Olimpíadas: por que o Japão não está mais vacinado?

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TOKYO, JAPAN - MAY 16: Soichiro Fujitaka #17 in action in the Men's semi-final match during the 3x3 Basketball Olympic test event at the Aomi Urban Sports Park on May 16, 2021 in Tokyo, Japan. (Photo by Kiyoshi Ota/Getty Images)
Evento teste do basquete 3x3 sem público no Japão (Kiyoshi Ota/Getty Images)

Os eventos esportivos estão voltando à normalidade em grande parte do mundo, mas as Olimpíadas são uma exceção infeliz.

No panorama dos Jogos de Tóquio, de um lado está o público japonês, majoritariamente não vacinado, preocupado com a COVID-19 e, de outro, estão os políticos que investiram muito no evento e não querem o cancelamento.

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Recentemente, os organizadores anunciaram que os eventos olímpicos em Tóquio e na maioria das cidades vizinhas não contarão com a presença do público. Seiko Hashimoto, presidente do Comitê Organizador de Tóquio, se referiu ao anúncio como uma "mensagem lamentável", mas insistiu que "para evitar a propagação [do vírus], foi a única decisão possível".

Os atletas não serão recebidos com grandes honrarias e não poderão ser acompanhados por pessoas queridas. Além de permanecer em quarentena quando chegarem ao país, terão que fazer testes de saliva frequentes e cumprir uma série de regras. Abraços, cumprimentos e apertos de mão não são recomendados, assim como aventurar-se além dos espaços de competição e de uma lista limitada de locais pré-aprovados.

Enquanto o Japão impõe essas restrições, outros países flexibilizam as regras de contenção da pandemia. Nos últimos dias, os espectadores lotaram o Coors Field para o All-Star Game da MLB, se reuniram no Estádio de Wembley para a final da Eurocopa 2020 e encheram as encostas do Mont Ventoux para ver a subida mais famosa do Tour de France.

O contraste evidencia os desdobramentos do grande atraso da campanha de vacinação japonesa. Enquanto a vacinação em massa desacelerou a propagação do vírus nos Estados Unidos e na Europa durante a primavera no Hemisfério Norte, cerca de apenas 3% dos cidadãos japoneses tinham recebido pelo menos uma dose até meados de maio.

As iniciativas para acelerar a vacinação antes das Olimpíadas impulsionaram consideravelmente essa porcentagem, mas o Japão ainda está muito atrasado em relação a outras nações desenvolvidas. Atualmente, pouco mais de 30% da população japonesa está parcialmente vacinada, de acordo com o Our World in Data, em comparação com 70% do Canadá, 68% do Reino Unido, 58% da Alemanha e 55% dos Estados Unidos (números do dia 15 de julho).

"Se o Japão tivesse iniciado a vacinação contra a COVID há alguns meses, seria possível conter a transmissão do vírus, e o público estaria liberado para comparecer aos Jogos", afirmou Kenji Shibuya, ex-membro da Organização Mundial de Saúde, hoje responsável por supervisionar a vacinação em Soma, no Japão. "Porém, agora o país está em estado de emergência, com baixa cobertura vacinal e em plena ressurgência da variante Delta".

Para entender por que o Japão demorou tanto para vacinar a população, mesmo com a aproximação das Olimpíadas, o Yahoo Esportes conversou com seis especialistas em saúde pública que moram no país ou têm amplo conhecimento sobre o assunto. As respostas retratam um sistema de vacinação afetado pela desconfiança da opinião pública, negligência política e infraestrutura inadequada.

A preocupação do Japão com as vacinas

A preocupação do Japão com os possíveis efeitos colaterais das vacinas já existe há décadas, muito antes da COVID-19.

No início da década de 1990, a versão da vacina combinada contra sarampo, caxumba e rubéola do Japão recebeu uma enxurrada de reclamações que a associavam a taxas inesperadamente altas de meningite asséptica e outras reações adversas. A resposta do governo japonês foi a interrupção do uso da vacina em 1993, ocasionando surtos das doenças. Até hoje, as vacinas combinadas não são recomendadas.

