Ômicron: todo o caos em torno da nova variante faz sentido?

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Woman in protective suit and face mask holding test tube with sample of analysis suspected to be infected with Omicron coronavirus variant COVID-19 2019-nCoV. Concept photo. Photo illustration. (Photo by Maxym Marusenko/NurPhoto via Getty Images)
Variante Ômicron do coronavírus já foi identificada em todos os países (Foto: Maxym Marusenko/NurPhoto via Getty Images)
  • O que a variante Ômicron tem de diferente de outras cepas?

  • Desespero com a Ômicron é justificado?

  • Isolamento do continente africano faz sentido?

A Ômicron tem causado alarde em todo mundo e foi considerada pela Organização Mundial da Saúde como uma variante de risco. A consequência inicial tem sido isolar o continente africano, onde a Ômicron foi identificada, no entanto, a própria OMS afirma que a variante foi identificada em múltiplos países. A Holanda anunciou que a variante já estava no país em 19 de novembro, antes da África do Sul identificar um caso e comunicar a OMS.

Todos os continentes já identificaram casos da Ômicron – o próprio Brasil já tem casos confirmados, de brasileiros que vivem na África do Sul e estavam vacinados com uma dose do imunizante da Janssen.

Especialistas alertam que a nova variante tem motivos, de fato, para chamar atenção e ligar alerta de governantes – em especial no que diz respeito às medidas de flexibilização -, mas o isolamento do continente africano não se justifica.

O que a variante Ômicron mostrou ter de diferente das outras até aqui?

Anderson F. Brito, virologista e pesquisador científico do Instituto Todos pela Saúde (ITpS), explica que a Ômicron tem um padrão de mutações que afeta principalmente a proteína Spike, ou proteína S. Esse é o mecanismo usado pelo vírus para entrar nas nossas células.

“As mudanças na Spike afetam principalmente uma região específica da proteína usada para interagir com os nossos receptores celulares. É como se a chave que o vírus usa para entrar nas células tivesse mudado de forma drástica”, afirma.

Ethel Maciel, epidemiologista, professora da Universidade Federal do Espírito Santo e pós-doutora pela Universidade Johns Hopkins, lembra também que as vacinas de RNA, como da Pfizer e da Moderna, se utilizam da proteína S para proteger os seres humanos do coronavírus.

“Nós não sabemos muita coisa, mas o conjunto de mutação que ela tem, são muitas mutações na proteína S, isso pode ter impacto nas vacinas que nós temos, principalmente aquelas vacinas de RNA, de vetor viral - que foram desenvolvidas tendo como alvo a proteína S. Então, o mundo fica em alerta, é uma variante de preocupação e que a gente precisa fazer os estudos – e as empresas já anunciaram que precisariam de duas semanas para ver se a variante vai ter impacto na vacina. Isso tudo vai acontecer, a gente vai precisar seguir para entender melhor.”

A Pfizer e a Moderna já anunciaram que começaram a desenvolver novas versões de seus imunizantes com foco na Ômicron. Ao mesmo tempo, fazem testes para saber se a versão usada hoje é eficaz contra a nova variante. Esta análise é essencial para definir como a Ômicron deve ser encarada.

Desespero é justificado?

Tanto Anderson Brito quanto Ethel Macial reforçam que as medidas contra a Ômicron são as mesmas usadas até aqui contra todas as outras cepas do coronavírus.

“O momento pede cautela. Ainda não sabemos ao certo o que a Omicron representa, mas suas características genéticas mostram que devemos manter a atenção. Pânico não é a resposta”, afirma o virologista Anderson Brito.

Ethel Maciel lembra que as medidas essenciais são as que todos já conhecem: tomar vacina, usar máscaras, evitar aglomerações, manter distanciamento e lavar as mãos. Ao mesmo tempo, o surgimento de uma nova variante, potencialmente mais transmissível, deve ligar o alerta de governantes, que já pensava na flexibilização das medidas contra a covid-19.

“Essa variante coloca em estado de alerta, principalmente com a flexibilização da retirada de máscara, porque com certeza a gente vai precisar continuar com as máscaras. A necessidade da máscara, inclusive, a gente já está vendo outros países, como Reino Unido, que colocam de novo a restrição e a necessidade de utilização de máscaras em locais fechados”, lembra.

O estado de São Paulo, por exemplo, havia anunciado que, a partir de 11 de dezembro, as máscaras estariam liberadas em espaços abertos e pode ser revista. Diversas capitais brasileiras estão cancelando festas de ano novo com o objetivo de evitar aglomerações.

Isolamento do continente africano faz sentido?

A medida tomada pelo Brasil e por diversos outros países tem sido isolar a África – onde a variante foi identificada pela primeira vez.

No Brasil, por exemplo, está vetada a entrada de voos de África do Sul, Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbábue. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda recomendou que sejam impedidos de chegar ao país voos de Angola, Malawi, Moçambique e Zâmbia.

Ethel Maciel lembra que o tempo de uma variante se espalhar é o mesmo tempo de alguém pegar um voo – e chegar infectado a outro país. Neste sentido, ela considera um erro o isolamento do continente africano. “A variante não está só lá. Muito provavelmente, se ela for mais transmissível, como está parecendo que é, ela já deve estar espalhada em diversos países”, aponta.

A questão é que alguns países têm melhor sistema de vigilância que outros. “A África do Sul tem um sistema de vigilância muito robusto, já desenvolvido há muito tempo por conta da tuberculose e da Aids, que eles monitoram. Tem um programa de sequenciamento genômico muito bem estabelecido, eles identificaram primeiro, mas a variante não surgiu lá – inclusive, a OMS reconhece que essa variante surgiu em múltiplos países, não coloca como origem a África do Sul, porque, na verdade, a África do Sul identificou primeiro, mas, ao que tudo indica, não é uma variante que veio de lá”, lembra.

Anderson Brito afirma que, talvez, na primeira semana, evitar voos de outros países fosse uma medida efetiva, mas perde o sentido dali para frente. "O vírus se dissemina muito fácil. Se hoje está na África do Sul, amanhã poderá estar no Japão, e já pode ter estado em vários outros países antes: se foi detectado pela primeira vez na África do Sul, não significa que só está ou só estará ali”, opina.

“Bloquear voos apenas dos países de detecção das variantes é uma ação meramente simbólica no longo prazo, e em muitos países a medida é usada para passar uma impressão de que uma ‘ação enérgica está sendo tomada’. Mas o que se deveria fazer todos sabemos: testagem e quarentena de viajantes na chegada, bem como exigência de prova de vacinação e teste RT-PCR negativo anterior ao voo”, afirma o virologista.

O que o Brasil poderia fazer?

As sugestões de Ethel Macial e Anderson Brito vão no mesmo sentido: o mais eficaz para prevenir que a Ômicron se dissemine no Brasil seria fortalecer o sistema de vigilância e melhorar o controle de entrada de pessoas que chegam de qualquer país, não apenas de países africanos.

“A melhor solução que a gente tem nesse momento é que todos os viajantes internacionais, independente do país, façam o PCR, façam o isolamento e a gente possa, então, independentemente do local, fazer um controle melhor de entrada. A outra coisa é uma vigilância genômica, ampliar a testagem, qualquer pessoa fazer o teste e fazer o isolamento”, afirma Ethel Maciel.

Anderson Brito cita a necessidade de:

  • Testagem de viajantes na chegada

  • Quarentena de viajantes

  • Exigência de prova de vacinação

“A resposta são medidas de saúde pública eficazes, que já conhecemos bem, e já são adotadas por vários países para desacelerar a entrada de um novo vírus”, afirma o virologista.