Clinimex, clínica do Rio de Janeiro. Araújo acrescenta que a evolução da ciência levou a importantes descobertas, como o fim do mito de que a frequência máxima cardíaca tinha um decréscimo a cada ano:

— Há casos de atletas mais velhos que têm consumo de oxigênio em nível mais satisfatório do que aos 15 anos.

Entre os medalhistas de Tóquio certamente haverá muitos trintões e quarentões.

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