O escândalo abalou a confiança do público, alimentou o escrutínio da mídia quanto à segurança das vacinas e desencadeou uma avalanche de processos de indenização. Após uma decisão judicial responsabilizar o Japão por qualquer reação adversa provocada pelas vacinas, o governo se sentiu desencorajado a incentivar a imunização e inclinado a adotar uma abordagem mais cautelosa.

Em 1994, o Japão reduziu a abrangência do programa nacional de vacinação e determinou que as vacinas passariam a ser uma escolha individual em vez de obrigatórias. Kentaro Iwata, médico e especialista em doenças infecciosas da Universidade de Kobe, descreveu a política japonesa subsequente como "muito passiva" em relação ao desenvolvimento e à aprovação de novas vacinas para crianças, fazendo com que o país ficasse para trás nesse quesito.

Em 2013, a confiança do público nas vacinas caiu ainda mais em meio a relatos não comprovados da mídia japonesa sobre os efeitos colaterais neurológicos da vacina do papilomavírus humano (HPV). O Japão voltou atrás na recomendação da vacina, mesmo com a comprovação de segurança e eficácia na prevenção do câncer cervical em outros países.

De acordo com um estudo publicado no ano passado no The Lancet, a taxa de vacinação contra o HPV caiu de 70% para menos de 1% no país. Segundo as estimativas do estudo, se não forem implementadas mudanças, a crise da vacinação no Japão poderá resultar em aproximadamente 11 mil mortes evitáveis de câncer cervical nos próximos 50 anos.

"Este é o oitavo ano em que o governo japonês diz que disponibilizará vacinas a quem solicitar, mas não fará recomendações de forma proativa", comenta a antropologista Heidi Larson, diretora do Vaccine Confidence Project em Londres. "É uma abordagem ambígua que gera dúvidas e questionamentos. Se o governo não promove as vacinas, o público assume que tem algo errado com elas".

Em setembro de 2020, Heidi foi coautora de uma análise de tendências globais sobre a confiança em vacinas. O Japão foi classificado entre os países com a menor confiança em vacinas do mundo, de acordo com pesquisas realizadas em 149 países.

Esse era o cenário no Japão há um ano e meio, quando a COVID-19 cruzou as fronteiras da nação insular pela primeira vez. A ânsia pela vacina não era tão intensa lá quanto no restante do mundo, e o país também não estava suficientemente preparado para desenvolver uma.

O sucesso do Japão no controle das primeiras ondas da pandemia também levou à complacência. Nem o número de mortos no país, nem a taxa de infecção em 2020 se aproximaram dos Estados Unidos ou de outros países que foram bastante afetados.

"Inicialmente, o governo não compreendeu a importância das vacinas e não as incentivou", disse Kentaro. "Eles perceberam isso só depois, e agora a pressão está maior".

Profissionais de Saúde preparam doses da vacina da Moderna em um centro de vacinação em Tóquio no dia 30 de junho de 2021 (Carl Court/Getty Images)
Profissionais de Saúde preparam doses da vacina da Moderna em um centro de vacinação em Tóquio no dia 30 de junho de 2021 (Carl Court/Getty Images)

Debate sobre o ensaio clínico adicional do Japão

Em 2016, uma equipe de consultores do Ministério da Saúde japonês alertou que o país não estava preparado para um caso de pandemia. O relatório descreveu a indústria farmacêutica do Japão como não competitiva, questionou se ela seria capaz de desenvolver uma vacina para os cidadãos japoneses com eficiência e apontou os riscos de tentar obter vacinas no exterior em tempos de crise.

Kenji, um dos autores do relatório, comparou a indústria farmacêutica do Japão ao setor financeiro do país antes da crise de 1991: "muitas empresas, falta de competitividade, claramente com um forte subsídio e sem escala global", listou ele.

Cinco anos depois, a avaliação apresentada pelo relatório parece até uma previsão do futuro. As empresas farmacêuticas japonesas não tinham os recursos e o financiamento necessários para competir com a concorrência internacional, forçando o país a adquirir vacinas contra a COVID-19 no exterior, em vez de desenvolver uma nacional.

