Onda de calor no RS pode causar desabastecimento hídrico, quebra na safra e problemas de saúde; veja como amenizar os efeitos

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RIO — A onda de calor que chegou ao Rio Grande do Sul deve se intensificar nesta sexta-feira e atingir a marca recorde de 43ºC. No final desta semana, a tendência é que a massa de ar quente comece a se espalhar para as demais regiões do Sul do país, segundo meteorologistas da Climatempo e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Com o clima quente e seco, especialistas alertam para um possível agravamento no abastecimento de água e no setor agrícola, e apontam que cuidados com a saúde, especialmente de idosos e crianças, devem ser redobrados.

Segundo dados levantados pela Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do RS, até o dia 7 de janeiro cerca de 195 mil propriedades sofreram perdas por causa da estiagem e 10,2 mil famílias estavam sem acesso à água. Para o engenheiro agrônomo Luís Fernando Guedes, com o maior consumo de água pelas pessoas e na agricultura devido ao calor, é possível que o desabastecimento hídrico na região se acentue. Neste período, é essencial fazer uso moderado da água e ficar atento a possíveis vazamentos.

— Estes fenômenos fazem com que se use mais água para irrigação e consumo próprio, então pode ser que esse problema que o estado enfrenta com a estiagem seja agravado. Mas por durar apenas alguns dias, a onda de calor não é capaz de gerar uma crise drástica de abastecimento. O calorão só vai agravar áreas que já se encontram afetadas, então é importante economizar esse bem precioso — aponta o especialista.

Desde dezembro do ano passado, cerca de 200 municípios do RS decretaram situação de emergência à Defesa Civil em razão da estiagem. Em nota, o governo estadual disse que a seca na região está relacionada ao fenômeno La Niña, que provoca chuvas muito irregulares e mal distribuídas, e que programas de apoio à agricultura familiar e às famílias atingidas já estão sendo disponibilizados.

Segundo Guedes, o calor extremo compromete o crescimento e desenvolvimento das plantações, pois a intensificação do processo de evapotranspiração faz com que a vegetação perca nutrientes vitais. No Sul do país, safras de arroz, milho e soja podem ser afetadas e apenas mudanças climáticas são capazes de amenizar os efeitos.

— As ondas de calor acima de 30ºC causam estresse nas plantas, fazendo com que elas não frutifiquem e quebrem safras inteiras. Com o aquecimento se agravando a cada dia, às vezes, nem chuvas intensas resolvem o problema. Mas é ideal repensar como estamos poluindo o planeta. Famílias inteiras que vivem da agricultura podem ser atingidas, apesar de a onda de calor não ser um potencial para desabastecimento de alimentos, por exemplo — ressalta.

No cuidado com a saúde, o cardiologista Alexandre Scotti, coordenador da Unidade Cardiointensiva do Hospital Badim, aponta que é essencial se manter hidratado, especialmente crianças abaixo de 5 anos e idosos, que têm maior potencial de desidratação. Segundo a Defesa Civil de Porto Alegre, os índices de radiação ultravioleta atingirão níveis entre 11 e 16, marcadores que requerem cuidado extremo. Entre as dicas para se proteger do calorão estão:

— Os centro urbanos devem sofrer mais com o clique quente, devido à presença de prédios, asfalto e poucas árvores. Outra saída é recorrer a áreas verdes, com bastante ventilação — acrescenta Scotti.

A Defesa Civil e a Comissão Permanente de Atuação em Emergência (Copae), integrada pelos órgãos municipais informam que estão em alerta e acompanhando as atualizações da previsão do tempo, com equipes prontas para atendimento à população.

De acordo com o meteorologista do Inmet Rogério Rezende, um bloqueio atmosférico, que impede a passagem de frentes frias, é o motivo que favorece a nova onda de calor no RS. O efeito é gerado especialmente por um corredor de umidade presente no sudeste — responsável pelas fortes chuvas em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo —, e por uma oscilação climática na Antártica somada ao fenômeno La Niña.

— A onda de calor no Sul acontece influenciada por uma oscilação climática na Antártica, pelo corredor de umidade que pega o sudeste, chamada de Zona de Convergência do Atlântico Sul, principalmente. Isso faz com que a massa de ar não seja renovada na região e ocasione temperaturas elevadas. Além disso, o clima quente em países da fronteira favorece o calor intenso — explica o meteorologista.

A combinação desses fatores atinge também outros países da América do Sul, como Argentina, Uruguai e Paraguai. O calorão deve ganhar força a partir do final desta semana, fazendo com que as máximas fiquem entre 10ºC e 15ºC acima do normal, segundo informações do site MetSul Meteorologia. Considerado o pior fenômeno registrado em décadas nos países, o sistema de ar quente fez com que no Réveillon a cidade argentina de Rivadavia atingisse a marca de 46,6ºC. A temperatura pode chegar a 50ºC em alguns estados, com sensação térmica ainda mais elevada.

Apesar do Sul do Brasil ser conhecido pelo frio intenso, quase todos os anos a região tem dias extremamente quentes no verão, com temperaturas em torno de 40°C. A nova onda de calor deve fazer com que a Grande Porto Alegre supere o recorde de 40,6°C, registrado em 6 de fevereiro de 2014. A maior temperatura já registrada no extremo Sul foi 42,6ºC, em Jaguarão, no ano de 1943, que deve ser superada este ano.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu aviso de perigo para 216 municípios em razão da onda de calor no RS. Mas, segundo Rezende, o alerta deve se espalhar para todas as 497 cidades do estado.

De acordo com o portal Climatempo, no domingo, uma frente fria chega ao Rio Grande do Sul, causando choques térmicos devido ao vento frio, e ocasionando temporais intensos sobre o estado.

A chuva virá acompanhada por trovoadas, rajadas de vento de até 80km/h, principalmente na região da Campanha Gaúcha, e possibilidade de queda de granizo em algumas áreas. A segunda quinzena do mês tende a ser mais chuvosa e menos quente do que no começo do ano, segundo a meteorologia.

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