Quando o Japão finalmente garantiu vacinas suficientes da Pfizer e da Moderna para a população, o governo enfrentou uma decisão crucial. Com os casos de COVID-19 aumentando e as Olimpíadas se aproximando em julho, faria mais sentido agilizar a vacinação? Ou seria mais prudente seguir os protocolos padrão e realizar ensaios clínicos no país com o objetivo de provar a uma população tão cautelosa que as vacinas estrangeiras eram seguras?

O Japão optou por uma versão acelerada da última opção, diferentemente das dezenas de outras nações que aceitaram os resultados dos testes multinacionais da Pfizer e deram início à vacinação imediatamente. Haruka Sakamoto, médica e pesquisadora da Universidade de Keio em Tóquio, criticou a decisão do governo, alegando que foi motivada politicamente e "desnecessária do ponto de vista médico".

"O governo decidiu conduzir um ensaio clínico adicional para combater o movimento antivacina, a mídia e os partidos da oposição", explicou Haruka. "Por esse motivo, o início da vacinação foi adiado por 2 a 3 meses".

Mesmo após o começo tardio da vacinação no Japão em meados de fevereiro, o ritmo inicial foi lento. Segundo uma declaração de Kentaro em maio, "alcançar uma alta taxa de vacinação nunca foi o objetivo do Japão para muitas vacinas, e agora o governo está lutando para fazer algo até então inédito".

Yuji Yumada, de Nova York, fez parte de um grupo de 10 médicos que buscavam acelerar esse processo combatendo a resistência à vacina. Em fevereiro, eles lançaram uma campanha promocional para contestar rumores nas redes sociais e disseminar as lições aprendidas no exterior, contando com a ajuda de um desenho animado de cachorrinho para essa missão.

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O Corowa-kun é um chatbot vestido com um jaleco branco, como um médico, encarregado de responder às perguntas dos usuários sobre a vacina. Yuji afirmou que 80 mil pessoas chegaram a interagir com o alegre cachorrinho desde fevereiro.

"Os japoneses adoram desenhos animados", disse ele, rindo.

Mais de 10 mil usuários responderam a uma pesquisa feita pelo grupo de Yuji sobre a eficácia do Corowa-kun durante o segundo semestre.

"Após o uso do aplicativo, a taxa de confiança dos usuários em relação à vacinação subiu de 59% para 80%", revelou Yuji.

Sem dúvida, a disseminação de informações precisas ajudou a acelerar o processo de vacinação no Japão, bem como as circunstâncias cada vez mais críticas observadas no país durante o segundo semestre. O aumento nos casos impactou a economia e sobrecarregou o sistema de saúde, forçando os hospitais das cidades mais atingidas a usar salas de espera e corredores como espaços adicionais para leitos ou até mesmo a rejeitar pacientes com casos graves.

Reconhecendo a necessidade de vacinar a população, o governo japonês permitiu que paramédicos, dentistas e técnicos de laboratório começassem a administrar as doses. Hoje, mais de 1 milhão de japoneses estão sendo vacinados por dia. Esse número ainda não é suficiente para que todos os cidadãos recebam pelo menos uma dose a tempo para as Olimpíadas, mas talvez seja para novembro.

Como a comunidade médica avalia a decisão do Japão de adiar a vacinação por alguns meses no primeiro semestre para realizar ensaios clínicos adicionais? Seis meses depois, a resposta ainda não é unânime.

Yuji comentou que a vacina da COVID-19 poderia ter sofrido as mesmas consequências de outras vacinas no Japão se o governo não tivesse tomado essa medida extra para inspirar a confiança da população.

"Por isso, não posso afirmar que foi um fracasso total, mas do ponto de vista das Olimpíadas, sim", concluiu ele.

Já Haruka expôs um posicionamento mais crítico.

"Se as vacinas tivessem sido aplicadas mais cedo, naturalmente, o número de mortos e os prejuízos econômicos teriam sido menores", afirmou a médica. "Além disso, talvez assim fosse possível receber o público nos Jogos Olímpicos".

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